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“Existem dois tipos de pessoas: os vencedores e os perdedores”. Se formos levar tal afirmação em consideração, então todos os membros da família Hoover seriam considerados perdedores. O pai, Richard (Greg Kinnear), é um orador motivacional – e autor da frase que ilustra o início deste texto –, e que espera tirar sua família da falência ao conseguir um contrato literário. A mãe, Sheryl (Toni Collette), é a única que aparenta ter controle emocional e segura as pontas dos problemas familiares, mas, como veremos, ela está prestes a desmoronar. O filho, Dwayne (Paul Dano), fez um voto de silêncio até conseguir entrar na Academia da Força Aérea e estudar para ser piloto. A filha, Olive (Abigail Breslin), imita as misses que tanto quer ser. O avô, Edwin (Alan Arkin), é viciado em heroína. E o tio, Frank (Steve Carell), recentemente tentou se matar.
É esta família disfuncional que a trama do filme “Pequena Miss Sunshine” segue. A platéia irá acompanhar os Hoover numa viagem que eles farão a bordo de uma Kombi amarela problemática (que só pega à base de empurrões) de Albuquerque até a cidade de Redondo Beach, aonde Olive – que tirou segundo lugar no concurso de misses local – vai representar sua cidade no concurso de Little Miss Sunshine. Assim como acontece em outros road-movies, nesta viagem todos estes personagens irão passar por uma transformação e vão ter que começar a aceitar que são realmente um bando de perdedores. É essa a condição principal para que eles possam se entender e ter uma vida melhor em família.
“Pequena Miss Sunshine” é somente mais um dos filmes de Hollywood a abordar a temática do perdedor. Numa sociedade extremamente competitiva como a norte-americana, ser um perdedor, na maioria das vezes, representa ser visto de uma maneira bastante pejorativa pelos outros. No caso particular de “Pequena Miss Sunshine”, o roteiro de Michael Arndt faz exatamente o contrário e escancara a mediocridade daqueles que querem ser os vencedores – especialmente a partir do momento em que o concurso de Little Miss Sunshine começa.
O filme, que marca a estréia de Jonathan Dayton e Valerie Faris (que são conhecidos pelo trabalho que fizeram nos videoclipes de “Tonight, Tonight”, do Smashing Pumpkins, e “Californication”, do Red Hot Chili Peppers) na direção de longas-metragens, é um filme que funciona. O roteiro de Michael Arndt é excelente e as performances de todo o elenco são espetaculares – especialmente a da garotinha Abigail Breslin. Não se surpreenda se ela figurar na lista de indicadas ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2007. Desde Dakota Fanning, o cinema não via uma atriz infantil tão promissora.
Cotação: 9,8
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Para quem costuma acompanhar a programação televisiva do Brasil, fica até estranho notar – quando da aparição dos créditos iniciais do filme “Fica Comigo Esta Noite”, de João Falcão (também co-autor do roteiro ao lado de sua esposa Adriana Falcão e de Tatiana Maciel) – a inclusão de um “apresentando” próximo ao nome da atriz Alinne Moraes, que já tem cinco novelas e algumas participações em seriados no currículo. Mas, este é o primeiro papel de Moraes no cinema e, infelizmente, a escolha pelo filme baseado na peça homônima de Flávio de Souza e que foi um grande sucesso há cerca de dez anos, não foi das mais acertadas.
“Fica Comigo Esta Noite” explora o conceito do amor eterno, ou melhor, do que acontece quando a morte separa o destino de um casal. O músico e desenhista de histórias em quadrinhos Eduardo (Vladimir Brichta, um colaborador assíduo de João Falcão) conhece Laura (Alinne Moraes) em uma livraria. O amor que nasce entre os dois é fulminante e eles rapidamente se casam. No entanto, o casal briga por qualquer besteira. Uma coisa que Laura nota desde o início sobre Eduardo é que ele – assim como um cachorro obediente – tem a mania de se fingir de morto quando uma discussão se inicia.
No início, esta brincadeira de Eduardo tinha até o seu charme. No entanto, na medida em que o tempo passa, ela vai ficando cada vez mais sem-graça. No dia em que a tal brincadeira de se fingir de morto acontece de verdade, nem Laura e, muito menos, Eduardo irão acreditar nela. Quando Eduardo começa a perceber que realmente estava morto, ele começará a se arrepender de várias coisas – uma delas: a de não ter tido a chance de se despedir de maneira adequada de Laura. Dessa maneira, Eduardo fica vagando pelo mundo dos vivos e contará com a ajuda do Fantasma de Coração de Pedra (Gustavo Falcão, sobrinho de João Falcão) – um dos personagens dos gibis criados por Eduardo – e do anjo Mariana (interpretada quando mais jovem por Clarice Falcão – quanto membro da família Falcão neste filme, hein? – e por Laura Cardoso, na idade adulta) para conseguir se despedir de sua amada e ir desfrutar do descanso eterno que merece.
“Fica Comigo Esta Noite” tem, pelo menos, um ponto positivo: não aborda seu tema principal de maneira muito sentimentalista. No entanto, o filme tem mais erros do que acertos. A linha narrativa – que mistura o passado, com o presente e com o futuro – chega a ser muito confusa. A direção de João Falcão é burocrática. A trilha sonora de Robertinho do Recife não funciona. A produção do filme não é cuidadosa. A estética lembra a de um programa televisivo. Ou seja, “Fica Comigo Esta Noite” é igual a muitos outros filmes brasileiros que estréiam nas salas de cinema do país e que teimam em estagnar a nossa indústria cinematográfica, sem apresentar algum elemento novo e inovador, que a coloque no mesmo patamar de outras escolas latino-americanas, como, por exemplo, a Argentina – que no cinema ainda ganha de nós de goleada.
Cotação: 2,0
Crédito Foto: Yahoo! Cinema
Nos últimos anos, o diretor Martin Scorsese se dedicou a uma verdadeira obsessão sua: vencer a tão cobiçada estatueta do Oscar. Ao longo de sua aclamada carreira, Scorsese teve várias chances de realizar este sonho, mas, por uma razão ou outra, isso nunca aconteceu. Alguns dizem que seus filmes são muito controversos para o gosto da conservadora Academia. Então, Scorsese modificou o seu jeito de fazer cinema. Foi grandioso – e exagerado – no regular “Gangues de Nova York” e no ótimo “O Aviador” – filmes que nem parece que saíram de suas mãos.
Como a estratégia de se moldar ao gosto da Academia não deu certo, Martin Scorsese volta a uma temática que ele domina – a violência e como ela acaba influenciando nas vidas de grupos que se dedicam à ela – tendo ainda em mente aquele sua velha vontade. No filme “Os Infiltrados”, que é baseado na película “Conflitos Internos” (2002), Scorsese também acaba mudando de ares. Sai de sua habitual Nova York e invade os subúrbios de Boston.
O prólogo de “Os Infiltrados” é longo e necessário. Através dele, ficamos conhecendo os dois pólos opostos que vão mover a trama criada por William Monahan: Collin Sullivan (Matt Damon, ele próprio um garoto do subúrbio de Boston) e Billy Costigan (Leonardo DiCaprio, que emulou direitinho a figura de Robert de Niro, o antigo ator favorito de Scorsese). Apesar de parecer que, por causa de suas criações diferentes (Collin foi criado no subúrbio, enquanto Billy cresceu num bairro mais chique), os dois são muito diferentes, eles guardam muitas semelhanças – que ficarão ainda mais notáveis no desenvolvimento da trama de “Os Infiltrados”.
Billy e Collin são descendentes de irlandeses, inteligentes e tentam uma carreira na polícia estadual de Boston. Collin terá uma ascensão meteórica na organização (sai da Academia direto para o posto de detetive na divisão de investigações especiais da polícia). Já Billy é expulso da Academia antes mesmo de se formar policial, pois deu um soco na cara de um dos instrutores. Além disso, os dois possuem ligação com o crime organizado – Collin é o protegido do mafioso Frank Costello (Jack Nicholson, excelente na interpretação de um personagem que parece com ele mesmo) e Billy tem parentes ligados à máfia de Costello.
Conhecer estes primeiros detalhes será de fundamental importância para a platéia, pois, na trama principal de “Os Infiltrados”, Collin é designado para uma investigação que tem como objetivo descobrir quem é o informante de Frank Costello na polícia – ou seja, ele tem que investigar ele mesmo. Por outro lado, Costello manda que seu protegido descubra para ele quem é o agente da polícia infiltrado em sua organização criminosa. Esta última tarefa será particularmente difícil, pois os únicos que sabem que Billy é o policial infiltrado na gangue de Costello são Dignam (Mark Wahlberg, outro que conhece muito bem os subúrbios de Boston) e Oliver Queenan (Martin Sheen).
O grande eixo da trama de “Os Infiltrados”, com certeza, é a implicação de se viver uma vida dupla, nos casos de Collin Sullivan e Billy Costigan. Como veremos, aos poucos todas as mentiras que eles contam para se proteger e todas as barreiras que eles erguem para evitar um contato maior com outras pessoas vão tomando conta de suas vidas até chegar a um ponto em que eles não têm mais identidade própria. Isso fica ainda mais evidente quando Billy e Collin começam a se envolver com a mesma mulher, a psicóloga da polícia Madolyn (Vera Farmiga).
Desde o início de “Os Infiltrados”, a platéia tem a certeza de que nada disso vai dar certo e que, a qualquer momento, a vida dupla de Billy e Collin será descoberta. Martin Scorsese e William Monahan vão adiando essa situação até o último momento, preferindo – acertadamente – colocar ao máximo os seus infiltrados contra a parede. Essa é a grande sacada desse filme, e por isso que ele é tão bem-sucedido em colocar a platéia dentro de sua ação.
Neste sentido, é muito bom notar que a mão de diretor de Martin Scorsese não andava engessada e no piloto automático – impressão esta dada pelos seus dois últimos filmes. “Os Infiltrados” representa uma injeção de sangue novo em sua carreira e faz totalmente jus à sua filmografia passada - em que a violência era retratada sem máscaras para enfatizar a noção de que ela era somente mais um dos elementos que fazem parte do mundo em que vivemos. A película acerta em quase tudo, especialmente no roteiro, no tom das interpretações de seu excelente elenco (que ainda conta com Ray Winstone, Anthony Anderson e Alec Baldwin, dentre outros), na trilha sonora (que possui músicas de Rolling Stones, John Lennon, Patsy Cline e Van Morrison com Roger Waters, do Pink Floyd), na fotografia de Michael Ballhaus e na edição de Thelma Schoonmaker (uma antiga colaboradora de Scorsese); e termina de maneira metafórica com a imagem de um rato e, no fundo, a Assembléia Legislativa de Boston. Em “Os Infiltrados”, os ratos receberam algum tipo de justiça, mas e quanto aos ratos do mundo real? Aqueles que teimam em continuar impunes?
Resta agora esperar para ver se, sendo fiel a si mesmo, Martin Scorsese vai realizar o seu grande sonho. Está dada a largada para a corrida pelo Oscar!
Cotação: 9,5
Crédito Foto: Yahoo! Movies
“A platéia quer ser enganada. Eles não estão prestando a devida atenção”. Essa é a última frase do filme “O Grande Truque”, do diretor Christopher Nolan (que foi co-autor do roteiro do filme com o irmão Jonathan Nolan). Esta afirmação também poderia muito bem ser um complemento do monólogo final de Robert Angier (Hugh Jackman), no qual ele faz um longo discurso sobre o fascínio dele em subir noite após noite nos palcos para fazer o seu show de magia. A razão maior por trás de tanta obsessão era não só o olhar da platéia, mas sim a questão de fazê-los entrar em dúvida, num determinado momento, tentando imaginar se o que ela estava vendo era uma ilusão ou uma realidade.
Os dois discursos poderiam muito bem se referir ao cinema, uma arte que – de certa maneira – ilude e transporta o público para uma outra realidade. No entanto, as palavras de Robert Angier e de seu engenheiro Cutter (Michael Caine) se aplicam à magia, que ganha um status de arte no filme de Christopher Nolan. É através da mágica que a trama de “O Grande Truque” se desenrola, que os conflitos surgem e que Nolan mostra a sua mensagem e os seus dois personagens centrais – homens que tentam ultrapassar um ao outro, sem medo de enfrentar o impossível.
Robert Angier e Alfred Borden (Christian Bale) nunca foram aquilo que podemos chamar de amigos. Apesar de terem convivido juntos por boa parte de sua vida, o que se estabeleceu entre eles foi uma rivalidade nada sadia. A princípio, Borden e Angier trabalhavam como assistentes de um famoso mágico e ambos esperavam a sua chance de brilhar sozinhos em um palco. Eventualmente, os dois conseguirão essa chance. Mas, até ela chegar, o abismo, a disputa e a animosidade que existiam entre eles ficam ainda mais profundas.
Isso acontece em decorrência de várias razões. A esposa de Robert, Julia (Piper Perabo), morre em decorrência de um acidente de trabalho – que pode ou não ter sido causado intencionalmente por Alfred. Quando os dois se reencontram, depois de algum tempo, Alfred está casado e com uma filha; enquanto Robert continua sozinho. Quando Alfred se torna um mágico de sucesso, graças ao seu truque do “Homem Transportado”, Robert não hesita em gastar todo o seu dinheiro e em viajar pelo mundo para encontrar uma maneira de superar o truque do “amigo”, numa luta que não chegará ao fim, pois nenhum dos dois nunca estará satisfeito.
De acordo com Cutter, uma mágica é feita de três atos. No primeiro, que tem o nome de “a promessa”, o mágico mostra à platéia uma coisa que é comum, quando, obviamente, ela não o é. No segundo, chamado “a virada”, o mágico transforma sua coisa comum em algo extraordinário. Já no terceiro ato, que se chama “o grande truque”, a platéia presencia algo cheio de mudanças e reviravoltas, em que a vida fica por um fio, e você vê algo chocante e nunca visto antes.
O filme “O Grande Truque”, na realidade, possui todos estes três elementos; o que o faz ser considerado como uma grande mágica. As reviravoltas da trama criada por Christopher e Jonathan Nolan (com base no livro de Christopher Priest), mesmo sendo previsíveis em alguns casos, chegam a surpreender nos momentos mais importantes da trama. Por esta razão, “O Grande Truque” é um filme que merece uma segunda visita, para que as peças do quebra-cabeça montado pelos irmãos Nolan sejam encaixadas de maneira mais clara.
Este é mais um grande trabalho do diretor Christopher Nolan. Aqui, encontramos alguns elementos que são recorrentes em sua curta – e expressiva – obra. Mais uma vez, o diretor e roteirista trabalha com personagens que não têm medo de entrar em contato com seu lado obscuro e de testar os seus limites. Neste sentido, Nolan contou com a extraordinária colaboração de sua dupla de atores centrais. Hugh Jackman e Christian Bale entregam as melhores performances de sua carreira.
Além do trabalho expressivo de roteiro, direção e atuação, vale a pena prestar atenção também na direção de arte, na edição, na fotografia, na trilha sonora original e nos figurinos de “O Grande Truque”, pois eles são primorosos e muito contribuem para essa atmosfera de ilusão e realidade que predominam durante o filme. Ah, e fique de olho na pequena (e ótima) participação do cantor David Bowie como o famoso inventor Nikolas Tesla.
Cotação: 9,5
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Não é segredo nenhum para ninguém que a indústria cinematográfica hollywoodiana passa por uma grande crise. Não só em relação à audiência, como também o relacionado à filmagem de bons roteiros. A sede de Hollywood por boas histórias é tão grande, que o impossível aconteceu e eles abriram o seu mercado para diretores e roteiristas estrangeiros. No entanto, a maior praga dessa crise de roteiro são as chamadas refilmagens; e, claramente, Hollywood não tem um critério bem definido sobre quais histórias merecem uma segunda visita.
“O Sacrifício”, refilmagem de “O Homem de Palha” (filme dirigido por Robin Hardy, em 1973), pertence ao grupo de refilmagens que nem mereciam sequer serem feitas. A película conta a história do policial Edward Malus (Nicolas Cage, que também produziu o filme), que, depois de presenciar um trágico acidente envolvendo mãe e filha, decide tirar umas férias do departamento. O descanso de Edward chega ao fim quando ele recebe uma carta de Willow (Kate Beahan), sua ex-noiva, o informando do desaparecimento de sua filha Rowan (Erika-Shaye Gair). Willow quer que Edward a ajude a reencontrar sua filha.
É assim que Edward acaba embarcando para Summersisle, uma espécie de ilha privada. A localidade lembra muito à do filme “A Vila” na sua essência medieval, isolada e cooperativa. Mas, uma olhada mais profunda em Summersisle mostra que ela difere muito da vila de Shyamalan, pois ela é um território exclusivamente feminino, aonde as mulheres ocupam as posições de poder e os homens ocupam um papel submisso e desempenham exclusivamente as atividades braçais e a figura de procriador e de mantenedor da linhagem pura que se estabeleceu em Summersisle.
Esse mundo acaba sendo muito para a cabeça de Edward. O policial está obviamente sofrendo de um estresse pós-traumático devido ao acidente que presenciou no início de “O Sacrifício” e começa a se questionar se o que vive em Summersisle é verdade ou mentira; e se as pessoas que ele enfrenta e questiona são mocinhas ou bandidas.
No papel, “O Sacrifício” é até um filme interessante. Na prática, o filme peca por uma sucessão de erros. A película começa bem, com uma cena imprevisível e intrigante, mas, depois, entra numa teia sem pé nem cabeça que é uma culpa exclusiva do seu diretor e roteirista Neil LaBute (do ótimo “A Enfermeira Betty”). Não importa se “O Sacrifício” tem um bom elenco (além dos que já foram citados, aparecem no filme Ellen Burstyn, Frances Conroy, Diane Delano, Leelee Sobieski, James Franco e Jason Ritter). O máximo que eles conseguem é arrancar vários risos da platéia (quando o esperado seria o contrário). Nada poderá salvar “O Sacrifício” da sua própria mediocridade. O que nos leva de volta à discussão do início do texto: para quê revisitar aquilo que não merecia nem uma primeira olhada?
Cotação: 1,0
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Muita gente se surpreendeu quando o Ministério da Cultura anunciou o filme “Cinema, Aspirinas e Urubus”, do diretor Marcelo Gomes (que também co-escreveu o roteiro do filme ao lado de Karim Ainouz e Paulo Caldas), como o representante oficial do Brasil na tentativa de indicação ao Oscar 2007 de Melhor Filme Estrangeiro. Não porque o filme seja de má qualidade, e sim, pois ele não tinha o apoio de uma grande produtora nacional, como a Globo Filmes. A concorrência de “Cinema, Aspirinas e Urubus” à indicação foi grande e incluía filmes como “A Máquina”, “Anjos do Sol”, “Bens Confiscados”, “Cafundó”, “Depois Daquele Baile”, ”Doutores da Alegria”, “Estamira”, “Irma Vap – O Retorno”, “O Maior Amor do Mundo”, “Tapete Vermelho”, “Vida de Menina” e o que todos consideravam o favorito para a indicação, “Zuzu Angel”.
“Cinema, Aspirinas e Urubus” começa mostrando Johan (Peter Ketnath), um imigrante alemão. Ele dirige um caminhão, nos anos 40, em pleno sertão pernambucano e está aparentemente perdido no meio do nada. A princípio, nós da platéia não saberemos nada sobre ele ou sobre o que ele faz. Talvez para conseguir se direcionar no meio do sertão, Johan contrata como seu ajudante, Ranulpho (João Miguel, numa grande performance), um homem que busca uma oportunidade de crescer na vida longe do sertão pernambucano e que, por isso, não hesita em aceitar a proposta que Johan lhe faz.
O filme adota o formato de road movie para contar a história de Johan e Ranulpho rumo à cidade de Triunfo. Nessa viagem, eles entrarão em contato com as pessoas e com a cultura do sertão nordestino. Ao mesmo tempo, apresentarão um mundo novo aos habitantes das localidades que visitam, pois, em cada nova cidade que chegam, Johan (que, agora sabemos, trabalha como caixeiro viajante vendendo aspirinas) e Ranulpho armam acampamento, montam um cinema e passam um filme que mostra os benefícios que a aspirina traz aos seus consumidores. Portanto, pessoas que têm pouco dinheiro para comprar comida, acabam desperdiçando suas economias nas aspirinas de Johan. Essa viagem também marca o início de uma amizade que surge entre Johan e Ranulpho. Apesar das origens culturais diferentes, os dois têm muito em comum, afinal ambos estão fugindo de algo – Johan, de seu país natal e da guerra; Ranulpho, da fome e da miséria.
É muito cedo para dizer se “Cinema, Aspirinas e Urubus” terá chances de ser indicado ao Oscar 2007 de Melhor Filme Estrangeiro. Neste exato momento, a única certeza é a de que o grande favorito à estatueta é “Volver”, do diretor espanhol Pedro Almodóvar. No entanto, os relatos iniciais são animadores. Quem esteve presente na exibição de “Cinema, Aspirinas e Urubus” aos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas afirma que o filme foi aplaudido no final e manteve um número considerável de votantes atentos até o final da sessão. De qualquer maneira, indicado ou não, a atenção que “Cinema, Aspirinas e Urubus” vem conquistando na mídia estrangeira já é um grande prêmio.
Cotação: 7,0
Crédito Foto: Web Cine
Todo mundo tem um amigo (a) inconveniente, do tipo que só aparece nos momentos errados e que só fala aquilo que não deve. Dupree (Owen Wilson) é um desses amigos. E, pior: apesar de ter 36 anos, vive como um adolescente e, enquanto seus amigos amadurecem, se casam e evoluem nas carreiras profissionais, ele se mantém solteiro, em busca de aventuras e de um emprego que lhe permita manter o estilo de vida que possui – sem responsabilidade alguma.
"Dois é Bom, Três é Demais”, filme dos diretores Anthony e Joe Russo, começa quando todos os personagens do filme estão no Havaí para o casamento de Carl (Matt Dillon) e Molly (Kate Hudson). O noivo é o melhor amigo de Dupree, o qual, por sua vez, será o padrinho do casamento. Se o final de semana no Havaí marca o início de uma nova etapa na vida de Carl e Molly, o mesmo não pode ser dito a respeito de Dupree – que teve que faltar ao trabalho para viajar ao Havaí e, por isso, acabou perdendo o seu emprego, a casa e o carro. Se sentindo culpado, Carl convida Dupree para morar provisoriamente em sua casa, até que ele coloque sua vida de volta nos eixos. No entanto, o que era provisório começa a ganhar uma cara de permanente quando Dupree dá sinais de que não vai deixar tão cedo a casa dos recém-casados.
A partir do momento em que Dupree se muda para a casa de Carl e Molly, “Dois é Bom, Três é Demais” começa a ficar bastante previsível. É óbvio que a presença de Dupree na casa dos recém-casados vai afetar negativamente no relacionamento de Carl e Molly. É óbvio que essa situação só vai se agravar quando Carl começa a ser pressionado pelo sogro (Michael Douglas) que o odeia. É óbvio que Carl começará a sentir ciúmes quando notar a aproximação cada vez mais crescente entre Molly e Dupree. É óbvio que a amizade de 25 anos existente entre Carl e Dupree irá estremecer. E é óbvio que todo mundo vai acabar tendo um final feliz.
Dupree realmente é um cara irritante, imaturo e inconseqüente. Por causa disso, não existe melhor ator do que Owen Wilson – ele próprio um homem irritante e imaturo – para interpretá-lo. O roteiro de “Dois é Bom, Três é Demais”, de Mike LeSieur, foi escrito sob medida para o tipo de comédia que ele gosta de fazer. Pena que o texto do filme deixa pouco terreno para que Matt Dillon e Kate Hudson, dois atores bem melhores do que Wilson, possam brilhar.
Cotação: 3,0
Crédito Foto: Yahoo! Movies
O urso pardo é um tipo de animal que é um dos maiores do gênero. Apesar de ele ter uma dieta variada, sua presença junto ao homem não é recomendada, pois ele é um animal de natureza solitária, mas que convive pacificamente com outras espécies quando há uma abundância de alimento. No entanto, Boog (dublado por Martin Lawrence na versão original) não é igual aos outros animais de sua espécie. Desde quando ele era um bebê, ele foi domesticado pela ambientalista Beth (dublada por Debra Messing, a Grace do seriado "Will & Grace", na versão original), que lhe deu amor, carinho e conforto; além de uma casa, uma cama confortável, comida, entre outras coisas. Em decorrência disso, Boog convive bem com os seres humanos e é a atração principal de um show de variedades.
A boa convivência de Boog com os humanos fica ameaçada quando ele conhece o cervo tagarela Elliot (dublado por Ashton Kutcher na versão original). Através deste, o urso pardo arruma uma série de encrencas na cidade aonde mora. Fatos estes que farão com que Beth tome uma decisão que vinha sendo adiada há tempos: a de devolver Boog ao seu habitat natural, a floresta.
A trama principal de “O Bicho Vai Pegar”, animação dos diretores Roger Allers, Jill Culton e Anthony Stacchi, é a que acompanha a jornada de Boog em busca do caminho de volta para a casa de Beth e tudo aquilo que ela representa para ele (o amor, a proteção, o apoio, entre outras coisas). Como em todo outro filme que retrata este mesmo tema, Boog conhecerá, no seu caminho, outros animais que lhe mostrarão um lado – até então – desconhecido para ele da vida na floresta e que envolve a cooperação e o companheirismo que existe entre os animais de diferentes espécies.
Com o passar do tempo em “O Bicho Vai Pegar”, uma segunda trama ganha destaque: a que coloca os animais da floresta em confronto com os caçadores que vão ao local em decorrência da abertura da temporada de caça. No melhor estilo “Esqueceram de Mim”, os animais preparam uma série de armadilhas inusitadas para se protegerem da fúria dos caçadores.
Como em todo outro filme de animação, “O Bicho Vai Pegar” se apóia no carisma de seus personagens principais para ganhar a simpatia da platéia. Por outro lado, é muito fácil para nós nos identificarmos com a jornada de Boog. No entanto, o filme não adiciona nenhum elemento novo a uma história que já foi contada de diversas maneiras no cinema – a mais clássica delas seria a viagem de Dorothy por um mundo mágico até voltar para a casa de seus tios no Kansas em “O Mágico de Oz”, filme do diretor Victor Fleming.
Cotação: 5,5
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Jack Giamoro (Ben Affleck, numa boa performance) – o protagonista do filme “Um Cara Quase Perfeito”, do ator, diretor e roteirista Mike Binder – tem uma postura bastante reservada. Ele procura evitar qualquer tipo de artifício que o faça revelar seus segredos ou confrontar sua vida e relacionamentos. Portanto, dá para se ter uma idéia do quão difícil deve ter sido para ele decidir participar de um curso de autoconhecimento, ministrado pelo professor Dr. Primkin (John Cleese), um senhor de atitude rude e de economia com as palavras.
A atividade principal que o Dr. Primkin propõe aos seus alunos é a seguinte: cada um deles deve escrever um diário. A cada semana, o grau de dificuldade dessa tarefa vai aumentando, pois o professor espera que seus alunos vão retirando camada por camada até descobrirem a sua real essência – aquilo que escondemos por trás de tudo que fomos acumulando no decorrer de nossa vida.
Analisando por este ponto de vista, podemos dizer que Jack é um homem formado por facetas distintas. Ele foi uma criança e um jovem que teve negado o direito a qualquer tipo de amor – com exceção daquele que ele recebia de sua mãe. Como adulto, Jack se dividiu entre duas personas: a persistente, viva e ativa do trabalho como agente de talentos especializado em administrar as carreiras de roteiristas; e a apática, distante e sem vida que estava presente nos relacionamentos que Jack estabelecia com a sua esposa Nina (Rebecca Romijn) e com o pai doente (Howard Hesseman).
É justamente ao desempenhar a tarefa que lhe foi proposta no curso de autoconhecimento que Jack fará uma grande descoberta a respeito de si mesmo. Nada do que ele fez ou conquistou lhe trouxe felicidade. Ele vai descobrir isso da pior maneira, quando começará a ser chantageado por Barbi Ling (Ling Bai), uma aspirante à roteirista, e seu namorado Jimmy Dooley (Samuel Ball), um aspirante a ator, que tiveram a sua grande chance negada por Jack; e quando Nina revela ao marido que estava tendo um caso com um de seus clientes, Phil Balow (Adam Goldberg).
Para quem estreou num filme de tom ácido e sarcástico sobre a vida familiar nos subúrbios norte-americanos (o ótimo “A Outra Face da Raiva”, com Joan Allen, Kevin Costner e grande elenco), “Um Cara Quase Perfeito” é uma nítida mudança de ares. Não é que o filme não tenha momentos engraçados (eles existem, principalmente depois que Jack sofre um ataque), mas o seu tema principal é a autodescoberta de Jack. Pena que, em alguns momentos de “Um Cara Quase Perfeito”, Mike Binder deixa o filme perder o seu foco e dispersa a atenção da platéia. O mais interessante, então, é prestar uma atenção especial naquilo que Jack aprende: não importa o tamanho do sucesso, do reconhecimento e do dinheiro que você tenha, sempre existe algo novo a aprender. Quer coisa mais batida e sincera do que isso?
Cotação: 5,5
Crédito Foto: Yahoo! Cinema
Não existe criança na terra que nunca tenha ouvido falar da história da Chapeuzinho Vermelho, o conto de fadas que conta a história da garotinha que pede à mãe para ir visitar a sua vovó e acaba enfrentando um inimigo que pode ser mortal: o lobo-mau. O filme de animação “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho”, dos diretores Cory Edwards, Todd Edwards e Tony Leech toma como fonte principal, além do famoso conto de fadas, os filmes da série “Shrek”, do diretor Andrew Adamson – que fizeram sucesso em todo mundo ao brincar com as clássicas histórias infantis que nossos pais costumavam nos contar quando éramos pequenos.
O filme começa no ápice do conto, quando a Chapeuzinho Vermelho (dublada por Anne Hathaway na versão original) chega na casa de sua avó (dublada por Glenn Close na versão original) e encontra o Lobo Mau (dublado por Patrick Warburton na versão original) se passando por ela até a chegada providencial do Lenhador (dublado por James Belushi na versão original), o herói da historinha. A partir daí, “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” começa a brincar com a fábula ao apresentar seus personagens de uma maneira completamente diferente. A Chapeuzinho Vermelho, na realidade, trabalha como entregadora de doces na firma da avó. A vovozinha, quando não está fazendo doces, tem uma postura completamente hardcore e é praticante de esportes radicais, como snowboard e esqui. O Lobo Mau é um repórter investigativo que não mede esforços para conseguir uma informação. Já o Lenhador, na verdade, é um ator se passando por essa profissão – ele está fazendo uma espécie de laboratório para interpretar um lenhador em um comercial.
No entanto, a história de “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” ainda envolve uma estrutura mais complexa do que essa. No momento em que a trama começa a se desenrolar, a platéia fica sabendo que a floresta habitada pelos personagens está sendo atacada por um bandido dos doces. Em conseqüência disso, lojas e fábricas de doces foram à falência. A única empresa que continua funcionando é a da avó de Chapeuzinho Vermelho. Ao se depararem com o cenário do início do filme, os policiais responsáveis pelo caso do bandido dos doces têm quase certeza de que o marginal é um dos quatro presentes na casa da vovó. O roteiro de “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” retrata justamente a versão de cada um destes quatro personagens para de qual forma eles foram parar na casa da vovó naquele momento em particular.
Primeira produção em animação do novo estúdio dos irmãos Harvey e Bob Weinstein, a The Weinstein Company, “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” aposta numa história que já é garantia de sucesso. O filme inova somente na apresentação de seus personagens. O resto é uma repetição dos clichês dos filmes do gênero: canções pegajosas, conflitos familiares que se resolvem no final e o desfecho apoteótico com todo mundo se dando bem. “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” é uma boa diversão para as crianças e para os pais – que poderão reconhecer no filme referências à “Matrix” e “Kill Bill”.
Cotação: 5,5
Crédito Foto: Yahoo! Movies
O cinema oriental virou a indústria oficial dos filmes de terror, tendo em vista que é dos países de lá que vêm as histórias e os diretores deste gênero. A razão por trás disso não é difícil de entender. A fórmula dos filmes de terror norte-americanos (que coloca atores que estão no auge da idade e da beleza para enfrentar assassinos cheios de traumas pessoais e sofrerem uma desfiguração que mais parece uma punição justamente por eles serem tão joviais e lindos) está saturada. As platéias parecem que estão mais interessadas em filmes que mostram um tipo de terror mais próximo – e é justamente isso que os filmes de terror do oriente oferecem: histórias estreladas por gente comum e que enfrentam um medo que pode vir do simples ato de se assistir um filme ou de se oferecer para trabalhar como enfermeira e cuidar de uma paciente no conforto de sua casa. Estas pessoas comuns enfrentam os assassinos representados pelas doces figuras de uma mãe e seu filho. Ou seja, nos filmes orientais, o medo está em qualquer lugar e a ameaça pode estar mais próxima do que você pensa.
Seqüência do sucesso de 2004, “O Grito 2” traz de volta a mesma equipe de diretor e roteirista do primeiro filme: Takashi Shimizu (também o diretor dos filmes japoneses) e Stephen Susco. A estrela de “O Grito”, Sarah Michelle Gellar, faz uma pequena participação especial como Karen, a estudante de intercâmbio vítima da maldição da casa. O roteiro de “O Grito 2” segue a mesma premissa do primeiro filme (quando uma pessoa morre cheia de mágoa ou raiva, se dá início a uma maldição, que acontece no local em que a pessoa morreu e que irá atingir a todos aqueles que entrarem em contato com esse lugar). A diferença é que, na seqüência, existem três tramas “principais”, ao invés de uma única.
Na primeira trama, acompanharemos a irmã mais nova de Karen, Aubrey (Amber Tamblyn, que interpretou a sobrinha de Naomi Watts que morria vítima da maldição em “O Chamado” e que ficou mais conhecida do público brasileiro como a protagonista da série “Joan of Arcadia”), quando ela viaja para o Japão para visitar a irmã que se encontra internada depois dos acontecimentos retratados em “O Grito”. Após a morte de Karen, Aubrey decide investigar o que aconteceu com a irmã – e, para isso, conta com a ajuda de um repórter chamado Eason (Edison Chen).
Na segunda trama, Vanessa (Teresa Palmer), Miyuki (Misako Uno) e Allison (Arielle Kebbel), três estudantes de um colégio norte-americano no Japão, decidem visitar a casa em que se passou os acontecimentos de “O Grito”. Depois de invadirem a casa e de fazerem uma brincadeira de extremo mau gosto, o que se segue é uma série de acontecimentos estranhos na vida das três garotas.
A terceira trama de “O Grito 2” se passa em Chicago, quando a chegada de uma misteriosa moradora faz com que acontecimentos bizarros comecem a ocorrer em um prédio residencial. A história é vista do ponto de vista de uma família que lida com os seus próprios problemas – a chegada da nova esposa (Jennifer Beals, do clássico dos anos 80 “Flashdance – Em Ritmo de Embalo”) do pai viúvo (Christopher Cousins), que enfrenta a resistência do filho mais novo (Matthew Knight).
Ao que parece, Takashi Shimizu não soube como transportar o roteiro de Stephen Susco para a grande tela. Nenhuma das três tramas tem um desenvolvimento adequado e o suspense só começa a aparecer em “O Grito 2” já nos seus momentos finais, quando o diretor resolve unir as três tramas. O problema é que a conclusão da história é muito corrida, com tudo acontecendo de maneira rápida e atropelada. “O Grito 2” é um filme extremamente pessimista e sem nenhuma possibilidade de final feliz. Pelo jeito, esta maldição nunca terá um fim; portanto é bom que os fãs deste tipo de filme esperem por mais continuações.
Cotação: 3,0
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O ator, diretor e produtor Daniel Filho, com certeza, é uma das figuras mais importantes da retomada do cinema brasileiro. À frente da Globo Filmes, Filho é o responsável pela grande maioria dos filmes nacionais que são lançados anualmente. Muitas vezes, fica a impressão de que ele é uma figura onipresente, pois supervisiona os projetos dos outros, enquanto desenvolve os seus próprios. Só em 2006, Daniel Filho lançou dois filmes: a comédia leve “Se Eu Fosse Você” e, agora, a comédia dark “Muito Gelo e Dois Dedos D´Água”.
O último filme, cujo roteiro é da dupla Alexandre Machado e Fernanda Young (os mesmos que criaram o seriado e o filme “Os Normais”), tem uma história bastante inusitada e que deixa a sensação de que poderia muito bem ser feita pela indústria cinematográfica norte-americana. Na superfície, as irmãs Suzana (Paloma Duarte) e Roberta (Mariana Ximenes) são muito diferentes. A primeira é muito vaidosa, é casada com o médico chato Francisco (Thiago Lacerda) e mãe do pequeno Thiago (Matheus Costa). Já a segunda é desprovida de qualquer vaidade, tem uma postura rebelde e está meio sem rumo na vida. No entanto, as duas irmãs compartilham algo que é muito maior do que elas: o ódio pela avó (Laura Cardoso) que, ao contrário de qualquer outra vovó, castrava qualquer naturalidade e vontade de suas netas.
“Muito Gelo e Dois Dedos D´Água” trata justamente de todos os problemas bizarros que começam a acontecer com Roberta e Suzana a partir do momento em que elas decidem seqüestrar a avó e levá-la para a casa de praia que tantas más lembranças as trazem (era lá que a avó delas fazia todo tipo de “tortura” para transformar as suas netas em algo que elas não queriam). A situação das duas irmãs parece que vai tomar um rumo complicado quando elas transformam o advogado bobalhão Renato (Ângelo Paes Leme) em seu cúmplice e quando Francisco – na sua inocência – decide ir atrás de Suzana com medo da má influência que Roberta possa ter nela.
“Muito Gelo e Dois Dedos D´Água” é um filme surpreendente de diversas maneiras. O filme tem um estilo de humor sarcástico que nunca imaginaríamos que caísse nas mãos de um diretor “conservador” como Daniel Filho. Nesse sentido, “Muito Gelo e Dois Dedos D´Água” representa um passo à frente se compararmos este trabalho com o seu anterior – tendo em vista que Daniel Filho apresenta soluções criativas, como o uso de animações nas seqüências que retratam os traumas de colégio e de infância de Roberta e de Renato. Mas, principalmente, o filme marca o amadurecimento de Mariana Ximenes como atriz. Que ela não tem medo de se entregar aos seus personagens, isso a gente já sabia; mas, na TV, muitas vezes, as performances de Mariana soam artificiais e irritantes. Com Roberta, ela finalmente encontra um tom certo e entrega a melhor performance de sua carreira.
Cotação: 6,0
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Um dos gêneros clássicos da idade de ouro de Hollywood foi o noir – que alcançou o seu ápice nos anos 40, com filmes como “A Relíquia Macabra”, de John Huston; e cuja figura marcante do ator Humphrey Bogart serviu como a face oficial dos detetives que tinham a ambigüidade como princípio maior de vida e de carreira. O filme “Dália Negra”, do diretor Brian de Palma, tenta recriar o universo desses filmes usando como base o livro de James Ellroy (autor de outro noir recente, “Los Angeles Cidade Proibida”, de Curtis Hanson).
O trailer de “Dália Negra” vendeu o filme como sendo o relato da história da investigação do assassinato de Elizabeth Short (Mia Kirshner, do seriado “The L Word”, que vai ao ar no Brasil pela Warner Channel), uma das muitas aspirantes à estrela que viviam em Hollywood. Na época em que o crime ocorreu, o caso mexeu com a imprensa e causou comoção popular. No entanto, “Dália Negra” se prende mais aos efeitos da investigação deste crime na vida de dois detetives de homicídios.
O mais velho deles, Lee Blanchard (Aaron Eckhart), ou Mr. Fire (a sua alcunha nos ringues de boxe), é um sujeito passional, que não hesitará em fazer o que for necessário para conseguir o que quer e cumprir o seu papel – seja como boxeador, detetive ou marido. O mais novo deles, Dwight “Bucky” Bleichert (Josh Hartnett), ou Mr. Ice (o apelido que ele usava nos ringues de boxe), é um cara mais racional e analítico, do tipo que mede bem os seus passos antes de agir.
“Dália Negra” retrata todo o conflito que vai existir entre eles dois no decorrer da investigação do assassinato de Elizabeth Short. O conflito deles irá ultrapassar os limites do ringue (os dois irão lutar para conseguir mais benefícios para os policiais) e chegará até o trabalho deles e, mais tarde, vai abranger também o lado pessoal, quando os dois começarão a brigar pela atenção – e pelo amor – de uma mesma mulher, Kay Lake (Scarlett Johansson).
Lee e Bucky serão, portanto, os veículos perfeitos para que a platéia possa perceber todos os conflitos clássicos dos filmes noir: a lei X o arbítrio, a inocência X a corrupção, o mundo selvagem X o mundo primitivo. Todos os personagens de “Dália Negra” têm características ambíguas e podem ser bons ou maus, mocinhos ou vilões (às vezes eles são tudo isso ao mesmo tempo). No final, um deles tem que tomar iniciativa e sair de sua passividade – e é essa a grande transformação que a investigação do assassinato de Elizabeth Short vai trazer para um dos detetives.
"Dália Negra” é um filme muito bom do ponto de vista estético. A fotografia de Vilmos Zsigmond é boa (o filme não é em preto e branco, como a maioria dos clássicos noir, mas consegue criar – com a ajuda da trilha de Mark Isham – um acentuado clima de suspense). A direção de arte (o design da produção ficou a cargo de Dante Ferretti, o colaborador habitual de Martin Scorsese) e os figurinos de Jenny Beavan reconstroem com perfeição uma época. O único problema de “Dália Negra” é o roteiro de Josh Friedman. Algumas cenas do filme eram dispensáveis e acabam prejudicando o andamento da película – o que deixa a impressão, em certos momentos, de que “Dália Negra” é um filme lento.
Cotação: 6,5
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Normalmente, o cinema retrata os super-heróis em filme densos e que, apesar de possuírem alguns momentos divertidos, sempre mostram os heróis como seres extremamente divididos e angustiados entre a persona que têm para o público em geral e a personalidade que assumem para aqueles a quem realmente ama. O conflito maior que estes heróis assumem, geralmente, é o de ter que esconder sua verdadeira condição de amigos, parentes e amores. “Minha Super Ex-Namorada”, filme do diretor Ivan Reitman, quer retratar um lado mais bem-humorado do herói, quando ele não tem que abdicar de sua felicidade.
Assim como muitos outros heróis que conhecemos, a G-Girl (Uma Thurman) passa os seus dias atenta a tudo aquilo que está acontecendo à sua volta e pronta para resolver qualquer emergência. Ela possui um nome (Jenny Johnson) e um trabalho (assistente do curador de uma galeria) para o resto do mundo. No entanto, uma característica importante a difere dos outros heróis: Jenny busca a sua felicidade e tem namoros como se fosse um ser humano qualquer.
Jenny acha que encontrou o amor verdadeiro na pessoa de Matt Saunders (Luke Wilson), um arquiteto que já sofreu muito nas mãos das mulheres. Ela abre sua vida e sua verdadeira identidade para ele. Entretanto, Matt não tem tanta certeza de que Jenny é o seu grande amor. A desconfiança vira uma certeza quando ele chega à conclusão de que Jenny é ciumenta, carente e pegajosa – por quê nós mulheres sempre acabamos retratadas assim em filmes?
“Minha Super Ex-Namorada” é um filme engraçado enquanto explora a dinâmica do relacionamento entre um homem comum e uma mulher com superpoderes. No entanto, o filme acaba caindo para um lado desagradável quando o relacionamento entre Jenny e Matt acaba e ela se transforma em uma ex-namorada obsessiva do tipo que vai fazer de tudo para evitar que Matt reencontre o amor e a felicidade – de novo, não custa perguntar: por quê nós mulheres sempre acabamos retratadas assim em filmes?
Apesar de ser dirigido com segurança por Ivan Reitman, o pior elemento de “Minha Super Ex-Namorada” – junto com o roteiro de Don Payne – acaba sendo o elenco do filme. Luke Wilson não tem carisma, talento ou pinta de galã. Chega a ser constrangedor ter que assistir – em certos momentos – uma atriz do porte de Uma Thurman fazendo cenas imbecis. O filme ainda sofre o preço de colocar de escanteio o talento de dois excelentes comediantes: Eddie Izzard (que interpreta o Professor Bedlam, o maior vilão da G-Girl) e Anna Faris (que interpreta Hannah Lewis, a colega de trabalho de Matt e por quem Jenny sente enormes ciúmes). Isso parece ser comum na carreira de Faris, o que nos faz pensar: quando será que ela vai ter um papel da altura de seu talento?
Cotação: 3,0
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Existem quatro elementos que dão suporte à narrativa – seja ela literária ou cinematográfica: o tempo, o espaço, o narrador e o personagem. Desses elementos, dois são muito importantes: o tempo e o espaço. A narrativa cinematográfica provou que esses dois elementos são inseparáveis. É justamente a relação entre o tempo e o espaço que será o eixo principal do filme “A Casa do Lago”, do diretor argentino Alejandro Agresti.
O roteiro criado por David Auburn se passa em dois momentos distintos. Em 2004, o arquiteto Alex Wyler (Keanu Reeves) compra uma casa no lago (a qual possui uma arquitetura arrojada e moderna, que contrasta muito bem com a quietude do local onde está localizada). A residência foi construída pelo pai dele (Christopher Plummer), com quem Alex tem uma relação bastante delicada, em homenagem à sua esposa (e mãe de Alex). Já em 2006, a médica Kate Forster (Sandra Bullock) se muda para Chicago depois de passar um tempo morando na casa do lago. A residência, para Kate, representa a segurança e o conforto longe do mundo que ela encontra na sua profissão, a qual a impede de ter uma vida pessoal e de se aproximar das pessoas que querem lhe oferecer amor e proteção.
O tempo e o espaço na história de “A Casa do Lago” se fundem a partir do momento em que Alex e Kate começam a se corresponder. Essa troca de cartas permite aos dois se conhecerem melhor e fazem com que eles se apaixonem. Por mais que seja impossível a história de amor deles acontecer (afinal, eles estão separados por um período de dois anos), é notável que a conexão que se estabelece entre Kate e Alex é única, do tipo que só acontece uma vez na vida da gente.
“A Casa do Lago” dialoga muitas vezes com a linguagem literária – que faz muito bem o jogo entre o tempo e o espaço. Em muitos momentos, fica a sensação de que o roteiro criado por David Auburn com base no roteiro do filme “Il Mare” ficaria melhor num livro. A história desenvolvida por Auburn envolve a platéia (graças também à boa química que existe entre Keanu Reeves e Sandra Bullock), mas o roteiro tem sérios problemas de construção. O tempo todo a platéia tem quase a certeza de que o desfecho de “A Casa do Lago” será um; mas a partir do momento em que o roteirista permite que seus personagens possam influir no tempo e no espaço de forma a ficarem juntos, o filme começa a se perder. Em conseqüência disso, o final de “A Casa do Lago” soa forçado e nada natural.
Cotação: 4,0
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Numa das – poucas – passagens bonitas do filme “A Dama na Água”, do diretor e roteirista M. Night Shyamalan, a ninfa Story (Bryce Dallas Howard) afirma que os seres humanos pensam que estão sozinhos no mundo até que existem acontecimentos que nos unem de uma forma irreversível. Os atentados terroristas de 11 de Setembro foram um desses acontecimentos. Neste dia, o mundo todo parou em frente à televisão para acompanhar o passo a passo de algo que todos achavam ser impossível acontecer e para o qual ninguém estava preparado – inclusive as autoridades norte-americanas.
O que se sucedeu neste dia em particular ainda é um assunto muito doloroso para muitas pessoas, especialmente para os norte-americanos. Aos poucos, foram surgindo livros e programas de TV que mostravam os bastidores dos atos terroristas. Cinco anos depois chegou a vez de Hollywood explorar o tema a seu modo. Nos dois filmes lançados sobre o tema – “Vôo United 93”, de Paul Greengrass, e “As Torres Gêmeas”, de Oliver Stone –, o foco estão nos heróis – naqueles que foram “altruístas” a ponto de se sacrificarem em prol de um bem maior (evitar a morte de mais pessoas inocentes) ou naqueles que viram o bem no meio de tanto mal.
“As Torres Gêmeas” joga o olhar sob a cidade de Nova York e os seus heróis – até aquele dia – anônimos (os policiais). As primeiras cenas do filme retratam os policiais enquanto eles deixam as suas famílias e partem rumo a mais um dia de trabalho como outro qualquer – em que o ponto mais “arriscado” seria a expulsão de algum mendigo de algum local. Logo o chão começa a tremer e, com o mínimo de informações possíveis, os policiais da autoridade portuária partem para o World Trade Center – local onde o Sargento John McLoughlin (Nicolas Cage) reúne a equipe formada por Will Jimeno (Michael Pena, o chaveiro de “Crash – No Limite”), Antonio Rodrigues (Armando Riesco), Dominick Pezzulo (Jay Hernandez), Christopher Amoroso (Jon Bernthal) e Giraldi (Danny Nucci) para entrar na torre cinco do World Trade Center e resgatar o máximo possível de pessoas.
O diretor Oliver Stone opta por não mostrar nenhuma cena dos aviões se chocando com a torre – afinal, esta imagem já está completamente solidificada em nossa mente. Para ele – e para nós da platéia – o momento mais chocante (e novo) será acompanhar o desespero que se instala naqueles que estavam na torre quando os dois prédios que formavam o World Trade Center começam a colapsar. Outro elemento importante – e poderoso – da narrativa de “As Torres Gêmeas” começa a acontecer a partir do momento em que passamos a seguir o desespero de Allison (Maggie Gyllenhaal) e Donna (Maria Bello), as esposas de Jimeno e McLoughlin (os únicos da equipe de policiais a sobreviver), que estão em busca de notícias dos dois.
O 11 de Setembro não é o primeiro acontecimento histórico dos Estados Unidos a ser retratado em filme pelo diretor Oliver Stone. Ele já abordou o Vietnã (nos filme “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”) e o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy (no filme “JFK – A Pergunta que Não Quer Calar”) e sempre apresentou as suas teorias conspiratórias sobre tais temas. Stone surpreende com “As Torres Gêmeas”, pois optou por contar de forma direta e sem floreios sua história (o roteiro de Andrea Berloff foi desenvolvido com base nos depoimentos daqueles que estiveram presentes nas duas torres no dia 11 de Setembro). No único momento em que ele é Oliver Stone (na cena em que Will Jimeno vê Jesus Cristo), a situação soa manipuladora e destoa do trabalho que ele acaba construindo em “As Torres Gêmeas”.
Mais do que contar a história de dois sobreviventes, “As Torres Gêmeas” retrata metaforicamente como uma cidade pode mudar devido a um único acontecimento. E não foi só Nova York que mudou a partir do dia 11 de Setembro de 2001. O mundo todo se transformou e não foi mais o mesmo desde aquele fatídico dia.
Cotação: 9,5
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Não existe indústria mais massacrada do que a do cigarro. Em relação a este assunto, a maioria das pessoas adota a posição única de condenar o vício em cigarros, por causa dos males que este produto faz à saúde. De uns tempos para cá, a situação ficou tão crítica que até mesmo aqueles que fumam assumem o vício, mas com uma posição envergonhada frente ao olhar de reprovação dos outros do tipo “fumo, mas estou tentando parar”.
Entretanto, existe ainda um outro lado – o da própria indústria de cigarros – que defende que o vício é uma atitude cool. Afinal, atores famosos e idolatrados no mundo todo fumam. Modelos que representam todo um ideal de vida glamuroso fumam. Músicos, cantores que são mundialmente famosos fumam. É ao fazer uso desse tipo de imagem – e ao atingir um público jovem que tem todo o potencial de mercado – que a indústria do cigarro mantém a sua sobrevivência.
Nick Naylor (Aaron Eckhart, numa performance inspirada) – o personagem principal do filme “Obrigado por Fumar”, do diretor e roteirista Jason Reitman (filho do cineasta Ivan Reitman) – teria, então, o trabalho mais ingrato do mundo: ele é o porta-voz oficial e o vice-presidente da Academia de Estudos do Tabaco (que é sustentada pela indústria de cigarros e, como o próprio nome já diz, estuda os efeitos do cigarro no homem para a indústria poder se defender da melhor maneira das acusações que são desferidas contra ela diariamente). Por ofício, Nick faz uma peregrinação quase religiosa por todos os meios de comunicação tentando convencer as pessoas do inconcebível: fumar faz bem à saúde.
Nós da platéia podemos pensar que, por fazer o que faz, Nick é um homem sem caráter. Pelo contrário, ele possui princípios morais, mas é flexível em relação a eles quando está trabalhando. Ele tem uma verdadeira vocação para aquilo que faz: é cara de pau, competente, tem carisma e sabe argumentar. Por outro lado, o mesmo bombardeio que a indústria do tabaco sofre é vivenciado por Nick em sua vida pessoal. Ele é divorciado (sua esposa não perde a oportunidade de criticar o seu trabalho), tem um relacionamento distante com o filho Joey (Cameron Bright, de “Reencarnação”) e seus amigos mais próximos são Polly Bailey (Maria Bello), a porta-voz oficial da indústria do álcool, e Bobby Jay Bliss (David Koechner), o porta-voz oficial da indústria das armas – o grupo se autodenomina de “Os Mercadores da Morte”.
Na trama que é desenvolvida no decorrer de “Obrigado por Fumar”, a platéia assiste Nick no momento em que ele tenta estabelecer um relacionamento mais próximo com seu filho Joey. Ele passa a levar o menino nos seus compromissos de trabalho. É a partir do contato que se inicia entre os dois e dos questionamentos que o filho começa a fazer a respeito da profissão do pai que Nick começa a perceber que sua profissão tem uma importância maior do que ele imaginava. Após dar uma entrevista bombástica sobre os bastidores da indústria do tabaco para a repórter Heather Holloway (Katie Holmes) e ser convocado para prestar depoimento em uma audiência pública no Congresso (que quer adicionar o rótulo de veneno às embalagens de cigarro), Nick tem que tomar uma decisão: ou segue no caminho que já está ou parte para novos vôos.
O diretor e roteirista Jason Reitman coloca um olhar irônico não só na vida de Nick Naylor, como também na realidade da indústria do tabaco e nos métodos que eles se utilizam para vender seu produto (sobra, como sempre, para a própria indústria cinematográfica, que é bem alfinetada por Reitman). O eixo maior de sua trama não é essa crítica, e sim tentar desvendar qual a importância do trabalho de Nick. A questão é jogada justamente para nós da platéia: se todos nós temos informações suficientes sobre os cigarros, os males que o vício causa para a nossa saúde; por quê precisamos dos Nick Naylors da vida? A resposta para essa pergunta é que eles existem justamente para colocar pimenta nesse jogo doido que é a vida da gente e nesse monte de teorias com as quais a gente entra em contato e julga como indefectíveis.
Cotação: 6,5
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A família Wayans está presente – com sucesso – em diversos ramos do entretenimento. Keenan Ivory Wayans (uma espécie de mentor da família) foi um dos criadores do lendário programa televisivo “In Living Colour” (que revelou o talento de Jennifer Lopez, na época uma dançarina), que contava com seu irmão Damon Wayans no elenco – posteriormente, Damon ficaria conhecido com o seriado “My Wife and Kids”. Já Marlon e Shawn Wayans (os astros de cinema da família) foram responsáveis pelo retorno do gênero da paródia com os sucessos “Todo Mundo em Pânico” e “Todo Mundo em Pânico 2”. Para Marlon e Shawn, não existe limite na hora de fazer comédia. Depois de se vestirem como patricinhas em “As Branquelas”, Shawn agora empresta o rosto para um anão em “O Pequenino”, filme dirigido por Keenan Ivory Wayans.
O filme conta a história de Calvin “Bebezão” Sims (Shawn Wayans), um ladrão de postura firme e que coloca qualquer um no seu devido lugar. O fato de ele ser anão ajuda Calvin a desempenhar de melhor maneira o seu serviço, pois faz com que ele sempre passe despercebido. É assim que ele, depois de sair da prisão, consegue roubar um diamante valioso. Na fuga da joalheria, Calvin e seu parceiro Percy (Tracy Morgan, que fez parte do elenco do “Saturday Night Live”) quase são pegos pela polícia. Para despistar os guardas, Calvin acaba colocando o diamante na bolsa de Vanessa (Kerry Washington, de “Ray”). Quando o chefão do crime Sr. Walken (Chazz Palminteri) entra no encalço de Calvin e de Percy, o primeiro tem uma idéia brilhante: fingir ser um bebê abandonado – Vanessa e seu marido Darryl (Marlon Wayans) estão naquele ponto importante de um casamento: o de decidir se este é o momento certo para ter o primeiro filho – e recuperar o diamante que está escondido na bolsa de Vanessa.
É justamente quando Calvin se transforma num bebê de tamanho e desenvolvimento incomum e passa a viver o cotidiano do casal Darryl e Vanessa que “O Pequenino” entra num rumo já bem conhecido daqueles que tiveram a oportunidade de assistir a algum dos filmes dos irmãos Wayans. Entre uma e outra piada grosseira e de mau gosto, são inseridos momentos delicados que mostram que o bandidão Calvin tem coração.
Em comparação com “As Branquelas” – um filme bobo, porém divertidíssimo e com algumas cenas inesquecíveis -, “O Pequenino” é um retrocesso. O roteiro do filme (que foi escrito por Keenan Ivory, Marlon e Shawn Wayans) não convence, pois é cheio de furos (o roubo do diamante está sendo super noticiado na TV, mas nem Vanessa, nem Darryl, nem os amigos deles e nem mesmo os policiais que participam de uma das cenas do filme chegam a reconhecer Calvin). A impressão que se tem é a de que os irmãos Wayans querem ocupar o espaço deixado pelos irmãos Bobby e Peter Farrelly desde que eles decidiram fazer filmes mais “adultos”. Os Wayans querem ser agora os reis do politicamente incorreto, mas acabam indo sempre parar na vulgaridade.
Cotação: 2,0
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Por mais que a jornalista e escritora Lauren Weisberger tente negar, existe muito dela em Andrea Sachs, a personagem principal do seu primeiro romance “O Diabo Veste Prada”, cuja adaptação cinematográfica dirigida por David Frankel estreou nesta semana nas salas de cinema de todo o Brasil. Lauren nasceu e cresceu em uma pequena cidade da Pensilvânia e formou-se jornalista pela prestigiada Universidade de Cornell. Logo após a formatura, Lauren foi para Nova York tentar um emprego em alguma publicação. Ela não conseguiu um emprego como jornalista, e sim um trabalho como assistente da poderosa e lendária Anna Wintour, editora da “Vogue” americana (um emprego que “milhões de garotas dariam tudo para ter”).
As primeiras cenas do filme “O Diabo Veste Prada” fazem questão de frisar o quão diferente é o mundo de Andrea Sachs (Anne Hathaway, ótima) das mulheres que vivem a realidade da fictícia revista “Runway” (local aonde Andy fará entrevista na cena seguinte). Enquanto a primeira não tem a mínima noção de moda e não faz nenhum tipo de dieta, as últimas são antenadas com as últimas tendências do mundo fashion e passam o dia à base de água e cigarros. Mas, então, o que diabos Andrea foi fazer na “Runway”? Nem ela sabe dizer o por quê, mas, para Andy, fica claro que trabalhar como a assistente da poderosa editora Miranda Priestly (Meryl Streep, que adiciona mais uma grande performance à sua vasta carreira) será uma oportunidade única e inesquecível – em todos os sentidos.
O trabalho como assistente – bem como a própria Miranda – logo se transformarão em uma espécie de decepção para Andy. Ela é uma mera “faz-tudo” da editora (compra o café e o almoço, pega as roupas na lavanderia, leva o cachorro para passear, compra os presentes das gêmeas e marca os compromissos de Miranda). No entanto, Andy segue firme no propósito de agüentar o ano de trabalho com a poderosa editora, afinal, depois disso, todas as portas do mundo do jornalismo se abrirão para ela.
Entretanto, na medida em que Miranda Priestly vai confiando mais em Andy, a aspirante a jornalista se vê cada vez mais imersa no mundo que – antes – ela repudiava. É a partir do momento em que Andy passa a se vestir com marcas famosas e caras (o trabalho de figurinos feito por Patricia Field, ex-stylist do programa “Sex and the City”, é fantástico e digno de uma indicação ao Oscar 2007), a ir à festas glamurosas, a conhecer gente interessante e a viajar com Miranda para a semana de moda de Paris, que “O Diabo Veste Prada” entra na sua segunda fase. O resultado dessa mudança de Andy é que a vida pessoal dela ficará em segundo plano e o seu relacionamento com o doce Nate (Adrien Grenier, do seriado “Entourage”) fica ameaçado.
Por baixo de todos os diálogos afiados de “O Diabo Veste Prada”, o filme relata um conflito interessante e atualíssimo. Quando entramos no mercado de trabalho – no mundo competitivo em que vivemos -, por mais que tenhamos as melhores intenções, ou somos consumidos por um ideal de sucesso que não queremos (mas que nos é cobrado), ou permanecemos fiéis às nossas crenças, mesmo que isso não nos leve a lugar nenhum.
“O Diabo Veste Prada” relata esse conflito por prismas diferentes. O filme retrata o fim de diversos sonhos – o de Emily (a grata surpresa Emily Blunt), a outra assistente de Miranda, em ir para a semana de moda de Paris com a chefe; e o de Nigel (o eterno coadjuvante Stanley Tucci), segundo na linha de sucessão da “Runway”, em ter as rédeas de sua vida e carreira. Ao mesmo tempo, “O Diabo Veste Prada” mostra qual o custo que pagamos para realizar esses sonhos: Miranda é uma profissional competentíssima, que fez a “Runway” ser o que é, mas ganha a fama de intragável e vê a sua vida amorosa fracassar. E, através da figura de Andy, o filme mostra alguém que está no meio daquele conflito principal e quer o sucesso, mas prefere permanecer fiel aos seus princípios.
No final de tudo, o que “O Diabo Veste Prada” nos mostra é que não importa se você queira ser aquele no comando ou aquele que executa. O importante é você ser feliz naquilo que você faz.
Cotação: 8,0
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Toda grande história de vingança do cinema envolve um homem que perdeu aquilo que ele mais amava na vida. Esse também é o caso da maioria dos personagens de “Xeque-Mate”, filme do diretor Paul McGuigan. O diretor começa o seu filme destilando uma série de cenas que mostram a morte de diversas pessoas.
Logo após, a platéia encontra Goodkat (Bruce Willis) em uma cena que poderia ser classificada como o prólogo de “Xeque-Mate”. Goodkat conversa com um homem enquanto ele aguarda o horário de sua viagem. Ele conta a história de um golpe que aconteceu da seguinte maneira: Max era um homem que sonhava em ter uma casa com um bonito jardim. Num belo dia, seu tio escuta uma história de um homem, que, por sua vez, escutou de outro, e assim por diante; que afirmava que um senhor havia dopado um cavalo e que apostar nesse animal era lucro na certa. Max vê, nessa oportunidade, a sua chance de ouro e aposta tudo aquilo que tinha na corrida. O problema foi que o cavalo morreu no meio do páreo e ele passou a dever mais do que o que tinha apostado. Sem poder pagar sua dívida, Max, além de ser morto, viu a sua família ser assassinada também.
Desta pequena história partimos para uma outra – aquela que seria a principal trama de “Xeque-Mate”. Slevin (Josh Hartnett) perdeu o emprego, a namorada e o apartamento tudo num mesmo dia. Ele decide, então, viajar para outra cidade para ficar no apartamento de seu amigo Nick Fisher. Chegando na nova cidade, Slevin é assaltado e vê que sua maré de azar não acabou definitivamente quando dois mafiosos – Chefe (Morgan Freeman) e Rabino (Ben Kingsley) – o confundem com o próprio Nick – que desapareceu – e cobram uma dívida de jogo. Para se livrar da morte, Slevin tem que matar o filho de Rabino para vingar a morte do filho do Chefe.
Num primeiro momento, todas as linhas narrativas de “Xeque-Mate” são independentes uma da outra. No entanto, na medida em que o roteiro de Jason Smilovic vai se desenrolando, a platéia começa a ver a conexão entre tudo o que aconteceu. Nesse sentido, o roteiro de “Xeque-Mate” é um dos pontos altos do filme, pela sua criatividade e capacidade de surpreender. O outro ponto positivo do filme é a direção de Paul McGuigan – que estreou no irregular “Paixão à Flor da Pele”, que também contava com Josh Hartnett no elenco. McGuigan bebe na fonte de Quentin Tarantino e, apesar de criar uma cópia, deixa seu filme com um certo ar de originalidade.
Também é bom destacar as excelentes atuações do elenco de “Xeque-Mate”. Josh Hartnett, um ator que já pecou muito nas escolhas de papéis (“Divisão de Homicídios” e “Pearl Harbor”), empresta para Slevin todo um carisma e faz com que a platéia nunca sinta pena do seu personagem por ele ter estado no local errado na hora errada. Ben Kingsley e Morgan Freeman estão perfeitos como os dois chefões da máfia local. Até Lucy Liu (que interpreta o interesse amoroso do personagem de Hartnett) tem a oportunidade de mostrar seu talento. A única peça destoante é Bruce Willis. Depois de começar 2006 bem, com uma ótima atuação em “16 Quadras”, de Richard Donner, Willis está apenas burocrático como Goodkat.
Cotação: 8,0
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Existem filmes que, muitas vezes, ultrapassam aquele relacionamento normal que existe entre platéia e película e que passam a ser objetos de culto. Na maior parte das vezes, os filmes considerados cult – como “Blade Runner – O Caçador de Andróides”, de Ridley Scott, e “Clube da Luta”, de David Fincher – possuem algumas características em comum: receberam críticas mistas, tiveram performances péssimas de bilheteria e alcançaram o sucesso no mercado de vídeo/DVD. O caso de “Serpentes a Bordo”, filme do diretor David R. Ellis (“Celular – Um Grito de Socorro”), é quase único, pois, mesmo antes de ser feito, o filme já atraía uma legião de fãs.
A história por trás da produção de “Serpentes a Bordo” é ainda mais interessante. O filme, apesar de ter conseguido um astro do porte de Samuel L. Jackson, vivia engavetado nos estúdios New Line. Foi somente graças ao lobby de Jackson (que passou a dizer em programas de TV que seu próximo filme iria ser esse) e aos blogs da Internet que as filmagens de “Serpentes a Bordo” começaram.
O filme, é claro, trata do pânico e das mortes causadas pela presença de um monte de cobras num vôo que ia do Havaí para Los Angeles. No entanto, por trás dessa trama principal existe uma outra: Edward King (Byron Lawson) é um bandido que há muito tempo vem sendo investigado pela polícia norte-americana. No Havaí, ele mata o promotor do seu caso. Por acidente, o jovem Sean Jones (Nathan Philipps) testemunha o crime e passa a ser o alvo principal de Kim. É por causa dele, que está indo para Los Angeles testemunhar no caso contra Kim - Samuel L. Jackson interpreta o agente do FBI que está fazendo a sua escolta -, que o avião será atacado pelas temidas criaturas rastejantes.
Os aviões sempre foram considerados um dos meios de transporte mais seguros do mundo. Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro, a segurança nos aeroportos passou a ser ainda mais rígida. Por essa razão, fica difícil acreditar na trama de “Serpentes a Bordo”. No entanto, quando se tenta deixar de lado toda a bizarrice que é o roteiro desse filme, dá até para a platéia se divertir, se assustar e também ficar impressionada com a capacidade que os roteiristas John Hefferman, Sebastian Gutierrez e David Dalessandro tiveram em anabolizar a trama de “Serpentes a Bordo”. No entanto, a mesma pergunta ficará na mente de todos aqueles que forem assistir a este filme: por quê tanto barulho em torno de algo tão ruim?
Cotação: 1,0
Crédito Foto: Yahoo! Movies
Durante a maior parte de “O Maior Amor do Mundo”, filme dirigido e roteirizado por Carlos Diegues, o personagem principal Antônio (José Wilker quando mais velho e Max Fercondini quando mais novo) é um mistério para a platéia – e, talvez, até para ele próprio. Também pudera, afinal Antônio passou a vida fugindo de conflitos, de relacionamentos e, principalmente, do envolvimento emocional com as pessoas com quem compartilhava o seu dia-a-dia. Ou seja, falta a Antônio uma identidade própria, pois ele se esconde por trás de sua personalidade introvertida.
Por esta razão, é importante mencionar que “O Maior Amor do Mundo”, na realidade, retrata uma grande jornada de autodescoberta pela qual Antônio passará. Para ser mais clara, as atitudes que Antônio têm no decorrer do filme são mais uma reação à primeira notícia que irá mudar a sua vida: a descoberta de um tumor inoperável no cérebro – o que o deixa na terrível situação de ter que conviver com a noção de que sua morte é somente uma questão de tempo.
A descoberta da doença coincide com uma viagem – a última – que Antônio vai fazer ao Brasil, país natal que ele deixou para trás. Antônio é um astrofísico que mora em Boston e que vai receber uma medalha de honra ao mérito, provavelmente, das mãos do próprio presidente da República. Ele, portanto, aproveita a ocasião para visitar seu pai, o maestro Antônio (Sérgio Britto quando mais velho e Marco Ricca quando mais novo) – um homem tão distante quanto seu filho –, e divide com ele o seu destino.
A revelação faz com que o pai de Antônio dê para ele a segunda notícia que irá abalar a sua vida: ele gostaria que seu filho tivesse conhecido a mãe biológica – tendo em vista que Antônio foi adotado pelo maestro e sua esposa Carolina (Deborah Evelyn) quando ainda era bebê. Isso desperta algo que andava adormecido em Antônio e ele começa a busca pelo paradeiro de sua mãe, e entra em contato com o mundo e as pessoas – Mãe Santinha (Lea Garcia), Luciana (Taís Araújo), Flora (Ana Sophia Folch) e o garoto Mosca (Sérgio Malheiros) – com as quais ele deveria ter vivido. Em decorrência disso, Antônio encontra a sua identidade quando passa a questionar a sua vida e, de certa maneira, ser grato por todas as oportunidades que ele teve.
“O Maior Amor do Mundo” chega a ser um filme lento e de desenvolvimento meio confuso. No entanto, o filme consegue deixar bem claro para a platéia que os acontecimentos retratados pelo roteiro são um reflexo direto da vida que Antônio teve. O filme muda de curso quando Antônio passa a derrubar as suas barreiras e começa – antes tarde do que nunca – a viver de verdade. Chega a ser incrível ver a transformação pela qual ele passa. Isso é mérito direto da excelente atuação de José Wilker, um ator de personalidade expansiva e, até certo ponto, espalhafatosa. Ele está tão imerso e contido no seu personagem que em nenhum momento nós chegamos a reconhecê-lo. Ele é Antônio.
Cotação: 6,0
Crédito Foto: Yahoo! Cinema
“Trair e Coçar é Só Começar”, peça escrita pelo ator Marcos Caruso (que atualmente está no centro de todas as atenções na novela “Páginas da Vida”, interpretando o marido da vilã personificada por Lília Cabral), estreou nos palcos em 1986 e até hoje é encenada. Por essa razão, a peça está no Guiness Book, o livro dos recordes, como a peça que está em cartaz há mais tempo no Brasil. O espetáculo ficou também marcado por ter revelado o talento da atriz Denise Fraga como comediante e, seguindo a linha de “Irma Vap – O Retorno”, faz a transição dos palcos para o cinema.
O filme “Trair e Coçar é Só Começar” foi dirigido por Moacyr Góes e adaptado pelo próprio Caruso e sua parceira habitual Jandira Martini. A história se passa no decorrer de um dia, quase sempre no mesmo espaço – o Edifício Caruso – e é centrada na empregada doméstica Olímpia (Adriana Esteves), que trabalha na casa da arquiteta Inês (Bianca Byington) e do cardiologista Eduardo (Cássio Gabus Mendes). Assim como muitas das suas colegas de trabalho, Olímpia é meio intrometida e confusa – características essas que serão importantíssimas para o desenvolvimento da trama de “Trair e Coçar é Só Começar”.
Inês está comemorando quinze anos de casada com Eduardo. Aproveitando a ausência do seu marido – que está em um congresso médico –, Inês prepara um jantar surpresa de comemoração; e, para isso, conta com a ajuda de sua amiga Lígia (Mônica Martelli), que é casada com Cristiano (Mário Schoemberger), o melhor amigo de Eduardo. Entretanto, os planos de Inês começam a ir por água abaixo quando Eduardo chega antes do esperado em casa. E é justamente em decorrência da tentativa de Olímpia em evitar que o jantar de comemoração seja arruinado que os personagens de “Trair e Coçar é Só Começar” entram numa série de encontros, desencontros e confusões – todos eles envolvendo suspeitas de adultério.
O trailer de “Trair e Coçar é Só Começar” causava a impressão de que este filme seria um sério candidato ao título de uma das piores películas de 2006; mas ele acaba surpreendendo. Se Adriana Esteves não tem a qualidade de uma Denise Fraga, ela acaba suprindo a desconfiança inicial entregando uma performance de timing cômico perfeito. O roteiro do filme, por mais absurdo que pareça, é bem desenvolvido e seu desfecho não deixa nenhuma pergunta sem resposta. A única ressalva vai para a direção burocrática de Moacyr Góes que, esteticamente, transforma seu filme num programa de TV. Mesmo assim, é muito bom que nós possamos ser surpreendidos de vez em quando.
Cotação: 4,0
Crédito Foto: Yahoo! Cinema
Todo mundo já teve na vida algum vizinho chato, daquele tipo que tolhava a criatividade da criançada da vizinhança, proibindo brincadeiras em seu quintal ou qualquer tipo de barulho perto de sua casa. D.J. (dublado por Mitchell Musso na versão original) possui um vizinho, que mora na casa em frente à sua, que é exatamente assim. Epaminondas (dublado por Steve Buscemi na versão original) é um senhor de meia-idade, viúvo e que mora sozinho em uma casa de aparência velha, mal cuidada e cheia de avisos como “afaste-se” e “cuidado” no seu quintal. A criança que tem a audácia de ignorar tais avisos vai embora da casa de Epaminondas sem algum brinquedo favorito.
A “diversão” principal de DJ é observar os movimentos de Epaminondas e saber quantas crianças ele magoou num determinado dia. No dia do Halloween, quando seus pais decidem viajar, DJ começa a brincar com seu amigo Bocão (dublado por Sam Lerner na versão original). Acidentalmente, Bocão deixa a sua bola de basquete cair justamente no quintal de Epaminondas. É nesse momento em que DJ irá presenciar de perto aquilo que só via de longe. No entanto, enquanto dá uma bronca em DJ, Epaminondas começa a passar mal e cai durinho da silva no chão como se estivesse morto.
Após a “morte” de Epaminondas (a platéia só vai ter certeza de que ele estava morto ou não numa seqüência fundamental para o final de “A Casa Monstro”, animação do diretor Gil Kenan), DJ percebe que a paz ainda não voltou para a sua vizinhança, pois uma série de fenômenos estranhos começa a ocorrer na casa de Epaminondas – o que faz com que ele, Bocão e a garota Jenny (dublada por Spencer Locke na versão original), que perdeu seu carrinho de doces no quintal da casa, pensem que a mesma é amaldiçoada. Na tentativa de desvendar esse mistério, os três irão embarcar em uma jornada por um mundo estranho e marcado pela desilusão com o amor.
“A Casa Monstro” é um filme de animação completamente diferente de muitos que já assistimos – a começar pela técnica de animação que foi empregada na película. É claro que “A Casa Monstro” é um filme dirigido para as crianças e seus pais, mas, ao contrário de outros filmes do gênero, não possui um roteiro leve e divertido. “A Casa Monstro” fará com que as crianças entrem em contato com o seu lado assustador e receoso. E é muito bom que existam filmes assim, pois é importante mostrar para a criançada que, às vezes, o mundo pode ser, sim, triste. A questão mais interessante é fazê-las perceber também que todos esses momentos obscuros pelos quais passamos podem ser superados. E isso “A Casa Monstro” faz com maestria.
Cotação: 6,0
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A estréia como diretor e roteirista do indo-americano M. Night Shyamalan foi arrebatadora. “O Sexto Sentido” é um filme que possui uma trama inteligente e que pegava o espectador desprevenido – tendo em vista que ninguém esperava que o filme terminasse daquela maneira. O resultado foi que Shyamalan virou um grande nome da noite para o dia – e seus filmes seguintes estrearam rodeados por um espectro de curiosidade e expectativa.
“Corpo Fechado” – um favorito da crítica – e “Sinais” tiveram uma boa bilheteria, mas não tiveram metade do impacto que “O Sexto Sentido” teve. Já “A Vila”, foi um filme que teve a compreensão da crítica, mas foi odiado pelo público, que não viu graça nenhuma em acompanhar um filme de suspense cujo maior segredo é revelado no meio da trama. Teria M. Night Shyamalan perdido a mão ou se tornado um cineasta incompreendido? A pré-produção de “A Dama na Água” só veio colocar mais lenha na fogueira – afinal, em decorrência de diferenças criativas, o diretor e roteirista encerrou uma parceria de longos anos com os estúdios Disney e migrou para a Warner Bros.
O roteiro de “A Dama na Água” foi sendo construído por M. Night Shyamalan na medida em que ele contava histórias de ninar para seus filhos dormirem. Essa influência está bastante explicitada no prólogo do filme, quando o diretor e roteirista usa gravuras para retratar a relação do homem com a água – no início, a água servia como uma espécie de guia para os humanos. Com o tempo, estes quiseram ir morar em locais cada vez mais longe das águas, por isso o mundo entrou em parafuso e os homens se voltaram uns contra os outros.
De acordo com M. Night Shyamalan, um anjo das águas visita os homens de vez em quando para passar uma mensagem para eles, de forma que o curso da humanidade seja modificado. É isso o que irá acontecer com Cleveland Heep (Paul Giamatti), zelador de um prédio na Filadélfia em que moram tipos estranhos. Heep sabe de tudo sobre os outros, os quais, por sua vez, pouco sabem sobre a vida dele. Quando Cleveland começa a notar uma movimentação estranha na piscina do prédio durante a noite, ele descobre a criatura narf Story (Bryce Dallas Howard, atriz revelada pelo diretor e roteirista no filme “A Vila”). Ela veio para a terra para deixar uma mensagem para o escritor (o próprio Shyamalan) de um livro sobre os problemas culturais do mundo. Depois que a mensagem é transmitida, todos no prédio têm que se unir para ajudar Story a voltar para o seu Mundo Azul.
“A Dama na Água” retoma um tema recorrente na filmografia de M. Night Shyamalan. Assim como os personagens de seus outros filmes, Cleveland Heep e os moradores do prédio no qual ele trabalha buscam algo em que acreditar. O filme faz referência aos Estados Unidos de hoje – um país envolvido em uma guerra interminável – e mostra através de suas ações que as pessoas têm a possibilidade de mudar o curso dos acontecimentos, pois elas nunca estão sozinhas – numa cena que é uma das passagens mais lindas de “A Dama na Água”.
O filme ainda faz referências à relação complicada que se estabeleceu entre M. Night Shyamalan e os críticos (o ator Bob Balaban, inclusive, interpreta um crítico de cinema, que é uma espécie de narrador interno do filme e antecipa alguns acontecimentos; para, depois, ser desmentido pelo roteiro criado por Shyamalan). É como se o diretor e roteirista quisesse dizer a todos que ele é o dono de sua carreira e que ele controla aquilo que faz. “A Dama na Água” é um filme complicado – talvez o pior da carreira de Shyamalan – e, tenho certeza, que será incompreendido por muitos – fato que não impede que outros considerem este filme como uma obra-prima; neste caso, se isso for verdade, o tempo se encarregará de colocá-lo em seu devido lugar.
Cotação: 5,5
Crédito Foto: Yahoo! Movies
O grupo de humoristas que formam o Casseta e Planeta – Bussunda (que faleceu, em 2006, na Alemanha, enquanto cobria a Copa do Mundo), Reinaldo, Hélio de la Peña, Cláudio Manoel, Beto Silva, Marcelo Madureira, Hubert e Maria Paula –, há quatorze anos, entram todas as terças-feiras nas casas de milhões de brasileiros através de seu programa de televisão, transformando em motivos de riso o cotidiano e os problemas crônicos do nosso país. Em 2003, o grupo fez a transição da televisão para o cinema com o filme “Casseta e Planeta – A Taça do Mundo é Nossa”, do diretor Lula Buarque de Holanda. O resultado foi que o filme foi uma decepção geral.
Para a segunda incursão do grupo no cinema, no filme “Casseta e Planeta – Seus Problemas Acabaram!!!”, os Cassetas convidaram José Lavigne, o diretor do programa do grupo na TV, para dirigir o filme. Ao mesmo tempo, os Cassetas trabalham com um roteiro-base, que conta a história da batalha judicial entre o advogado Botelho Pinto (Murilo Benício) contra as Organizações Tabajara, cujos produtos prejudicaram as vidas de dois usuários. No entanto, este roteiro – ao contrário do que ocorreu com o primeiro filme do grupo – dialoga com o programa de TV, pois traz personagens conhecidos do público, como o Capitão Calcinha, Fucker e Sucker, Seu Creysson, Chicória Maria e os dois personagens da Sauna Gay. Além disso, “Casseta e Planeta – Seus Problemas Acabaram!!!” ainda traz a participação especial de Juliana Paes, Luana Piovani e Marcos Pasquim e tira uma onda com filmes como “Cidade de Deus”.
Porém, apesar de trabalhar com elementos e pessoas que são familiares ao universo do grupo Casseta e Planeta, o filme ainda sofre com os mesmos problemas vistos em “Casseta e Planeta – A Taça do Mundo é Nossa”. O roteiro de “Casseta e Planeta – Seus Problemas Acabaram!!!” é fraco e as piadas são extremamente sem graça. As únicas coisas que podemos tirar de proveito do filme são as performances de Murilo Benício e Maria Paula. Conhecido por ser uma personalidade chata, Benício surpreende ao aceitar tirar um sarro de si mesmo e se colocar em um papel ridículo. Só ele encarou “Casseta e Planeta – Seus Problemas Acabaram!!!” da maneira como ele deveria ser visto: como uma obra descompromissada e nada séria.
Cotação: 1,0
Crédito Foto: Yahoo! Cinema
O seriado “Miami Vice”, que foi criado por Anthony Yerkovich, foi ao ar de 1984 a 1989. Muita gente hoje se lembra do seriado como o ápice da cafonice dos anos 80 – representado pela figura de Don Johnson e seu figurino formado pelos ternos de cor pastel, pelas camisas berrantes e pelo mocassim sem meia. No entanto, o seriado foi um dos marcos recente da televisão norte-americana, pois apresentou o mundo da polícia de Miami com uma linguagem ágil e com a opção por não suavizar no retrato da tríade sexo, drogas e violência.
Michael Mann foi produtor executivo da série e dirigiu alguns dos episódios de “Miami Vice”. Porém, surpreendentemente, ele nunca pensou em levar o seriado para a grande tela. Isso só aconteceu depois que Mann recebeu uma idéia de Jamie Foxx. Apesar de ser baseado no seriado de TV, não podemos considerar o filme “Miami Vice” (que além de ser dirigido foi escrito por Michael Mann) como uma transposição do seriado para a grande tela; e sim como o relato de uma nova história – afinal, o tráfico de drogas evoluiu desde os anos 80 e hoje é mais pesado e globalizado.
James “Sonny” Crockett (Colin Farrell, que traz um bigode e cabelo cafonas no lugar do figurino brega) e Ricardo Tubbs (Jamie Foxx) são detetives e parceiros na polícia de Miami. Na maior parte das vezes, Crockett e Tubbs trabalham em operações que os levam a locais luxuosos com a presença de muitas mulheres bonitas e sensuais. Além disso, os dois estão sempre a bordo de carros luxuosos (uma Ferrari para ser mais precisa), lanchas velozes e aviões. Ou seja, o estilo de vida de Sonny e Ricardo é muito bom e caro – o que faz com que a platéia levante suspeitas acerca de como os dois têm acesso a isso tudo, tendo em vista que o salário de um detetive de polícia não é lá essas coisas.
Após a morte de um dos informantes de Sonny e Ricardo em uma força tarefa que reunia várias porções da polícia dos Estados Unidos, os dois irão assumir – no lugar da força tarefa – a direção da operação que pretende desbaratar a estrutura de negócio do maior traficante de drogas da América Latina. Dessa maneira, Sonny e Ricardo se tornam cúmplices do traficante e assumem a função de transportar as mercadorias do bandido. É justamente no desenrolar dessa operação que a platéia pode confirmar que a essência de Sonny e Ricardo foi mantida no roteiro de Michael Mann. Enquanto o último é a parte mais responsável e confiável da parceria; o primeiro se deixa levar pela emoção e pela paixão – características ressaltadas quando Sonny começa a se envolver com Isabella (Gong Li), a mulher do chefão do tráfico.
“Miami Vice” é um filme que carrega toda a estética dos filmes dirigidos por Michael Mann. A fotografia tem o estilo documental – e isso ganha força na decisão de Mann de filmar em locações reais ao invés de utilizar os estúdios. Os vilões (especialmente José Yero, personagem interpretado por John Ortiz) se tornam personagens mais interessantes do que os protagonistas em determinados momentos do filme. “Miami Vice” também não economiza nas cenas de violência – que são muito gráficas –, mas isso teria que ser assim, pois a guerra travada todos os dias pelas forças policiais e pelos traficantes é tão ou mais pesada do que a retratada pelo filme. Enfim, “Miami Vice” é um modelo a ser seguido no que diz respeito aos filmes que são adaptações de séries de televisão. Afinal, o filme aqui é uma peça totalmente independente – e tão boa quanto – da série.
Cotação: 7,5
Crédito Foto: Yahoo! Movies
A trama do filme “O Libertino”, do diretor Laurence Dunmore, se passa no século 17, numa época em que a Inglaterra era governada pelo rei Charles II (John Malkovich). Nesse período, o rei Charles II permitiu o pleno desenvolvimento das atividades artísticas (especialmente as teatrais) e de um estilo de vida boêmio, que era marcado pelo uso exagerado de bebidas alcoólicas e pela liberdade sexual. O poeta John Wilmot (Johnny Depp), também conhecido como Conde de Rochester, era um representante fiel desse modo de viver.
Melhor amigo do rei Charles II, Johnny se casou com Elizabeth Malet (Rosamund Pike), uma mulher rica que ele raptou, mas não conseguia deixar de lado o uso de bebidas ou os encontros com as prostitutas. Por causa do alvoroço causado pelo rapto que o levou ao casamento com Elizabeth, Johnny passou um tempo afastado do reino – local para onde ele retorna depois que o rei Charles II o chama para que ele possa escrever um grande épico que represente o espírito de seu reino. No entanto, o foco de Johnny está todo voltado para a atriz Lizzy Barry (Samantha Morton), que é um fiasco de público. O Conde de Rochester se apaixona, então, pela atriz e começa a se dedicar com afinco à tarefa de transformá-la em uma grande atriz – numa época, vale lembrar, em que as mulheres tinham uma série de restrições para subirem nos palcos.
No prólogo de “O Libertino”, Johnny conversa com a platéia e avisa: provavelmente, os homens o odiarão, enquanto as mulheres o amarão. Na verdade, acredito que os atos de Johnny até o momento em que ele escreve a grande peça pornográfica sobre a corte inglesa (ao invés do grande épico que o rei Charles II tinha em mente) não causam nenhum sentimento na platéia. A partir do momento em que Johnny aparece – depois de uma série de acontecimentos mal explicados pelo roteiro – com o rosto desfigurado, sem conseguir se locomover e vivendo como um médico charlatão (tudo uma conseqüência de seu pesado estilo de vida), ele começa a estabelecer um envolvimento com a platéia, pois o público finalmente entende que tudo aquilo que ele fez foi parte de uma busca pessoal de Johnny pelo senso de se sentir amado pelas pessoas.
O personagem de John Wilmot foi feito sob medida para o ator Johnny Depp. Somente ele possui o carisma necessário para entregar as falas sarcásticas e irônicas de seu personagem sem atrair a antipatia da platéia. Somente ele conseguiria mergulhar neste universo obscuro e intrigante que é habitado pelo Conde de Rochester. Depp não é o único a brilhar em “O Libertino”. Samantha Morton e Rosamund Pike também se destacam como as duas mulheres da vida de Johnny. O filme ainda possui um belo trabalho de composição de figurinos, de fotografia e de direção de arte. Mas peca justamente no desenvolvimento do roteiro escrito por Stephen Jeffreys com base na peça que ele mesmo escreveu – especialmente na hora final de “O Libertino”.
Cotação: 4,0
Crédito Foto: Yahoo! Movies