Sunday, June 03, 2007

Shut Up & Sing (2006)

Londres, 10 de Março de 2003. Nesta época, o grupo de música country texano Dixie Chicks – que é formado pela vocalista Natalie Maines, pela violinista Martie Maguire e pela multi-instrumentista Emily Robison – estava no topo do mundo. Um show lotado no Shepherd’s Bush Empire Theatre marcava o início da turnê européia do aclamado CD “Home”. Antes de cantar a belíssima canção “Travelin’ Soldier” (que fala sobre um soldado que participou da Guerra do Vietnã), a vocalista Natalie Maines soltou uma declaração que – nas vésperas da invasão dos Estados Unidos ao Iraque – caiu como uma bomba: “Só para que vocês fiquem sabendo, nós estamos do mesmo lado que vocês. Nós não queremos esta guerra, esta violência, e temos vergonha de que o Presidente dos Estados Unidos seja do Texas”.

A recusa das Dixie Chicks em se desculpar por esta declaração e a coragem de enfrentar aqueles (especialmente a indústria country norte-americana) que lhe viraram as costas rendeu duas obras que são um marco divisor para a carreira delas. A primeira delas, o CD “Taking the Long Way”, que venceu os Grammys 2007 de Melhor Álbum do Ano, Melhor Álbum Country do Ano e Melhor Música e Gravação do Ano para o single “Not Ready to Make Nice”. A segunda foi o documentário “Shut Up & Sing”, que foi dirigido por Barbara Kopple e Cecilia Peck (filha do ator Gregory Peck), e que funciona quase como um complemento para os temas tocados pelas Chicks no álbum.

O documentário se passa em dois momentos distintos e que fazem parte desse marco divisor da carreira das Dixie Chicks. Em 2003, Barbara Kopple e Cecilia Peck mostram os desdobramentos do acontecimento no Shepherd’s Bush Empire Theatre. Enquanto as Chicks continuavam fazendo a sua turnê européia, nos Estados Unidos a situação pegava fogo. As pessoas não perdoavam o fato de que Natalie Maines, Martie Maguire e Emily Robison – o grupo feminino que mais vendeu discos na história da música – tivessem virado as costas para o seu país e, pior, tivessem feito o seu protesto contra as decisões do Presidente George W. Bush num show em um país estrangeiro.

O público altamente conservador que ama a música country nos Estados Unidos – e que forma a grande maioria dos eleitores de Bush – começou a fazer uma série de protestos contra as Dixie Chicks. CDs foram queimados, rádios ameaçadas. Quando voltaram aos Estados Unidos, as Chicks e seu empresário começaram uma espécie de operação para mostrarem ao grande público que elas não eram contra os Estados Unidos. Ou seja, as Dixie Chicks saíram do limitado universo country e viraram ícones da cultura pop – nesta época, elas chegaram a aparecer nuas em uma capa de revista e foram entrevistadas pelos grandes nomes do jornalismo norte-americano, como Barbara Walters e Diane Sawyer. O resultado: as Dixie Chicks continuaram sendo ignoradas pelas rádios country, mas venderam todos os ingressos de sua turnê no país.

A segunda linha de tempo de “Shut Up & Sing” se passa em 2006, quando as Dixie Chicks estavam em Los Angeles gravando o CD “Taking the Long Way”, sob a produção de Rick Rubin (que já trabalhou com artistas do porte de Johnny Cash e Red Hot Chili Peppers). Na indústria musical, as Chicks são conhecidas por quebrarem tendências da música country e por terem levado, pela primeira vez, o tradicionalismo do estilo a um diálogo mais aprofundado com a música pop. Elas gostam de inovar – o CD “Home”, por exemplo, trouxe à moda novamente estilos como o bluegrass – e, com “Taking the Long Way”, pela primeira vez, escreveram todas as músicas do álbum e dialogaram com estilos diversos como blues, rock, folk, gospel, pop – sem esquecer, é claro, do country.

O mais interessante é que Barbara Kopple e Cecilia Peck mostram que, nestes três anos, pouca coisa mudou para as Dixie Chicks no que diz respeito à indústria country. Elas continuam sendo ignoradas pelas rádios, pelo público do gênero e pelos shows de premiações da categoria. No entanto, mantiveram o sucesso de vendas (o álbum ficou em primeiro lugar na parada da Billboard na semana de seu lançamento) e, apesar do fato de que o grupo teve uma turnê complicada (com shows cancelados e vendas maiores de ingressos em países estrangeiros), elas se viram diante um novo público – mais adulto e consciente.

“Shut Up & Sing” é um documentário que leva o público além na relação com o ídolo. Quem gosta das Dixie Chicks, as verá no seu momento mais vulnerável, em que as incertezas eram uma constante e em que o medo em relação ao futuro era atenuado por todo um processo de amadurecimento pessoal que as deixou muito mais próximas e fortes e que se reflete, hoje, na maneira em que elas fazem negócios. Quem não gosta das Dixie Chicks, pode ver o documentário como um exemplo de como a liberdade de expressão é um conceito mal utilizado – será que ela existe de verdade? No entanto, o ponto mais positivo de “Shut Up & Sing”, com certeza, é o fato de que, no filme, a controvérsia é o assunto principal, mas é a música das Dixie Chicks que fala por si – e é este o verdadeiro legado delas.

Cotação: 9,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Thursday, May 31, 2007

A Família do Futuro (Meet the Robinsons, 2007)

Antes mesmo de estrear nos cinemas de todo o Brasil, a animação “A Família do Futuro”, do diretor Stephen J. Anderson, já conquistava a atenção dos cinéfilos com um teaser super fofo que colocava um grupo de rãs fazendo uma paródia do clássico de Marvin Gaye, “I Heard It Through the Grapevine”.

O roteiro do filme – que foi escrito por Michelle Bochner, Stephen J. Anderson, Robert L. Baird, Jon Bernstein, Daniel Gerson, Nathan Greno, Don Hall e Aurian Redson com base no livro de William Joyce e nas histórias de Shirley Pierce – tem como personagem principal o garotinho órfão Lewis (dublado por Daniel Hansen e Jordan Fry), que mora em um orfanato. Ele tem doze anos e está numa fase bem complicada, pois o seu principal hobby – inventar bugigangas – e a sua idade são fatores primordiais para que ele não consiga ser adotado por uma família.

Na cabeça de Lewis, a única pessoa que o amou de verdade foi a sua mãe e – apesar de ela tê-lo abandonado – Lewis cria, para a feira de ciências do colégio aonde estuda, um aparelho que recupera a memória de um determinado dia. Dessa forma, Lewis espera ver a sua mãe, saber qual a sua origem e impedir que ela o entregue para adoção.

Sem que Lewis saiba, o aparelho de recuperação de memória que foi criado por ele, vira um objeto de desejo importante no futuro – e, em especial, para o vilão dublado por Matthew Josten. Em conseqüência disto, Lewis é “seqüestrado” por Wilbur Robinson (dublado por Wesley Singerman), um garoto que tem 13 anos e uma família estranhíssima (a mãe dele, Franny – que é dublada por Nicole Sullivan –, é a professora de música das rãs que estrelavam o teaser de “A Família do Futuro”). Wilbur quer que Lewis recupere sua máquina das mãos do vilão, que pretende usar a invenção dele para fins maléficos.

"A Família do Futuro” é o primeiro filme do setor de animação da Walt Disney a ser supervisionado por John Lasseter, o todo-poderoso da Pixar Animation Studios (e que, um dia, já foi parceira de negócios da Disney). Algumas diferenças neste filme já podem ser notadas. O roteiro é melhor desenvolvido. A animação é mais moderna. “A Família do Futuro” foge daqueles clássicos momentos musicais que marcam os filmes de animação da Disney. Enfim, o filme é um belo relato sobre a necessidade que todos nós temos de encontrar o nosso próprio caminho e de termos o amor e a segurança que só nos são providos pelo ambiente familiar. O filme só peca por não ter conseguido atrair grandes vozes – os mais famosos a participarem de “A Família do Futuro” são Angela Bassett, Laurie Metcalf, Adam West e Tom Selleck.

Cotação: 6,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, May 26, 2007

Piratas do Caribe - No Fim do Mundo (Pirates of the Caribbean - At World's End, 2007)

Se existe alguma razão por trás do sucesso dos filmes da série “Piratas do Caribe”, ela atende pelo nome de Johnny Depp. O carisma e a afetação do ator como o capitão Jack Sparrow conquistou, não só a crítica, como também o público. Se no primeiro filme, “A Maldição do Pérola Negra”, Sparrow rouba a cena; e, no segundo, “O Baú da Morte”, ele carrega o filme sozinho; no terceiro – e último – filme da série, que se chama “No Fim do Mundo”, os roteiristas Ted Elliott e Terry Rossio não se esquecem de Jack, mas dão chance para que a maioria dos personagens do filme tenha o seu momento para brilhar.

A trama central de “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo” se passa num momento particularmente difícil para os piratas. O lorde Cutler Beckett (Tom Hollander) assinou um decreto que condena à morte (sem direito de defesa) qualquer pessoa que fez ou que esteja associada à pirataria. Com a ameaça da extinção do grupo, os líderes piratas decidem se reunir em sua própria organização – a Confraria dos Piratas – para tentar criar uma estratégia de defesa contra o poderoso lorde. Todos os líderes piratas estão disponíveis para ir à reunião – inclusive o recém-ressuscitado capitão Barbossa (Geoffrey Rush) – menos Jack Sparrow, que foi condenado ao mundo dos mortos por causa de sua dívida com Davy Jones (Bill Nighy). Portanto, Barbossa, Elizabeth Swann (Keira Knightley) e Will Turner (Orlando Bloom) se unem no comando do Pérola Negra para resgatar Jack do mundo dos mortos.

No entanto, o espectador vai logo perceber que cada um dos membros da Confraria e do Pérola Negra tem seus próprios interesses nesta missão. Davy Jones e o capitão Sao Feng (Chow Yun-Fat) querem passar a perna um no outro e em todos os outros, ao mesmo tempo. Barbossa quer recuperar o comando solitário do navio Pérola Negra. Will Turner quer o navio para si para poder resgatar seu pai (Stellan Skarsgaard) do domínio de Davy Jones. Elizabeth Swann, finalmente, dá mostras de sua maturidade e toma as rédeas da situação – mas, só porque quer encerrar tudo para poder viver tranqüilamente ao lado de seu amor Will. Já Jack, como sempre, quer ir atrás do acordo que é mais vantajoso para ele. Gravitando em torno destes personagens, está o lorde Beckett, que vai enganando o máximo de pessoas possível para poder ele mesmo ser o dominante geral dos mares.

Assim como aconteceu em “Piratas do Caribe 2 – O Baú da Morte”, o espectador vai se deparar com um filme executado de forma brilhante (os efeitos visuais continuam excelentes e as cenas de ação são ótimas), mas com um roteiro sofrível. O excesso de sub-tramas prejudica – e muito – o ritmo do filme. “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo” é um filme tão cheio de acontecimentos que se julgam importantes, que não deu para o diretor Gore Verbinski concluir todas as suas histórias da maneira correta – para se ter uma idéia, a história de Elizabeth e Will só vai ser concluída com uma cena ridícula e desnecessária que o diretor coloca após os créditos finais do filme.

Provavelmente, “Piratas do Caribe – No Fim do Mundo” vai ser um enorme sucesso de bilheteria, muito em parte graças ao ator Johnny Depp e seu sempre ótimo Jack Sparrow. No entanto, o filme oferece alguns outros atrativos, como a presença de Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones e inspiração de Johnny Depp para a composição de Sparrow, como o capitão Teague (o pai de Jack). No entanto, nada disso faz com que se tire o gosto de que as seqüências do “Piratas do Caribe” original foram só uma desculpa para arrecadar ainda mais dinheiro. Espero que depois disso, o produtor Jerry Bruckheimer abandone qualquer idéia de spin-off, pois a saga de Jack Sparrow, Elizabeth Swann e Will Turner já deu o que tinha que dar.

Cotação: 5,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, May 22, 2007

Maria Antonieta (Marie Antoinette, 2006)

Maria Antonieta foi a arquiduquesa da Áustria e a rainha da França até a Revolução Francesa, que levou o povo ao poder sob os princípios da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Quando rainha, Maria Antonieta – mesmo exercendo uma grande influência política sob seu marido – foi bastante impopular, pois não tinha sensibilidade para entender as necessidades de seu povo, que, por sua vez, não entendia os gastos exorbitantes de sua soberana. É este personagem complexo e fascinante o objeto de estudo da cinebiografia “Maria Antonieta”, da diretora e roteirista Sofia Coppola.

Coppola nos apresenta este personagem de uma maneira bastante interessante. No primeiro ato, Maria Antonieta (Kirsten Dunst, na melhor atuação de sua carreira) é somente uma jovem austríaca inexperiente, que é enviada para a França para se casar com Luís Augusto (Jason Schwartzman), o herdeiro do trono francês. O casamento, além de selar a aliança entre o povo austríaco e francês, tem como objetivo principal produzir um novo herdeiro para o reino da França. Esta mudança é muito abrupta e de difícil adaptação para Maria Antonieta, que tem que deixar para trás qualquer objeto que a faça se lembrar de seu lar e de suas origens. Ela tem que abraçar uma nova vida, num novo local com toda uma leva de novos – e ridículos – costumes.

Sofia Coppola retrata com competência o conflito destes dois jovens – Luís Augusto e Maria Antonieta – que foram metidos num casamento sem estarem preparados para isto. Sem privacidade ou clima favorável para se conhecerem melhor, os dois viram a piada do ano na corte, já que Luís não consegue consumar o casamento com a sua jovem e bela esposa.

No segundo ato, já com Luís XVI elevado ao posto de rei da França e, por conseqüência, Maria Antonieta como rainha do país, as posições se invertem. Sofia Coppola, então, mostra o deslumbre que a jovem sente no seu novo papel – e o qual é representado pela luxúria e pelos gastos excessivos com roupas, festas e jogos. Pela primeira vez, Maria Antonieta leva uma vida independente de seu marido – e, curiosamente, é assim que os dois vão ficar mais próximos do que nunca e irão constituir a tão sonhada família.

O filme todo, na realidade, trata do choque entre vida adolescente e vida adulta. Maria Antonieta era uma criança quando se casou. Após se tornar rainha, tentou recuperar o tempo perdido e viveu com intensidade. Mesmo assim, ela demonstra, no final, maturidade suficiente para entender qual o seu verdadeiro papel e o que as pessoas esperam que ela faça. A história de Maria Antonieta seria atemporal – talvez, por isso, Sofia Coppola tenha optado pelo uso de uma trilha sonora contemporânea.

O que fica claro para a platéia no decorrer de “Maria Antonieta” é a identificação que se estabeleceu entre a personagem e a diretora e roteirista Sofia Coppola. O que ela demonstra no filme é a maturidade de uma cineasta que sabe o que quer. Tecnicamente, “Maria Antonieta” é um dos filmes mais belos dos últimos anos. Os figurinos da vencedora do Oscar 2007 Milena Canonero; a fotografia de Lance Acord; a direção de arte de Pierre Duboisberranger, Anne Seibel e K. K. Barrett e as locações do filme são primorosas. Os erros cometidos por Coppola aparecem mais no quarto final de “Maria Antonieta”, quando a rapidez por concluir a história acaba por colocar a platéia diante de uma série de acontecimentos que ficam mal esclarecidos. Esta é uma obra subestimada e que deve ser levada a sério, pois não é nenhum capricho adolescente.

Cotação: 7,2

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Monday, May 21, 2007

Pecados Íntimos (Little Children, 2006)

O seriado “Desperate Housewives” estreou na temporada 2004-2005, no canal norte-americano ABC, com uma premissa muito interessante: acompanhar a vida de donas-de-casa que moram num bairro de classe média alta com suas famílias. O ponto crucial do seriado era mostrar que, por trás da fachada de luxo, riqueza e felicidade, existe também muito mistério, intriga, amor, traição, sexo e morte. O filme “Pecados Íntimos”, do diretor Todd Field (que co-escreveu o roteiro ao lado do escritor Tom Perrotta), tem um quê de “Desperate Housewives”.

Os personagens principais de “Pecados Íntimos” possuem uma coisa em comum: para o mundo, eles possuem uma vida perfeita; mas, entre quatro paredes, eles se sentem presos a uma vida que não é feliz. Sarah Pierce (Kate Winslet, que foi indicada ao Oscar 2007 de Melhor Atriz pela sua performance neste filme) é casada com um homem mais velho (Gregg Edelman) e mãe de Lucy (Sadie Goldstein). Sarah, aparentemente, não se sente à vontade com seu papel de mãe e anseia pelo momento em que o marido chega em casa do trabalho, para que ela possa ter um momento somente dela e, de preferência, ao lado dos livros que ela tanto gosta.

Já Brad Adamson (Patrick Wilson) é casado com a documentarista Kathy (Jennifer Connelly) e pai do garotinho Aaron (Ty Simpkins). Brad é advogado, mas nunca passou no exame da Ordem, por isso sua profissão é ser pai em tempo integral. A esposa o pressiona a fazer novamente o exame da Ordem, mas, sinceramente, Brad não sabe o que quer fazer da vida. A impressão que ele nos dá é a de que é um garotão em uma crise prematura de meia idade.

Em meio a brincadeiras no parque e na piscina pública, Brad e Sarah irão se conhecer e terão um caso extraconjugal. O momento para o flerte não poderia ser impróprio, afinal o bairro aonde eles moram vive em polvorosa por causa da chegada de Ronnie McGorvey (Jackie Earle Haley, que foi indicado ao Oscar 2007 de Melhor Ator Coadjuvante), que foi condenado por atentado ao pudor contra uma criança.

O diretor Todd Field vem se especializando na arte de fazer filmes sobre pessoas que estão no seu limite e que tentam, de alguma forma, recomeçar as suas vidas. Em “Pecados Íntimos”, ele consegue ser bem mais sucedido do que no seu filme anterior (“Entre Quatro Paredes”). Aqui, ele mostra que os erros nunca podem ser esquecidos – já que eles fazem parte do que somos. No entanto, o recomeço não precisa ser abrupto. O que o roteiro de Todd Field e Tom Perrotta mostra é que o futuro pode estar mais perto do que imaginamos – ele pode, por exemplo, ser representado por uma criança ou pela vontade de reviver uma sensação que há muito tempo não tínhamos.

Cotação: 8,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, May 19, 2007

O Cheiro do Ralo (2006)

Fazer um filme no Brasil é uma aventura que chega a ser dolorosa e longa para os envolvidos. O financiamento das obras é quase que estatal – o que não impede a participação de patrocinadores externos. “O Cheiro do Ralo” seguiu um caminho quase que único. O filme foi feito com um pouco de financiamento estatal e privado, mas só conseguiu ser completado com a ajuda dos produtores e da equipe do filme, que fizeram uma vaquinha entre si. Esta cooperativa é um ótimo exemplo de gente que acredita no cinema brasileiro e que veste a camisa por aquilo em que bota fé.

“O Cheiro do Ralo” é o segundo filme do diretor Heitor Dhalia (que co-escreveu o roteiro com Marçal Aquino), que ganhou uma certa projeção nacional com o ótimo “Nina”. Aqui, ele adapta um romance do escritor Lourenço Mutarelli (que participa do filme como ator) que conta a história de Lourenço (Selton Mello), o dono de um antiquário.

Lourenço é um cara estranho, que só compra objetos que possuem uma história por trás deles. O engraçado é que a gente só o vê comprando coisas, mas nunca as vendendo. Parece que ele sente verdadeira paixão em entulhar os seus bens, em consumir estas histórias. O que Lourenço não se dá conta é de que, aos poucos, ele próprio vai sendo consumido pela sujeira do local aonde trabalha – o ralo do banheiro do antiquário solta um cheiro insuportável.

Lourenço não se importa com ninguém. Mas, curiosamente, se preocupa com si mesmo. Ele não quer que seus clientes pensem que o cheiro forte do banheiro vem dele. O que não surpreende nisso tudo é que Lourenço, o cara mais fascinado pelo cheiro ruim do ralo, vá justamente se apaixonar pela bunda de uma garçonete (Paula Braun).

“O Cheiro do Ralo” se apóia no personagem Lourenço. É através do acompanhamento da sua rotina diária, da crise com a ex-noiva (Fabiana Guglielmetti), da relação com os clientes com quem ele estabelece negócios – e, dentre os quais, se destaca a viciada interpretada por Sílvia Lourenço - que iremos conhecê-lo e entender o por quê de tanto fascínio pelo lado podre da vida.

“O Cheiro do Ralo” é um filme que se diferencia da safra normal de filmes brasileiros, não só por ser quase independente, mas por tentar fazer algo único. O roteiro de Heitor Dhalia e Marçal Aquino não tem uma linha pré-definida. São vários pedaços que acabam formando um todo. E isto só faz sentido para a platéia devido ao ótimo trabalho de direção de Dahlia e à fantástica atuação de Selton Mello, um dos atores mais versáteis que temos no Brasil.

Cotação: 6,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Wednesday, May 16, 2007

Número 23 (The Number 23, 2007)

A nossa vida é bastante marcada por uma série de números. A data de nosso nascimento, a cédula de identidade, o número da casa/apartamento aonde moramos, a data em que nos casamos, a data em que nascem os nossos filhos, a data em que morremos, dentre outras. São estes números que definem, de certa maneira, as passagens mais importantes de nossa existência. O filme “Número 23”, do diretor Joel Schumacher, fala justamente sobre a obsessão de um homem com um número que parece ser um elemento recorrente em sua vida.

Walter Sparrow (Jim Carrey) é um cara comum, que trabalha numa central de controle de animais, e que leva uma vida pacata ao lado da esposa Agatha (Virginia Madsen) e do filho Robin (Logan Lerman, um ator revelado no excelente seriado “Jack & Bobby”, que foi cancelado prematuramente). No dia da comemoração de seu aniversário, no entanto, algo começa a dar errado. Ele é mordido por um cachorro no serviço, sua esposa fica doente e não pode ir à festa que daria aos amigos, uma colega de trabalho dá em cima dele e, finalmente, ele se vê preso em um livro que não consegue parar de ler e que lhe foi dado de presente pela sua esposa.

O livro, que se chama “The Number 23”, conta a história de um detetive chamado Fingerling (também interpretado por Carrey), que se vê obcecado pelo número 23, após investigar uma bela garota (Lynn Collins), que acreditava ter sido vítima de uma maldição do número. Na medida em que Sparrow vai lendo o livro, ele começa a enxergar certos paralelos com a sua própria vida, com acontecimentos que marcaram a sua infância, a sua vida adulta. Ou seja, ele também fica paranóico a respeito do número 23 e começa a fazer a sua própria investigação para chegar ao autor do livro e se livrar dessa obsessão.

O roteiro de Fernley Phillips tem uma premissa muito interessante (a de que são as nossas escolhas que nos definem, e não os números ou os adjetivos que recebemos ao longo de nossas vidas) e vai sendo bem desenvolvida até, mais ou menos, o quarto final de “Número 23”. O diretor Joel Schumacher, um dos mais instáveis na indústria cinematográfica, executa bem a sua história, mas peca por ter deixado passar os elementos mais fracos do roteiro de Phillips, e que se encontram justamente na última reviravolta que a trama oferece. Um final hipócrita demais, do tipo “faça a coisa certa”. Uma interpretação caricata de Jim Carrey. São elementos suficientes para fazer com que os cinéfilos fiquem longe de “Número 23”.

Cotação: 1,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Friday, May 11, 2007

First Look: Evening (2007)



Diretor: Lajos Koltai

Elenco: Claire Danes, Toni Collette, Vanessa Redgrave, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Natasha Richardson, Mamie Gummer, Eileen Atkins, Meryl Streep, Glenn Close.

Trama: Um drama que explora o passado romântico e o presente emocional de Ann Grant (Redgrave) e suas filhas Constance (Richardson) e Nina (Collette). Ann está no seu leito de morte e relembra os momentos de definição de sua vida há cinqüenta anos atrás, quando ela era uma jovem (Danes).

Por quê prestar atenção em “Evening”?
- O elenco reúne alguns dos melhores atores que temos na atualidade.
- O roteiro é do escritor Michael Cunningham, de “As Horas”, um especialista nas relações humanas e nos sentimentos que movem as nossas vidas.
- O trailer deixa os cinéfilos com um gostinho de quero mais.
- O filme marca a estréia cinematográfica de Mamie Gummer, filha de Meryl Streep, e que mais parece um clone de sua mãe. (será que ela também herdou de sua genitora o talento para a atuação?).
- O filme marca a volta triunfal de Vanessa Redgrave, que, nos últimos anos, vem alternando um papel recorrente na série "Nip/Tuck" com filmes pequenos. Uma indicação ao Oscar já está sendo prevista - Redgrave ainda será vista em "Atonement", outro filme cotadíssimo ao Oscar 2008.


Por quê duvidar de “Evening”?
- Lajos Koltai estréia como diretor de um filme de longa-metragem. No entanto, ele é um experiente diretor de fotografia – seus trabalhos anteriores incluem “Adorável Julia”, “Malèna” e “Sunshine – O Despertar de um Século”.
- Filmes como este são uma faca de dois gumes: ou são uma obra-prima ou são um desastre completo.

As respostas às primeiras exibições de "Evening" têm sido bem positivas. O filme recebeu avaliações muito boas e os elogios têm sido dirigidos especialmente às atuações de Vanessa Redgrave, Claire Danes e Hugh Dancy. "Evening" estréia, de forma limitada, no dia 29 de junho, nos Estados Unidos. O filme ainda não tem data de estréia prevista no Brasil.

Wednesday, May 09, 2007

Minha Mãe Quer que Eu Case (Because I Said So, 2007)

Na cena mais importante da comédia romântica “Minha Mãe Quer que Eu Case”, Daphne Wilder (Diane Keaton) fala a seguinte frase: “O amor de mãe é impossível. Me diga aonde ele termina?”. Esta frase define muito bem o relacionamento que se estabelece entre uma mãe e uma filha – e é esse o elemento mais importante do filme dirigido por Michael Lehmann.

Daphne Wilder é uma supermãe, que protege e interfere excessivamente na vida de suas três filhas: Maggie (Lauren Graham, a fantástica atriz do seriado “Gilmore Girls”), Mae (Piper Perabo) e Milly (Mandy Moore, cada vez melhor como atriz). Por mais que suas filhas reclamem, Daphne acredita piamente que a proteção e a interferência são justificadas, afinal ela dedicou toda a sua vida para criar as filhas. E todas elas se deram muito bem, tendo em vista que têm carreiras profissionais bem-sucedidas e são independentes.

No entanto, Daphne tem uma certeza: a de que sua missão ainda não está completa, pois ela não viu a sua filha caçula Milly se casando ou, na melhor das hipóteses, com um relacionamento amoroso fixo. Milly é uma típica jovem que está na casa dos 20 anos, mas é cheia de responsabilidades: tem sua própria empresa (um buffet), seu apartamento, seu carro. A única coisa que ela não controla é a sua vida amorosa, tendo em vista os constantes pares que sua mãe tenta lhe achar.

Daphne ultrapassa todos os limites quando coloca um anúncio num serviço de encontros online para encontrar um “parceiro de vida” para Milly. Ela se deparará com dois candidatos distintos. O primeiro – e preferido da mamãe – é Jason (Tom Everett Scott), um arquiteto rico, bem-sucedido e culto. O segundo é Johnny (Gabriel Macht), um músico e professor nas horas vagas, que divide uma casa confortável – mas não luxuosa – com o pai Joe (Stephen Collins, o patriarca do seriado “7th Heaven”) e o filho Lionel (Ty Panitz). Estes dois personagens masculinos encarnam muito bem os arquétipos: genro que toda mãe sonhou X bad boy que vai machucar o coração da pobre filhinha.

A personagem que a atriz Diane Keaton interpreta em “Minha Mãe Quer que Eu Case” se parece muito com Erica Barry, personagem que ela mesma interpretou em outra comédia romântica chamada “Alguém Tem que Ceder”, da diretora e roteirista Nancy Meyers. Ambas as mulheres desistiram do amor e, quando se vêem diante da velhice, acham que o seu destino já está traçado. As duas mulheres, no entanto, são surpreendidas com as armadilhas do amor, que sempre aparece quando a gente menos imagina. No caso particular de “Minha Mãe Quer que Eu Case”, a procura de Daphne por um amor para Milly, na verdade, é a sua própria busca.

“Minha Mãe Quer que Eu Case” e “Alguém Tem que Ceder” ainda guardam uma outra importante característica em comum. Os dois filmes contam com uma grande atuação de Diane Keaton. É justamente ela – e seu figurino desastroso, que parece ter saído realmente do guarda-roupa da atriz – os melhores elementos de “Minha Mãe Quer que Eu Case”.

Cotação: 6,3

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, May 05, 2007

Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007)

Desde 2002 que o diretor, produtor e roteirista Sam Raimi não pensa em outra coisa a não ser no Homem-Aranha, um dos mais populares personagens de histórias em quadrinhos da história. Raimi, ao lado de Bryan Singer (e seu “X-Men – O Filme”, de 2000), são os responsáveis pelo renascimento de um gênero que andava bem decadente: o de filmes baseados em histórias em quadrinhos. Os dois diretores têm muita coisa em comum: ambos são fãs dos livrinhos, respeitam os seus personagens e as histórias que eles protagonizam e, principalmente, um apurado senso cinematográfico – o que faz com que os filmes deles sejam únicos e sigam uma linha de continuação que não contradiz em nada o que foi abordado anteriormente.

Os filmes do Homem-Aranha são ancorados, basicamente, por uma frase que foi dita para Peter Parker (Tobey Maguire), pelo seu tio Ben (Cliff Robertson), no primeiro filme da série: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”. É justamente a morte de Ben, que foi assassinado após uma tentativa de assalto, que faz com que Peter Parker assuma de vez o manto do Homem Aranha, lutando pelas pessoas indefesas e fazendo a sua parte para deixar o mundo um lugar mais pacífico.

Em “Homem-Aranha 2”, Peter se vê dividido entre o seu lado herói e o seu lado humano. Ele não consegue ajudar as pessoas que mais importam em sua vida – a tia May (Rosemary Harris), o seu objeto de afeição Mary Jane Watson (Kirsten Dunst) e o melhor amigo Harry Osborn (James Franco) – e, por causa disso, aposenta o seu uniforme. Um novo vilão, no entanto, o faz voltar à ativa.

Na terceira aventura do herói nos cinemas, “Homem-Aranha 3”, Peter Parker está, provavelmente, no momento mais especial de sua vida. Tudo está dando certo. Ele continua conciliando a faculdade e o trabalho como fotógrafo e, além disso, conquistou de vez o amor de Mary Jane – com quem pretende se casar. Quando a polícia o procura para dizer que o verdadeiro assassino de seu tio, Flint Marko (Thomas Haden Church), fugiu da cadeia, Peter começa a flertar com o sentimento da vingança, que o vai consumindo aos poucos.

O elemento mais interessante do roteiro de “Homem-Aranha 3”, que foi escrito por Sam Raimi, Ivan Raimi e Alvin Sargent, é a compreensão maior que eles nos oferecem sobre os vilões do herói. Eles são pessoas comuns, que se deixaram abater por suas obsessões (a sede de vingança no caso de Harry, a vontade de humilhar aquele que lhe causou o mal no caso de Eddie Brock/Venon – interpretado por Topher Grace – e o desejo de conseguir o dinheiro que pode trazer a saúde de sua filha de volta no caso de Flint Marko). Parker também tem a sua obsessão (encontrar para a polícia o assassino foragido de seu tio) e será consumido por esse lado negro (o Aranha abandona seu habitual uniforme em prol de um traje todo preto), se transformando num cara um tanto arrogante, seguro de si e cheio de “mojo” (a única coisa meio ridícula nisso tudo é o visual meio “emo”, com franjinha na cara e lápis preto no olho), que usa o seu poder exclusivamente para o seu bem próprio.

“Homem-Aranha 3” não é o melhor filme da série, mas é, provavelmente, o filme mais divertido da franquia até agora. Assistir Tobey Maguire se divertindo na pele do Peter Parker do lado negro vale o ingresso. O filme tem poucas cenas de ação (mas, acredite, todas as lutas entre o herói e seus vilões valem a pena) e o importante aqui é aprofundar de vez a construção do personagem Peter Parker e, principalmente, o de Mary Jane (pela primeira vez, vemos os seus medos e conflitos). Vale tirar o chapéu para Sam Raimi pela coragem de terminar “Homem-Aranha 3” sem um gancho para a continuação. A grande surpresa aqui é ver um filme que tem um começo, um meio e um fim bem desenhados. Acho que o Homem-Aranha acabou de passar pela sua fase de transição. Peter Parker não é mais aquele jovem tímido e desajeitado. Ele está entrando na sua vida adulta – e “Homem-Aranha 3” mostra isto com perfeição.

Cotação: 8,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Thursday, May 03, 2007

Apocalypto (2006)

As primeiras cenas de “Apocalypto”, filme do diretor Mel Gibson, podem enganar bastante. Nelas, a platéia encontra um retrato perfeito do dia-a-dia de uma tribo que vive na época do Império Maia. Em plena floresta, os homens procuram o alimento com seus apetrechos de caça – e ainda arrumam tempo para fazer brincadeiras entre si. O clima ameno é interrompido quando eles se deparam com uma outra tribo. Com a cara tensa, eles confessam que foram desapropriados e que procuram um novo lugar para um novo começo.

Mal sabiam estes homens que eles teriam o mesmo destino. Representantes do Império Maia invadem as suas terras, sacrificam algumas mulheres e crianças e levam os sobreviventes (especialmente os homens) como prisioneiros. As mulheres restantes são vendidas como escravas, enquanto os homens são colocados para construir novos templos ou para participarem de sacrifícios humanos – numa espécie de política de pão e circo completamente distorcida e bizarra.

“Apocalypto” deixa esta abordagem generalizada de lado quando o roteiro escrito por Mel Gibson e Farhad Safinia decide tratar de maneira particular a história de Jaguar Paw (Rudy Youngblood), o filho de um dos governantes da tribo que assistimos no início do filme. Jaguar é um caçador de mão cheia e que está em contato permanente com seu lado espiritual. No meio do caos que se instala na sua tribo, ele consegue deixar a sua família – a esposa grávida e o filho – escondidos em um local. Agarrado à promessa que fez para a esposa e pela vontade de começar uma nova história, Jaguar inicia uma jornada de volta para casa tendo no seu encalço os representantes do Império Maia.

Podemos encontrar neste filme traços das tramas de outros filmes. As cenas que se passam no show de carnificina promovido pelo Império Maia, com o público parecendo um bando de animais sedento por mais violência, parecem ter sido tiradas de “Gladiador”, de Ridley Scott. A viagem de Jaguar de volta para casa com a lembrança do pedido de sua esposa (“volte por mim”) tem ecos de “Cold Mountain”, de Anthony Minghella; que, por sua vez, tem influências diretas do clássico livro “Odisséia”, de Homero.

O lado diretor de Mel Gibson foi o responsável por um dos filmes mais controversos – e lucrativos – da história recente do cinema: “A Paixão de Cristo”. Com este filme, Gibson inaugurou o seu jeito de fazer cinema. Ele faz os seus próprios roteiros, financia seus próprios projetos e só negocia os direitos de distribuição de suas obras. “Apocalypto” foi feito dessa mesma forma. Aqui, Gibson leva além alguns elementos que utilizou em “A Paixão de Cristo”. O mais notável deles é o fator violência. “Apocalypto” é bem gráfico neste sentido e é cheio de cenas em que o sangue é o detalhe menos chocante.

Se comparado ao filme “A Paixão de Cristo”, “Apocalypto” representa um retrocesso. O filme é cheio de problemas, tem um ritmo lento, a trama se perde em certos momentos e só se recupera no quarto final já com o retrato da jornada de Jaguar Paw para voltar à sua casa. “Apocalypto” também não causou tanto barulho como “A Paixão de Cristo” – e olha que poderia, tendo em vista a prisão de Mel Gibson por desacato à autoridade e por dirigir embriagado. Talvez, o que o filme realmente represente é mais a birra de seu diretor. Gibson tem um ego demasiado grande. Seus filmes são megalômanos. Seria interessante que ele se lembre de outro exemplo de diretor que se deu mal por tentar dar um passo maior do que as pernas. Kevin Costner poderia dar muitas dicas ao Gibson. Ele está precisando.

Cotação: 4,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

O Bom Pastor (The Good Shepherd, 2006)

Quando Edward Wilson (Matt Damon) tinha seis anos, o pai dele (Timothy Hutton) lhe contou uma história e o fez um pedido – seu último pedido, na verdade: nunca minta para alguém. Infelizmente, Edward não levou o conselho do seu pai a sério, tendo em vista que ele construiu a sua vida com base nas mentiras e nos segredos que mantinha escondidos dos amigos, da família, dos conhecidos e até mesmo dos colegas de trabalho.

Edward, na realidade, é um cara reservado, de poucas palavras e de ações eficazes. Ou seja, ele é o candidato perfeito para encabeçar a Contra-Inteligência, o coração e a alma da CIA – a Agência de Inteligência dos Estados Unidos – que, por sua vez, são os olhos e os ouvidos da nação norte-americana. E é justamente a criação e consolidação do papel da CIA nos acontecimentos determinantes do mundo em que vivemos o objeto principal de estudo do filme “O Bom Pastor”, de Robert de Niro (que encara a cadeira de diretor pela segunda vez em sua carreira).

O filme se passa nos dias que sucederam o 17 de abril de 1961, após a ação desastrada da CIA, que, durante o governo de John Fitzgerald Kennedy tentou invadir – sem sucesso – Cuba pela Baía dos Porcos. Em meio a uma caça às bruxas dentro da própria Agência, que busca um culpado pelo fracasso da ação, Edward começa a relembrar a sua própria jornada pessoal. O início em uma sociedade secreta na Universidade de Yale, o relacionamento verdadeiro que ele estabeleceu com Laura (a excelente Tammy Blanchard, que, finalmente, é descoberta pelas agências de casting de Hollywood) e que foi interrompido bruscamente quando Edward se casou com Margaret (Angelina Jolie) – a irmã de seu melhor amigo John (Gabriel Macht) –, que estava grávida.

Parece que a expressão “interrupção brusca” é uma constante na vida de Edward. Assim como aconteceu com Laura, antes mesmo de construir uma intimidade com Margaret, Edward – devido o seu trabalho na II Guerra Mundial – passa seis anos afastado de casa. Quando volta, Edward mantém um muro cheio de segredos e de privacidade, que o impede de viver um relacionamento mais pleno com Margaret e o filho Junior (Eddie Redmayne).

O roteiro de Eric Roth enfoca muito a solidão da vida de pessoas como Edward. Ele não pode confiar em ninguém ou se envolver profundamente com as pessoas. Tem uma responsabilidade tremenda no seu emprego. Lida diariamente com as noções de verdade e de mentira. Tem que fazer sacrifícios. É praticamente abdicar de qualquer noção de existência – ou, na melhor das hipóteses, ter uma existência o mais discreta possível.

O material que “O Bom Pastor” aborda é denso e bastante delicado. Por muito tempo, o roteiro do filme foi considerado “um dos melhores ainda não filmados por Hollywood”. Já com Robert de Niro no papel de diretor, “O Bom Pastor” sofreu com a desistência de Leonardo di Caprio (o escolhido para ser Edward) na véspera do início das filmagens. Matt Damon se juntou à equipe em cima da hora e faz um trabalho excelente para quem teve tão pouco tempo para compor seu personagem. De Niro entrega um bom filme sobre como as mentiras podem acabar consumindo um homem a ponto de ele não ver mais saída para os seus próprios conflitos. Edward é um prisioneiro de si mesmo e do mundo que ele criou.

Cotação: 6,2

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, April 24, 2007

Hannibal - A Origem do Mal (Hannibal Rising, 2007)


Existem alguns personagens que são maiores do que os filmes que estrelaram. Hannibal Lecter, o perigoso e inteligente psicopata criado pelo escritor Thomas Harris, é um deles. Ele já deu as caras em cinco filmes e foi interpretado por três atores diferentes, mas deve a sua fama ao ator galês Anthony Hopkins. Em “O Silêncio dos Inocentes”, filme de Jonathan Demme premiado com os cinco Oscars principais (filme, diretor, ator, atriz e roteiro) em 1992, Hopkins emprestou um certo carisma à loucura de Lecter, fazendo com que o personagem conquistasse a admiração dos cinéfilos.

Em todos os filmes estrelados por Hannibal Lecter – além do já citado “O Silêncio dos Inocentes”, temos “Dragão Vermelho”, de Michael Mann; “Hannibal”, de Ridley Scott; e “Dragão Vermelho”, de Brett Ratner – existe uma mesma dinâmica. As tramas exploram o relacionamento que se estabelece entre Lecter e os representantes da lei (todos eram policiais). Estes precisam que aquele os ajude a desvendar um caso criminal e, aos poucos, vão sendo consumidos pelo jeito frio, calculista, magnético e intuitivo do psicopata.

Este não é o caso de “Hannibal – A Origem do Mal”, do diretor Peter Webber. O filme tem o mesmo papel de uma reportagem que quer apresentar o perfil psicológico de um criminoso. Portanto, conheceremos a história de vida de Hannibal Lecter – aonde ele nasceu, como era a sua família e, principalmente, qual o fato que o fez se transformar naquilo que ele passou a ser.

“Hannibal – A Origem do Mal” começa em plena II Guerra Mundial, na Lituânia, quando o menino Hannibal Lecter (Aaron Thomas) e sua família abandonam o castelo aonde viviam e partem para uma casa de campo em busca de sossego. Os soldados nazistas logo descobrem o esconderijo da família Lecter e estabelecem uma prática que é muito comum nas guerras: se apossam das terras, da riqueza e assassinam a família inteira. Só sobrevivem o menino Hannibal e sua irmã Mischa (Helena Lia Tachovska) – a qual será, mais tarde, assassinada e devorada pelos famintos soldados.

Não precisa nem dizer que as lembranças destes dias vão transformar e atormentar Hannibal Lecter para sempre. E, quando o reencontramos, oito anos depois (já com o ator francês Gaspard Ulliel na sua pele), ele é um estudante de Medicina que vive com a tia (Gong Li) na França, enquanto elabora o plano de sua vingança sob o olhar atento do Inspetor Popil (Dominic West).

É esta atmosfera meio “Kill Bill” que domina “Hannibal – A Origem do Mal”. O diretor Peter Webber se esforça em imprimir uma aura sofisticada ao seu filme. Isso é conseguido – em parte – graças à fotografia de Ben Davis, que distingue bem os momentos de luz e os de trevas na vida de Hannibal Lecter. No entanto, Webber peca em dois pontos fundamentais: no roteiro do escritor Thomas Harris, que é muito fraco e na escalação de Gaspard Ulliel como o famoso Lecter. O ator francês não está preparado para fazer um papel desse tipo e, na tentativa de emular a interpretação já antológica de Anthony Hopkins, dando ênfase à voz e ao olhar, Ulliel só consegue arrancar risos da platéia. O que é uma pena.

Cotação: 4,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Monday, April 23, 2007

Ó Paí Ó (2007)


O bairro do Pelourinho é uma das regiões mais conhecidas do Centro Histórico da cidade de Salvador, na Bahia. A arquitetura barroca e a forte presença cultural (o local é sede de grupos como a Casa de Jorge Amado, o Grupo Gay da Bahia e o Insituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural) são apenas alguns dos atrativos para milhares de turistas que vêm de todo o Brasil e do mundo para conhecer a capital baiana. É nesse local que se dá também a ação da comédia musical “Ó Pai Ó”, da diretora Monique Gardenberg.

O filme se passa durante o Carnaval – a maior manifestação popular da Bahia – e acompanha a vida de um grupo de pessoas que mora em um cortiço. São eles: o pintor e aspirante a cantor Roque (Lázaro Ramos), a imigrante que mora na Suíça Psilene (Dira Paes), o malandro Boca (Wagner Moura, na pior atuação dele no cinema), o comerciante Seu Jerônimo (Stênio Garcia), a religiosa Dona Joana (Luciana Souza), a provocante Rosa (Emanuelle Araújo, ex-vocalista da Banda Eva), o mulherengo Reginaldo (Érico Brás) e os meninos Cosme (Vinícius Nascimento) e Damião (Felipe Fernandes), dentre outros.

“Ó Pai Ó” retrata, através de seus personagens, características que são comuns, não só ao povo baiano, como ao brasileiro. Os personagens são pessoas pobres, porém esforçadas, que tentam viver o seu dia-a-dia com muito humor, ironia, criatividade e música. Neste último caso, são utilizadas – além das canções originais compostas por Caetano Veloso e Davi Moraes -, músicas que já fazem parte da história da Axé Music como “Vem Meu Amor” e “I Miss Her”, do Olodum; “Lili”, do astro do reggae maranhense Edson Gomes; “O Araketu é Bom Demais”, do Ara Ketu; e “Protesto do Olodum”, da Banda Mel.

Baseado na peça de Márcio Mello que foi encenada pelo Bando de Teatro do Olodum, a maior qualidade do filme “Ó Pai Ó” (uma expressão que, em puro baianês, significa “olhe para isso, olhe”) é colocar atores que são gente como a gente e com os quais a identificação é imediata. A diretora e roteirista Monique Gardenberg, na maior parte do tempo, se fixa na idéia de fazer uma crônica da vida desse grupo de pessoas que tem tanta coisa em comum. Os problemas começam já no quarto final do filme, quando Gardenberg passa para o terreno da crítica social, ao abordar a violência que já é tão comum nos bairros mais populares das grandes metrópoles brasileiras. Num filme que era para ser uma ode ao jeito baiano ou brasileiro de ser, esta crítica fica meio perdida.

Cotação: 3,8

Crédito Foto: E-Pipoca

Saturday, April 21, 2007

A Colheita do Mal (The Reaping, 2007)


No livro do Êxodo, que faz parte do Antigo Testamento da Bíblia Sagrada, podemos encontrar um relato sobre as dez pragas que assolaram o Egito e que foram enviadas por Deus para as mãos de Moisés para que o Faraó libertasse o povo israelense e reconhecesse a unicidade de Deus. As dez pragas, na ordem em que aconteceram, foram: as águas do Rio Nilo foram tingidas de sangue, rãs cobriram a terra, mosquitos atormentando homens e animais, moscas escurecendo o ar e atacando homens e animais, uma peste atingindo os animais, pústulas cobrindo homens e animais, uma chuva de granizo que destruiu as plantações, uma nuvem de gafanhotos atacando as plantações, escuridão encobrindo o sol pelo período de três dias e, finalmente, a morte dos primogênitos dos homens e dos animais.

O filme “A Colheita do Mal”, do diretor Stephen Hopkins, se passa na cidade de Haven, Estado de Louisiana; quando a professora Katherine Winter (Hilary Swank) e seu auxiliar Ben (Idris Elba) são convidados pelo professor Doug (David Morrissey, o parceiro de Sharon Stone em “Instinto Selvagem 2”) para investigar uma série de fenômenos estranhos que estão acontecendo na cidade e que estão diretamente relacionados às dez pragas bíblicas e que podem – ou não – ter sido causados por uma garotinha chamada Loren McConnell (Anna-Sophia Robb, que interpretou a menina que mascava constantemente um chiclete no filme “A Fantástica Fábrica de Chocolate”).

Uma das discussões mais freqüentes entre aqueles que se dedicam a fazer pesquisas é aquela que diz respeito à equação metodologia X fé. Talvez, esse seja um dos maiores desafios dos cientistas, pois eles preferem acreditar na explicação lógica e exata dos fenômenos que investigam, ao invés de crer numa explicação que ultrapassa os limites do ser humano. Katherine é uma dessas pessoas. No entanto, nem sempre foi assim.

Como outros personagens de filmes de terror – como o Padre Damien Karras de “O Exorcista” e Ethan Thomas, o promotor de “O Exorcismo de Emily Rose” –, Katherine perdeu a fé. A crença em Deus foi perdida quando ela ainda era uma ministra e servia em uma missão no continente africano. Foi lá que aconteceu algo que transformaria a vida dela: a morte do marido e da única filha. De uma certa maneira, a vivência em Haven também a modificará, afinal a busca por uma explicação para o que ocorre lá fará com que ela reencontre aquilo que ela havia perdido.

“A Colheita do Mal” é um filme que possui muitas qualidades. A direção de Stephen Hopkins – que retorna ao cinema depois de uma passagem bem-sucedida pela televisão, aonde dirigiu episódios do seriado “24”, a minissérie “Traffic” e o telefilme “Vida e Morte de Peter Sellers” – é muito boa. Os efeitos visuais são bem interessantes. Hilary Swank está muito bem no papel de Katherine. O roteiro do filme é que é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que cria uma trama que prende a atenção, desenha situações que ficam perdidas na ação principal (como as alucinações de Katherine). Mesmo assim, isto não é nada que prejudique o resultado final obtido pelo diretor Stephen Hopkins. “A Colheita do Mal” é um filme para ser enfrentado sem medo.

Cotação: 5,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, April 17, 2007

Caixa Dois (2007)


O prólogo do filme “Caixa Dois”, de Bruno Barreto, é bastante importante. É nele em que toda a história da película é definida. De um lado, temos os ricos – e inescrupulosos – Luiz Fernando (Fúlvio Stefanini), o dono do Banco Federal; seu fiel escudeiro, Romeiro (Cássio Gabus Mendes), um cara formado em Harvard; e Carlão (Zedu Neves), especialista em lavagem de dinheiro. De outro, temos aqueles que formam a classe trabalhadora: Roberto (Daniel Dantas), o gerente de uma das agências do Banco Federal; sua esposa Lina (Zezé Polessa), que trabalha como professora; o filho deles Henrique (Thiago Fragoso), estudante universitário; e a namorada deste, Ângela (Giovanna Antonelli), que trabalha como secretária de Luiz Fernando na sede do Banco Federal.

Todos estes personagens se verão envolvidos em uma trama engenhosa, que foi escrita por Márcio Alemão (tendo como base a peça de Juca de Oliveira). Luiz Fernando, Carlão e Romeiro estão armando um esquema para lavar 50 milhões de reais. No entanto, eles precisam de um laranja para o negócio ser concretizado sem maiores suspeitas. Ângela, que tem sonhos de ascensão social, é a pessoa perfeita para a função. No entanto, tudo dá errado quando Romeiro confunde o número da conta corrente da secretária e o dinheiro acaba caindo nas mãos de Lina, uma mulher honesta e trabalhadora, que tem a maior vontade de viver sem se preocupar com as dívidas que só fazem aumentar.

“Caixa Dois” foi uma bem-sucedida peça teatral que estreou em 1997 e ficou em cartaz por seis anos, atraindo um público de quase seis milhões de pessoas. O sucesso da peça aconteceu, pois a sua trama trata de um tema que é recorrente na realidade brasileira: a corrupção. Através de seus personagens, “Caixa Dois” revela aquilo que a gente está cansado de saber pelos jornais, tevês e revistas. Ao mesmo tempo, a trama nos mostra que a honestidade ainda está presente no meio de tanta lama.

A transição de linguagem teatral para linguagem cinematográfica foi feita de maneira competente pelo diretor Bruno Barreto e pelo roteirista Márcio Alemão. “Caixa Dois” é um filme que prende a atenção e que vai crescendo na medida em que a trama do filme vai sendo desenvolvida. Além do roteiro, o ponto alto do filme são as atuações do elenco. Fúlvio Stefanini está excelente como Luiz Fernando. Cássio Gabus Mendes retrata com perfeição os conflitos pelo qual passa Romeiro. Já Daniel Dantas, Zezé Polessa, Giovanna Antonelli e Thiago Fragoso dão um show na pele de personagens que provam que a esperteza popular às vezes vale mais do que diplomas de faculdades conceituadas.

Cotação: 8,0

Crédito Foto: E-Pipoca

Monday, April 16, 2007

Deu a Louca em Hollywood (Epic Movie, 2007)


Já virou meio que uma tradição cinematográfica de início de ano. Sempre após o término da temporada do Oscar, o ano do cinema começa, nos Estados Unidos e no Brasil, com um filme de paródia. Foi assim em outros anos com a série “Todo Mundo em Pânico” e com o filme “Uma Comédia Nada Romântica”. Pois, eis então que a dupla formada pelos diretores e roteiristas Jason Friedberg e Aaron Seltzer volta com mais um crime contra o cinema: “Deu a Louca em Hollywood”. O alvo deles, dessa vez, são os filmes épicos.

A trama principal do filme é uma união de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” com “As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”. Quatro órfãos – Edward (Kal Penn), Peter (Adam Campbell), Lucy (Jayma Mays, um cover da pior qualidade da ótima Anna Faris) e Susan (Faune A. Chambers) – ganham um bilhete premiado para viverem uma aventura épica. O local dessa aventura? A fábrica de chocolates de Willy (Crispin Glover). Os quatro jovens se assustam com a personalidade de Willy e com seu método de fazer chocolates (ele utiliza partes do corpo humano na sua receita) e, para fugir do louco empresário, entram em um guarda-roupas e se deparam com o mundo de Gnarnia. E lá, não vai ser diferente. Edward, Peter, Lucy e Susan descobrem que são parte de uma profecia que diz que quatro seres humanos, com a ajuda de Aslo (Fred Willard), vão derrubar a Vagabunda Branca (Jennifer Coolidge) do poder.

Assim como nos outros filmes de paródia da dupla Jason Friedberg e Aaron Seltzer, a platéia pode encontrar referências a vários outros filmes, como “Código da Vinci”, “Nacho Libre”, “Serpentes a Bordo”, “X-Men”, “Scarface” (!), “Missão: Impossível”, “Superman – O Retorno”, “Harry Potter”, “Piratas do Caribe”, “Borat” e “Click”. Além disso, como de costume, o filme brinca com várias personalidades da cultura pop, como Tom Hanks, Angelina Jolie, Brad Pitt, Paris Hilton, Nicole Richie, Diddy, Ashton Kutcher e Mel Gibson. Sobra até para personagens como Jack Sparrow (que vira Jack Swallows) e Mística.

“Deu a Louca em Hollywood” não é um filme feito para todo mundo. Ele é perfeito para a geração MTV, Internet, MySpace, Orkut, TiVo. Uma fatia de mercado que gosta desses filmes requentados e que representem, no mínimo, uma boa hora de diversão. Ao mesmo tempo, ao brincar com um gênero e com filmes que representam grande parte da bilheteria anual da indústria cinematográfica, “Deu a Louca em Hollywood” só revela o quanto algumas fórmulas adotadas pelas produtoras estão desgastadas. Então, se for mesmo para se divertir, que fiquemos com o título do filme. Poucas vezes, os tradutores acertaram tanto. E, se está dando a louca em Hollywood, só nos resta pedir socorro.

Cotação: 0,1

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, April 14, 2007

A Estranha Perfeita (Perfect Stranger, 2007)


A Internet meio que revolucionou a maneira pela qual as pessoas se relacionam entre si. Com a proteção de uma tela, cada um tem a identidade que quer e, principalmente, cada um revela as pequenas facetas de sua personalidade ao outro sem ter medo de sofrer julgamentos. A jornalista Rowena (Halle Berry), personagem principal do filme “A Estranha Perfeita”, do diretor James Foley (de “Confidence – O Golpe Perfeito”), faz tudo isso no mundo real.

Ela trabalha como repórter investigativa em um grande jornal de Nova York, mas, pelo bem de suas investigações, ela utiliza um pseudônimo masculino. O jornal oferece para Rowena uma baita estrutura, bem como um profissional chamado Miles (Giovanni Ribisi), uma espécie de anjo da guarda da repórter, afinal fornece para ela novos nomes e profissões, além de descobrir todo tipo de informação a respeito de seus investigados.

Depois de entrar em conflito com seu editor por causa de uma matéria que revelaria a verdadeira opção sexual de um político que lutava contra os direitos dos gays, Rowena é colocada no regime de férias forçadas. Mas, aquela curiosidade que move todo jornalista, a leva de volta ao campo de trabalho quando Grace (Nicki Aycox), uma de suas amigas de infância, aparece morta alguns dias depois de procurar Rowena para pedir que ela investigasse Harrison Hill (Bruce Willis), um poderoso empresário do ramo de Publicidade, com quem ela teve um caso virtual.

E a Rowena jornalista segue o princípio de que vale tudo para conseguir fazer a sua matéria. Ela entra no mundo das salas de bate-papo virtuais e também começa a trabalhar como estagiária na agência de Harrison. A investigação se torna ainda mais pessoal para a jornalista, quando, talvez, alguém muito próximo de Rowena também se torna suspeito do assassinato de Grace.

Ganhar uma estatueta do Oscar pode ser muito benéfico para um profissional que trabalha no cinema. No entanto, vencer um Oscar pode ser também ruim para aqueles que não souberem aproveitar as oportunidades que ele traz. Halle Berry é uma representante perfeita desse último caso. Desde que ganhou uma estatueta de Melhor Atriz, em 2002, pela sua performance em “A Última Ceia”, Berry mais errou do que acertou. “A Estranha Perfeita” é mais um equívoco para a sua carreira. O filme é deveras previsível e, parece que até mesmo o roteirista Todd Komarnicki sabe disso, pois no quarto final de “A Estranha Perfeita”, ele começa a colocar uma série de reviravoltas desnecessárias na trama, que, no lugar de melhorar, só faz complicar o resultado final obtido pelo diretor James Foley.

Cotação: 1,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Thursday, April 12, 2007

Arthur e os Minimoys (Arthur et les Minimoys / Arthur and the Invisibles, 2006)


O diretor, roteirista e produtor francês Luc Besson é considerado, por muitos, como o Steven Spielberg da França. Não sei ao certo o por quê dessa comparação, mas um fato inegável é que Besson possui uma obra cinematográfica muito diversa. Ele já mergulhou em dramas densos, como “Imensidão Azul” e “Joana D’arc”; já se aventurou pelo universo da ação em filmes como “O Quinto Elemento” e também trabalhou com as relações humanas em “O Profissional”. Agora, ele embarca no universo infantil, com a aventura fantástica “Arthur e os Minimoys”.

O filme conta a história de Arthur (Freddie Highmore), um menino de dez anos, que tem uma vida extremamente solitária. A sua única companhia é a avó (Mia Farrow), que o cria desde que seus pais o deixaram na casa dela. O passatempo predileto de Arthur é construir engenhocas experimentais, uma característica que ele herdou do avô (Ron Crawford) – que está desaparecido há três anos.

Arthur tem um verdadeiro fascínio pelas histórias que sua avó lhe conta, especialmente sobre aquelas que são protagonizadas pelos Minimoys, pequenos seres que habitam o seu jardim. O espírito aventureiro de Arthur é aguçado quando ele decide partir em busca de um tesouro na terra dos Minimoys para salvar a casa da sua família de ser tomada por um construtor inescrupuloso. A viagem de Arthur acaba sendo também importante para os Minimoys, que terão uma ajuda inestimável na sua luta contra Malthazar (dublado por David Bowie), que quer dominar as terras subterrâneas.

A trama de “Arthur e os Minimoys” faz um apanhado geral dos elementos principais de vários outros filmes. Nela, encontramos traços de “O Mágico de Oz” (no sentido de que, assim como Dorothy, Arthur passará por uma jornada de auto-conhecimento longe de casa), de “Excalibur” (o futuro governante da terra dos Minimoys será aquele (a) que conseguir retirar a espada fincada no solo); bem como referências a filmes como “Pulp Fiction – Tempo de Violência”, na excelente cena de luta que acontece na boate do excêntrico personagem dublado pelo rapper Snoop Dogg.

O grande atrativo de “Arthur e os Minimoys” é o elenco reunido por Luc Besson. Além de Freddie Highmore e Mia Farrow, que aparecem na parte live action do filme; um verdadeiro time de estrelas emprestam a sua voz à parte de animação do filme. Além dos já citados David Bowie e Snoop Dogg, podemos perceber a voz de Madonna, Jimmy Fallon, Robert de Niro, Harvey Keitel, Chazz Palminteri, Emilio Estevez, Anthony Anderson e Jason Bateman. Só deixo um aviso para os pais, cuidado com certas passagens da trama de “Arthur e os Minimoys”, que são um tanto inconvenientes para as crianças.

Cotação: 4,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Wednesday, April 11, 2007

Um Beijo a Mais (The Last Kiss, 2006)

Paul Haggis é, provavelmente, a maior revelação do cinema norte-americano nos últimos cinco anos. Os filmes que ele produz, escreve ou dirige são presenças constantes nas listas de melhores do ano ou até mesmo entre as indicações às diversas premiações. Mesmo tendo um nome cheio de credibilidade perante os cinéfilos, um de seus roteiros recentes – o do filme “Um Beijo a Mais”, dirigido pelo ator Tony Goldwyn (de quem o público brasileiro irá se lembrar como o vilão do filme “Ghost – Do Outro Lado da Vida”) – passou totalmente despercebido.

O filme é baseado na película italiana “O Último Beijo”, do diretor Gabriele Muccino (o mesmo de “À Procura da Felicidade”), e retrata um pouco da crise existencial pela qual passa o arquiteto Michael (Zach Braff, do seriado “Scrubs”). Prestes a completar 30 anos, ele se considera um cara feliz e realizado na vida profissional e pessoal – afinal, tem ao seu lado, Jenna (Jacinda Barrett), uma mulher praticamente perfeita. No entanto, quando Michael recebe a notícia de que sua namorada está grávida, ele começa a repensar a sua vida e tudo aquilo que conseguiu até agora.

Os questionamentos se tornam ainda mais freqüentes a partir do momento em que Michael percebe que todos aqueles que estão ao seu redor – os amigos Chris (Casey Affleck), Izzy (Michael Weston) e Kenny (Eric Christian Olsen); bem como seus sogros Anna (Blythe Danner) e Stephen (Tom Wilkinson) – também passam por uma crise em seus relacionamentos. Uma saída mais fácil para tudo isso acontece quando Michael conhece a jovem estudante de música Kim (Rachel Bilson, do seriado “The O.C.”), que só pensa em aproveitar o agora, sem se preocupar com o futuro.

O cinema é cheio de filmes que analisam as diversas fases complicadas pelas quais as pessoas passam em suas vidas. Mas, são poucos os filmes que analisam aquele momento crucial em que estamos diante de um instante em que é decidido se construir uma vida juntos e se dedicar a cultivar um relacionamento que pode durar uma vida toda. “Um Beijo a Mais” fala justamente sobre o preço que a felicidade tem e sobre a capacidade que temos de nos magoar, de nos sabotar quando algo nos é favorável. O filme mostra de maneira real que os momentos definidores de nossas vidas podem ser bem mais doces. A única coisa que falta em “Um Beijo a Mais” é um protagonista mais carismático. É muito difícil levar a sério um ator como Zach Braff. Ele não se encaixa no perfil de Michael.

Cotação: 6,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, April 10, 2007

300 (2007)


As aulas de História nos ensinaram que o povo espartano era muito ligado na questão da educação dos seus filhos. O Estado controlava e obrigava seus jovens a serem educados para a guerra. As primeiras cenas de “300”, filme do diretor Zack Snyder, explicam bem direitinho como isso acontecia. Desde cedo, o jovem espartano é preparado para aquilo que ele irá saber fazer melhor: guerrear. Ele é afastado da sua família e, principalmente, da sua mãe e tem inserido, dentro de si, os conceitos de responsabilidade, sacrifício e dedicação – os quais são fundamentais para aqueles que vão dar a vida pelo seu país.

Baseado na graphic novel de Frank Miller e Lynn Varley, “300” conta – através da narração de Dilios (David Wenham) – a história do exército espartano de 300 homens que, sob a liderança do Rei Leônidas (Gerard Butler), lutou contra o exército numeroso de Xerxes (Rodrigo Santoro), o poderoso governante da Pérsia.

Desde a sua estréia nos cinemas dos Estados Unidos, “300” tem estimulado diversas interpretações. Alguns afirmam que o filme tem elementos que remetem à sexualidade, ao mostrar o culto ao corpo masculino, a excessiva camaradagem que existia entre os soldados e ao fazer o retrato dos persas como sendo seres andróginos.

No entanto, talvez, a interpretação mais adequada seja aquela que coloca “300” como um ensaio sobre o tipo de política externa adotada pelo governo George W. Bush. Podemos encontrar traços do presidente norte-americano tanto no lado dos mocinhos, como no lado dos bandidos. Em alguns momentos, “300” soa até como uma peça de defesa da invasão norte-americana no Iraque, mostrando onde Bush errou (indo à guerra sem o apoio do conselho, assim como Leônidas) e onde ele acertou (lutando pela liberdade de seu povo frente a um governante tirano). A defesa se torna ainda mais evidente na cena em que a esposa do Rei Leônidas, a Rainha Gorgo (Lena Headey), se dirige ao conselho de Esparta.

“Sin City – A Cidade do Pecado” mudou a cara das adaptações de graphic novels. O filme dirigido por Robert Rodriguez e Frank Miller era calcado no forte apelo visual e no perfeito desenho de cada cena. Em “300”, Zack Snyder prova que bebeu muito na fonte de “Sin City – A Cidade do Pecado”. Seu filme é muito estilizado e visualmente tem momentos geniais – como as cenas em que o menino Leônidas mata o lobo e no confronto final entre persas e espartanos. “300” pode ser um pouco cansativo, pode pecar pelo excesso de testosterona e pelo uso de frases de efeito que são batidas (“hoje à noite, nós jantamos no inferno”), mas deixa gravado na memória dos cinéfilos algumas das cenas mais sensacionais que veremos no ano de 2007.

Cotação: 7,3

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Sunday, April 08, 2007

American Idol - Season 6

Depois de seis temporadas, o programa “American Idol” virou muito mais do que um reality show ou um concurso de talentos cuja audiência é a maior dos Estados Unidos. O programa se transformou em uma verdadeira fonte de revelação de talentos, que ultrapassam os limites da realidade e passam a ser respeitados dentre as grandes lendas. Nos últimos anos, duas ex-vencedoras do programa, Kelly Clarkson e Carrie Underwood, ganharam Grammys (o maior prêmio da indústria da música). O sucesso chega até para os perdedores, tendo em vista que Jennifer Hudson – participante da terceira temporada de “American Idol” – ganhou o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pela sua performance em “Dreamgirls – Em Busca de um Sonho”’; e, no exato momento em que esta blogueira digita estas palavras, três ex-participantes da quinta temporada do programa (Katharine McPhee, Chris Daughtry e Elliott Yamin) vêem seus discos na lista dos mais vendidos de acordo com a revista Billboard.

Na última quarta-feira, com três semanas de atraso, o canal Sony Entertainment Television levou ao ar o primeiro programa “pra valer” da sexta temporada de “American Idol”. Na ocasião, os doze participantes selecionados pelo público dentre os 24 escolhidos pelos jurados Randy Jackson, Paula Abdul e Simon Cowell, se apresentaram em um grande palco perante a audiência do mundo todo para apresentarem canções de Diana Ross, uma verdadeira lenda da música norte-americana. O primeiro programa foi só uma pequena amostra daquilo que veremos ao longo dessa temporada.

Como sempre, já dá para a gente notar a divisão de “papéis” entre os participantes. Existe aquele grupo formado pelos cantores cuja verdadeira vitória é o tanto de tempo que eles conseguem permanecer no programa (os chamados “figurantes”). São eles: Gina Glocksen, a garota rocker de atitude e piercing na língua, mas que mais grita do que canta; a carismática – e favorita dos meninos – Haley Scarnato, ex-cantora de casamentos; o pai de família Phil Stacey, que conta com o apoio da Marinha norte-americana; e o ex-backing vocal Brandon Rogers, que já trabalhou para artistas do porte de Christina Aguilera.

Existe também aqueles participantes que parecem meio deslocados em meio à competição, como Chris Sligh, o sósia de Jack Osbourne, e filho de pais missionários. Uma dupla se destaca por ser uma cópia de artistas que já se encontram no mercado: Stephanie Edwards, a garota que sempre gostou de cantar, soa muito como Beyoncé; e Chris Richardson tem o mesmo corte de cabelo, a mesma voz e a mesma chatice de Justin Timberlake.

No entanto, a sexta temporada de “American Idol” é cheia de casos únicos. Tome-se, por exemplo, Blake Lewis, um cantor razoável, mas que esbanja modernidade (sua marca é colocar beat-box nas músicas que apresenta). Um perfeito caso de participante que, talvez se dê bem no programa, mas terá muito sucesso comercial. Entretanto, jurados, produtores e nem o público do programa estavam preparados para o fenômeno que se tornaria Sanjaya Malakar. O jovem de 17 anos e carisma inegável conquistou o público jovem norte-americano não por causa de seus talentos vocais, e sim pelo seu cabelo. Semanalmente, o público liga a televisão só para ver qual o próximo penteado de Sanjaya. O caso se tornou tão impressionante que o público fiel do “American Idol” já está se irritando e boicotando a audiência do programa (que vem caindo semanalmente) tendo em vista a campanha que foi deflagrada pelo site VotefortheWorst.com e pelo radialista Howard Stern, que querem sacanear o “programa número 01 dos Estados Unidos” levando Sanjaya à vitória.

Polêmicas a parte, a sexta temporada de “American Idol” tem uma disputa até bem interessante pelo título de ídolo. O trio de ferro dessa edição vem representado por três garotas de talento e carisma impressionantes. São elas:

- Jordin Sparks, 17 anos. Filha de um ex-jogador profissional da NFL, liga de futebol americano. Jordin foi modelo e venceu a edição do “Arizona Idol”, ganhando uma passagem aérea e hospedagem para fazer o teste para o programa nacional. A jovem agrada em cheio ao público jovem, tem uma voz potente e uma maturidade impressionante para alguém de sua idade. É uma grande favorita a uma das duas vagas na final de “American Idol”.

- Lakisha Jones, 27 anos. Mãe solteira, ex-bancária e, como cantora, tem um estilo bem clássico e parece ter saído direto dos anos 50. Era a favorita inicial do programa, mas perdeu muito do seu brilho a partir do momento em que o terceiro vértice desse trio começou a crescer na preferência do público norte-americano.

- Melinda Doolittle, 29 anos. A mais velha participante dessa temporada do “American Idol”. Trabalhou como backing vocal de artistas como Michael McDonald, Aaron Neville, Jonny Lang, Vanessa Bell Armstrong e CeCe Winans. Melinda é, provavelmente, a melhor cantora que o programa já teve em todos os tempos. Sua técnica é de mestre, a maneira de entoar os versos das canções que apresenta é única. Um trunfo a favor de Melinda é a sua personalidade humilde e autêntica. Ela é a favorita disparada ao título de novo ídolo norte-americano.

De uma certa maneira, este trio de ferro lembra muito outro trio que passou na história do programa. Na terceira temporada de “American Idol”, o público foi presenteado com o talento de Fantasia Barrino (uma mãe solteira e dona de uma belíssima história de vida), LaToya London (a participante de técnica refinada) e Jennifer Hudson (a personalidade impetuosa e jovial em pessoa). As três dividiram as atenções e a preferência do público, bem como um caso polêmico naquele ano. No episódio que levou à eliminação precoce de Jennifer Hudson, as três foram as menos votadas numa semana em que tudo foi um desastre. A produção do programa disse que houve uma pane nas linhas telefônicas. Elton John acusou os norte-americanos de racismo.

Na próxima terça-feira, nos Estados Unidos, os 8 participantes restantes vão cantar músicas latinas e terão a orientação da “mentora” Jennifer Lopez. Os fãs de “American Idol” já estão temerosos de que o que aconteceu na terceira temporada se repita agora. Num ano em que as coisas mais bizarras têm acontecido, isso nem seria surpreendente. A verdadeira surpresa, afirmam os especialistas em "American Idol", seria ver Melinda Doolittle sair derrotada desse programa. Como diz o Ryan Seacrest, América, por favor, se manifeste da maneira correta.

American Idol
Quando: Quartas, às 20hs.; Quintas, às 21hs.; Sábados, às 17hs.
Onde: Sony Entertainment Television

Tuesday, March 27, 2007

Atirador (Shooter, 2007)


Em 29 de Agosto de 2005, estreou nos Estados Unidos um seriado cuja premissa era muito engenhosa. Um cara com ficha policial e com motivos de sobra para assassinar o irmão da vice-presidente dos Estados Unidos é o escolhido por uma organização internacional para ser o culpado do crime, mesmo sem tê-lo cometido. Condenado à pena de morte e sem conseguir fazer com que os outros acreditem na sua história, ele só pode contar com a ajuda do irmão mais novo, que foi o engenheiro responsável pela reforma da prisão aonde ele se encontra e que comete um crime para ficar encarcerado no mesmo presídio. No entanto, esse sacrifício entre irmãos não é o elemento mais importante de “Prison Break”, uma das séries mais bem-sucedidas do canal Fox dos Estados Unidos. O que mais chama a atenção de nós, telespectadores, é o fato de que, mesmo após fugirem do presídio, os dois irmãos ficam em uma prisão ainda maior, pois, além de viverem em fuga, eles assistem às pessoas que tentam provar a inocência do irmão mais velho serem misteriosamente assassinadas.

O roteiro de “Atirador”, filme do diretor Antoine Fuqua, foi escrito por Jonathan Lemkin com base em um livro de Stephen Hunter, mas tem muito da premissa inicial do seriado “Prison Break”. Bob Lee Swagger (Mark Walhberg, no seu primeiro filme após a indicação ao Oscar 2007 de Melhor Ator Coadjuvante) é o atirador perfeito treinado pelo exército norte-americano. Bob era colocado, ao lado do observador Donnie Fenn (Lane Garrison), nas piores missões. Numa delas, a dupla é abandonada pelos superiores em plena guerra e o resultado é a morte de Donnie e a precoce aposentadoria de Bob, que fica traumatizado com o ocorrido.

Três anos depois, Bob é o pacato morador de uma área montanhosa e sua companhia mais freqüente é o cachorro de estimação. Sua rotina é alterada quando recebe a visita do coronel Isaac Johnson (Danny Glover), que lhe revela o plano para assassinar o presidente dos Estados Unidos que foi descoberto pela CIA. Johnson precisa que Bob colabore com a agência no sentido de dizer se é possível para um atirador fazer um tiro fatal de uma certa distância. Após colaborar com a CIA, Bob vê que foi vítima de uma armadilha. Na condição de homem mais procurado dos Estados Unidos, Bob começa uma luta para provar a sua inocência.

O diretor Antoine Fuqua sempre foi conhecido pelos ótimos filmes de ação que fez, dentre os quais se destacam “Dia de Treinamento” e “Lágrimas do Sol”. Após o fracasso que foi “Rei Arthur”, o diretor reencontra o seu melhor num terreno que lhe é extremamente familiar. “Atirador” é um filme que, na maior parte do tempo, prende a atenção da platéia e que possui um excelente trabalho de concepção e execução das cenas de ação. Pode não ser um dos melhores filmes do gênero, mas, com certeza, vai satisfazer os fãs que adoram curtir um filme cheio de adrenalina.

Cotação: 6,3

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, March 20, 2007

Norbit (2007)


Para os comediantes, não existem limites na hora de fazer comédia. Eles não hesitam em transformar sua voz ou sua aparência – algumas vezes até para interpretar múltiplos personagens. Tome como exemplo os casos dos irmãos Shawn e Marlon Wayans nos filmes “As Branquelas” e “O Pequenino” e de Tyler Perry em “O Diário de uma Louca”. Eddie Murphy também está bem familiarizado com esse jeito de fazer comédia, afinal em “O Professor Aloprado” entrou na pele de três personagens e em “O Príncipe em Nova York” interpretou outros tantos.

Em “Norbit”, do diretor Brian Robbins, filme que Eddie Muprhy estrela, produz e roteiriza (ao lado de Charles Q. Murphy, Jay Sherick e David Ronn); o comediante interpreta três personagens. Norbit, o primeiro deles, é bem parecido com um dos personagens que ele interpretou em “Os Picaretas”, uma vez que é ingênuo e facilmente enganado pelos outros. Sr. Wong, o segundo deles, é o dono do orfanato/restaurante chinês em que Norbit cresceu. E Rasputia, o terceiro deles, é a esposa ciumenta de Norbit.

A trama do filme apresenta Norbit como um perfeito “loser”. Norbit tem uma aparência física distinta (óculos grandes, um cabelo afro) e foi abandonado ainda bebê pelos pais. Ele cresceu sendo humilhado pelos colegas – só teve um descanso dessas brincadeiras quando estava ao lado de Kate, uma amiga do orfanato que acabou sendo adotada por uma família; e, posteriormente, na companhia de Rasputia, a garota que o pega para ser, literalmente, a sua “bitch”.

O acontecimento mais importante de “Norbit” é a volta de Kate (Thandie Newton) à cidade aonde cresceu, pois ela acabou de vender seu negócio de moda e quer comprar o orfanato do Sr. Wong. Ao reencontrá-la, Norbit vê a oportunidade perfeita para tomar as rédeas de sua vida e, de quebra, reconquistar o seu amor de infância. Mas, para isso acontecer, Norbit tem que ter a coragem de abandonar Rasputia, de enfrentar a perseguição de seus cunhados e de estragar os planos de Deion Hughes (Cuba Gooding Jr.), o noivo oportunista de Kate.

Quando “Norbit” estreou nas salas de cinema dos Estados Unidos nas semanas que antecederam o Oscar (prêmio para o qual Eddie Murphy estava indicado pela sua performance como ator coadjuvante no filme “Dreamgirls – Em Busca de um Sonho”), a imprensa muito especulou sobre se o sucesso do filme nas bilheterias poderia prejudicar as chances de ganhar a estatueta dourada. Esta discussão era totalmente imprópria no período, pois, se tinha algo que poderia tirar o Oscar de Murphy, não era o seu histórico cinematográfico, e sim a sua conhecida atitude arrogante no meio. Antipatias à parte, o que todos esperam é que Murphy utilize a sua indicação ao Oscar para fazer projetos que sejam desafiantes, e não as mesmas comédias de sempre. Ele já provou que tem talento para isso.

Cotação: 1,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, March 17, 2007

O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, 2006)


Idi Amin Dada marcou seu nome na história como líder de uma das ditaduras mais sangrentas da história de Uganda. Assim como muitos outros governantes que acabam se perpetuando no poder nos países que formam o continente africano, Amin conquistou a liderança política de Uganda fazendo a promessa de um governo para o povo. Assim como muitos outros governantes que deixam o poder subir às suas mentes, Amin logo se esquece de suas promessas iniciais e reprisa as cenas de violência, censura e cerceamento que são tão conhecidas dos africanos. É justamente este personagem complexo, carismático e contraditório, o objeto principal do filme “O Último Rei da Escócia”, do diretor Kevin MacDonald.

A história do filme é contada pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan (o excelente James McAvoy), jovem recém-formado em Medicina, e que ainda não sabe lidar com as pressões de sua família ou com os caminhos que o seu pai julga serem os melhores a se seguir. Nicholas ainda é inocente a ponto de pensar que pode mudar o mundo, por isso ele embarca rumo à Uganda, no continente africano, aonde trabalhará em uma missão coordenada pelo médico David Merrit (Adam Kotz) e sua esposa Sarah (Gillian Anderson).

Na África, Nicholas encontra um mundo completamente diferente do que conhecia. A alegria do povo esconde, na realidade, a escassez de recursos, a pobreza, a miséria e, principalmente, a violência. O contraste é ainda maior quando – a convite do presidente Idi Amin Dada (Forest Whitaker, numa performance que lhe rendeu o Oscar 2007 de Melhor Ator) – Nicholas vai para a capital do país (Kampala), um local mais moderno e organizado. Seduzido pela confiança que é depositada nele pelo próprio Amin, Nicholas abandona o idealismo e se entrega ao sistema quando aceita ser o médico particular do presidente e de sua família, bem como o conselheiro político do ditador.

No momento em que decidiu deixar a Escócia para ir à África, Nicholas julgou estar deixando uma prisão (que era dominada pelos valores e pelas expectativas de seus pais) para ir para uma terra aonde ele poderia ser livre para aprender e aproveitar a sua juventude. Mal ele sabia que, ao aceitar trabalhar para o regime, estaria entrando em uma outra prisão. E esta nova realidade é sufocante, dolorida e decepcionante. O isolamento de Nicholas se agrava ainda mais quando ele se envolve com uma das esposas de Idi Amin Dada, a bela Kay (Kerry Washington).

O excelente roteiro de “O Último Rei da Escócia” foi baseado no livro de Giles Foden e escrito pela dupla Jeremy Brock e Peter Morgan. Este último também foi o autor do roteiro de “A Rainha”, filme do diretor Stephen Frears. Os dois filmes têm em comum o teor político. A diferença entre eles é que, em “A Rainha”, o povo tem uma maior influência na política. “O Último Rei da Escócia” dialoga mais com filmes como “Diamante de Sangue”, de Edward Zwick, e “Hotel Ruanda”, de Terry George. Nestes três filmes, o homem branco é a ponte pela qual o mundo fica conhecendo a verdadeira realidade do continente africano. Os filmes dão voz àqueles que não podem falar. O chato é saber que, provavelmente, os nossos filhos e netos continuarão a assistir filmes como estes; afinal os governos do hemisfério norte continuam a ignorar aqueles que ajudaram a construir, praticamente, todas as nações do mundo.

Cotação: 9,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, March 13, 2007

O Motoqueiro Fantasma (Ghost Rider, 2007)


Toda a trama do filme “O Motoqueiro Fantasma”, do diretor e roteirista Mark Steven Johnson, se baseia em uma lenda que afirma que o diabo possui um ajudante que ganhou o nome de motoqueiro fantasma. Esse auxiliar trabalha na terra, durante a noite, e se alimenta dos pecados das almas daqueles que fugiram do inferno. Geralmente, o motoqueiro fantasma é alguém que fez um pacto com o demônio. O trabalho que eles desempenham é só uma maneira que o diabo arrumou para coletar a sua dívida.

No filme, a bola da vez é Johnny Blaze (Matt Long quando jovem e Nicolas Cage quando adulto), que faz um show de acrobacias em motocicletas com o pai Barton Blaze (Brett Cullen). Quando descobre que o pai está com um câncer em estágio avançado, Johnny recebe a visita de Mefisto (Peter Fonda), o diabo em si, que o faz uma proposta “irrecusável”: ter a saúde do pai em troca de sua alma. Assim que o trato é feito, Johnny logo percebe que sua vida será pautada por muito sofrimento – afinal, ele perde as pessoas que mais amava: o pai (que morre ao fazer uma das acrobacias do show) e a namorada Roxanne Simpson (Raquel Alessi quando jovem e Eva Mendes quando adulta).

Quando a platéia reencontra Johnny Blaze, ele fez fama e riqueza como o mais importante astro de acrobacias em moto que o mundo conhece. E ele ainda tem uma personalidade que vai de encontro ao estereótipo do motociclista: ele é fã da música dos The Carpenters, não bebe e é um consumidor ferrenho de jujubas. Além disso, Johnny tem medo e temor de que, um dia, Mefisto venha cobrar a sua parte no trato. E o demônio aparece no pior momento – o do reencontro com Roxanne – para pedir que Johnny o ajude a se livrar de seu filho Blackheart (Wes Bentley, o sumido ator de “Beleza Americana”), que quer tomar o lugar do pai como dono das maldades humanas.

“O Motoqueiro Fantasma” é um daqueles filmes que vai fazer parte do segundo escalão de películas com heróis da Marvel Comics (“Demolidor – O Homem Sem Medo”, outro filme dirigido por Mark Steven Johnson, é um representante desse segmento mais “pobre”). A execução dada pelo diretor é muito interessante, mas o filme peca em elementos importantíssimos, como roteiro e elenco. A princípio, a história de “O Motoqueiro Fantasma” não parece ter muitas ambições, mas fica muito difícil acreditar na transformação de um homem que só queria ter a sua vida de volta em um herói que luta contra o demônio.

A platéia não acredita nesta transformação, pois o diretor Mark Steven Johnson não consegue tirar de seus atores (com exceção de Eva Mendes) interpretações convincentes. Wes Bentley e Peter Fonda estão no piloto automático e parece que tiveram seus rostos congelados. Não se sente qualquer emoção, raiva ou repúdio na interpretação deles. O mesmo é o caso de Nicolas Cage, um ator que tinha tudo para ser um dos grandes astros do cinema atual, mas que, depois do Oscar de Melhor Ator pela sua interpretação em “Despedida em Las Vegas”, mais tomou decisões erradas do que acertadas.

Cotação: 0,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies