Tuesday, November 28, 2006

Happy Feet - O Pinguim (Happy Feet, 2006)


O diretor George Miller (de filmes como “Babe – O Porquinho Atrapalhado”) fez em dez minutos, o que o diretor Luc Jacquet fez em oitenta e cinco minutos no seu ótimo documentário “A Marcha dos Pingüins”. Ou seja, Miller definiu de modo claro e objetivo um dos costumes mais importantes da vida de um pingüim: a dança do acasalamento, em que os pingüins irão escolher – através do canto – aquele (a) com quem irão passar o resto de sua vida e com quem constituirão família. Após essa dança, enquanto a mulher parte para buscar o alimento, o homem fica cuidando da cria.

Mas, logo, a platéia que está assistindo ao filme de animação “Happy Feet – O Pingüim” irá descobrir que o mundo dos pingüins imperadores não é nada perfeito. Os peixes – alimento principal da espécie - estão escassos e o nascimento de um bebê pingüim diferente irá ameaçar o equilíbrio da grande comunidade de pingüins imperadores.

Como é bem explicado no início de “Happy Feet – O Pingüim”, a etapa mais importante da vida de um pingüim acontece em decorrência do canto. Na comunidade imaginada pelos roteiristas Warren Coleman, John Collee, George Miller e Judy Morris, as crianças pingüins recebem até aulas de canto para melhor se prepararem para este momento. Quando Mano (dublado por Elijah Wood na versão original e por Daniel de Oliveira na versão nacional), filho de Memphis (dublado por Hugh Jackman na versão original) e Norma Jean (dublada por Nicole Kidman na versão original), nasce, o caos se instala na comunidade, pois, além de ser completamente desafinado (e nenhuma aula de canto dará jeito nisso), ele tem um dom único e que destoa do resto da sua comunidade: ele sabe sapatear.

Mano vai, aos poucos, se isolando dos outros habitantes da comunidade, que não aceitam o seu dom da dança; e, especialmente do seu pai, que não aceita que o filho seja diferente. Ele prefere que seu filho se transforme em algo que ele não é. Por esta razão, Mano deixa a comunidade, faz novas amizades e planeja uma volta triunfal ao lar ao decidir partir em busca da razão por trás do “desaparecimento” dos peixes e, assim, poder conquistar o respeito de todos.

“Happy Feet – O Pingüim” é um filme fantástico, na maior parte do tempo. Na meia hora final do filme, ele perde um pouco o ritmo, mas se recupera ao mostrar de maneira bem-humorada o que aconteceria se o homem decidisse consertar um pouco da sua interferência negativa na natureza. Além disso, “Happy Feet – O Pingüim” dá ênfase a um valor extremamente importante – e necessário – para os dias de hoje: a tolerância. É preciso que nós saibamos aceitar e respeitar as diferenças sempre, afinal esta é uma condição primordial também para a consolidação do amor. E é de amor que o mundo precisa.

Cotação: 9,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, November 25, 2006

Flyboys (2006)

Estamos em 1916. A I Guerra Mundial já atingiu grande parte da Europa. Nessa época, o avião era uma invenção recente, mas já havia sido transformado pelo homem em uma máquina de guerra. Os pilotos já eram um novo tipo de herói. O drama de guerra “Flyboys”, do diretor Tony Bill, conta a história de jovens norte-americanos que, sem medo de encarar o desconhecido, embarcaram para a França e se tornaram os primeiros pilotos do país no Esquadrão Lafayette – que era formado exclusivamente por pilotos.

As primeiras cenas de “Flyboys” mostram como era a vida de cada um destes jovens antes do alistamento militar. Blaine Rawlings (James Franco) havia acabado de perder o rancho da família e vai para a guerra para fugir da prisão. William Jensen (Phillip Winchester) vem de uma família de heróis de guerra e deixa a noiva para trás de forma a seguir a tradição familiar. Eugene Skinner (Abdul Salis) é um boxeador de sucesso na França e, para retribuir aquilo que o país lhe trouxe de bom, decide ir lutar por ele. Briggs Lowry (Tyler Labine) vem de uma família rica e vai à guerra para satisfazer uma vontade de seu pai.

Na base do Esquadrão Lafayette, estes jovens conhecerão outros que ali já estavam, como Reed Cassidy (Martin Henderson, numa ótima atuação), o melhor e mais experiente piloto do esquadrão; Eddie Beagle (David Ellison), que tem uma origem meio obscura; e outros que se juntarão à eles, como o religioso Lyle Porter (Michael Jibson) e o inocente Nunn (Pip Pickering); além daqueles que lhe oferecerão o treinamento - um desses instrutores é interpretado pelo ator francês Jean Reno - e que surpreendem por não serem líderes intransigentes, e sim compreensivos.

Já em terras francesas, “Flyboys” começa a acompanhar o treinamento destes pilotos e as primeiras missões que eles desempenham. E, assim como em outros filmes de guerra, mostra como a batalha irá afetar – seja de maneira positiva ou negativa – a vida desses jovens. O filme também abre espaço para um romance que nascerá entre Rawlings e a francesa Lucienne (Jennifer Decker) e nas rivalidades que surgirão entre pilotos e soldados.

Baseado em uma história real, “Flyboys” é um filme cujo único ponto positivo é a boa reconstituição de época e a excelente direção das cenas de batalhas aéreas. No entanto, o filme não consegue transpor aquela barreira que se estabelece entre filme e platéia e não consegue fazer com que esta se envolva com a sua história e torça pelos pilotos. Não ajuda também o fato de “Flyboys” ter se estendido demais e ter um protagonista apático (James Franco, um ator que já foi considerado uma promessa, mas que só tem decepcionado aqueles que apostaram nele e no talento que ele possui).

Cotação: 6,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Monday, November 20, 2006

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006)


“Existem dois tipos de pessoas: os vencedores e os perdedores”. Se formos levar tal afirmação em consideração, então todos os membros da família Hoover seriam considerados perdedores. O pai, Richard (Greg Kinnear), é um orador motivacional – e autor da frase que ilustra o início deste texto –, e que espera tirar sua família da falência ao conseguir um contrato literário. A mãe, Sheryl (Toni Collette), é a única que aparenta ter controle emocional e segura as pontas dos problemas familiares, mas, como veremos, ela está prestes a desmoronar. O filho, Dwayne (Paul Dano), fez um voto de silêncio até conseguir entrar na Academia da Força Aérea e estudar para ser piloto. A filha, Olive (Abigail Breslin), imita as misses que tanto quer ser. O avô, Edwin (Alan Arkin), é viciado em heroína. E o tio, Frank (Steve Carell), recentemente tentou se matar.

É esta família disfuncional que a trama do filme “Pequena Miss Sunshine” segue. A platéia irá acompanhar os Hoover numa viagem que eles farão a bordo de uma Kombi amarela problemática (que só pega à base de empurrões) de Albuquerque até a cidade de Redondo Beach, aonde Olive – que tirou segundo lugar no concurso de misses local – vai representar sua cidade no concurso de Little Miss Sunshine. Assim como acontece em outros road-movies, nesta viagem todos estes personagens irão passar por uma transformação e vão ter que começar a aceitar que são realmente um bando de perdedores. É essa a condição principal para que eles possam se entender e ter uma vida melhor em família.

“Pequena Miss Sunshine” é somente mais um dos filmes de Hollywood a abordar a temática do perdedor. Numa sociedade extremamente competitiva como a norte-americana, ser um perdedor, na maioria das vezes, representa ser visto de uma maneira bastante pejorativa pelos outros. No caso particular de “Pequena Miss Sunshine”, o roteiro de Michael Arndt faz exatamente o contrário e escancara a mediocridade daqueles que querem ser os vencedores – especialmente a partir do momento em que o concurso de Little Miss Sunshine começa.

O filme, que marca a estréia de Jonathan Dayton e Valerie Faris (que são conhecidos pelo trabalho que fizeram nos videoclipes de “Tonight, Tonight”, do Smashing Pumpkins, e “Californication”, do Red Hot Chili Peppers) na direção de longas-metragens, é um filme que funciona. O roteiro de Michael Arndt é excelente e as performances de todo o elenco são espetaculares – especialmente a da garotinha Abigail Breslin. Não se surpreenda se ela figurar na lista de indicadas ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2007. Desde Dakota Fanning, o cinema não via uma atriz infantil tão promissora.

Cotação: 9,8

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Monday, November 13, 2006

Fica Comigo Esta Noite (2006)


Para quem costuma acompanhar a programação televisiva do Brasil, fica até estranho notar – quando da aparição dos créditos iniciais do filme “Fica Comigo Esta Noite”, de João Falcão (também co-autor do roteiro ao lado de sua esposa Adriana Falcão e de Tatiana Maciel) – a inclusão de um “apresentando” próximo ao nome da atriz Alinne Moraes, que já tem cinco novelas e algumas participações em seriados no currículo. Mas, este é o primeiro papel de Moraes no cinema e, infelizmente, a escolha pelo filme baseado na peça homônima de Flávio de Souza e que foi um grande sucesso há cerca de dez anos, não foi das mais acertadas.

“Fica Comigo Esta Noite” explora o conceito do amor eterno, ou melhor, do que acontece quando a morte separa o destino de um casal. O músico e desenhista de histórias em quadrinhos Eduardo (Vladimir Brichta, um colaborador assíduo de João Falcão) conhece Laura (Alinne Moraes) em uma livraria. O amor que nasce entre os dois é fulminante e eles rapidamente se casam. No entanto, o casal briga por qualquer besteira. Uma coisa que Laura nota desde o início sobre Eduardo é que ele – assim como um cachorro obediente – tem a mania de se fingir de morto quando uma discussão se inicia.

No início, esta brincadeira de Eduardo tinha até o seu charme. No entanto, na medida em que o tempo passa, ela vai ficando cada vez mais sem-graça. No dia em que a tal brincadeira de se fingir de morto acontece de verdade, nem Laura e, muito menos, Eduardo irão acreditar nela. Quando Eduardo começa a perceber que realmente estava morto, ele começará a se arrepender de várias coisas – uma delas: a de não ter tido a chance de se despedir de maneira adequada de Laura. Dessa maneira, Eduardo fica vagando pelo mundo dos vivos e contará com a ajuda do Fantasma de Coração de Pedra (Gustavo Falcão, sobrinho de João Falcão) – um dos personagens dos gibis criados por Eduardo – e do anjo Mariana (interpretada quando mais jovem por Clarice Falcão – quanto membro da família Falcão neste filme, hein? – e por Laura Cardoso, na idade adulta) para conseguir se despedir de sua amada e ir desfrutar do descanso eterno que merece.

“Fica Comigo Esta Noite” tem, pelo menos, um ponto positivo: não aborda seu tema principal de maneira muito sentimentalista. No entanto, o filme tem mais erros do que acertos. A linha narrativa – que mistura o passado, com o presente e com o futuro – chega a ser muito confusa. A direção de João Falcão é burocrática. A trilha sonora de Robertinho do Recife não funciona. A produção do filme não é cuidadosa. A estética lembra a de um programa televisivo. Ou seja, “Fica Comigo Esta Noite” é igual a muitos outros filmes brasileiros que estréiam nas salas de cinema do país e que teimam em estagnar a nossa indústria cinematográfica, sem apresentar algum elemento novo e inovador, que a coloque no mesmo patamar de outras escolas latino-americanas, como, por exemplo, a Argentina – que no cinema ainda ganha de nós de goleada.

Cotação: 2,0

Crédito Foto: Yahoo! Cinema

Saturday, November 11, 2006

Os Infiltrados (The Departed, 2006)


Nos últimos anos, o diretor Martin Scorsese se dedicou a uma verdadeira obsessão sua: vencer a tão cobiçada estatueta do Oscar. Ao longo de sua aclamada carreira, Scorsese teve várias chances de realizar este sonho, mas, por uma razão ou outra, isso nunca aconteceu. Alguns dizem que seus filmes são muito controversos para o gosto da conservadora Academia. Então, Scorsese modificou o seu jeito de fazer cinema. Foi grandioso – e exagerado – no regular “Gangues de Nova York” e no ótimo “O Aviador” – filmes que nem parece que saíram de suas mãos.

Como a estratégia de se moldar ao gosto da Academia não deu certo, Martin Scorsese volta a uma temática que ele domina – a violência e como ela acaba influenciando nas vidas de grupos que se dedicam à ela – tendo ainda em mente aquele sua velha vontade. No filme “Os Infiltrados”, que é baseado na película “Conflitos Internos” (2002), Scorsese também acaba mudando de ares. Sai de sua habitual Nova York e invade os subúrbios de Boston.

O prólogo de “Os Infiltrados” é longo e necessário. Através dele, ficamos conhecendo os dois pólos opostos que vão mover a trama criada por William Monahan: Collin Sullivan (Matt Damon, ele próprio um garoto do subúrbio de Boston) e Billy Costigan (Leonardo DiCaprio, que emulou direitinho a figura de Robert de Niro, o antigo ator favorito de Scorsese). Apesar de parecer que, por causa de suas criações diferentes (Collin foi criado no subúrbio, enquanto Billy cresceu num bairro mais chique), os dois são muito diferentes, eles guardam muitas semelhanças – que ficarão ainda mais notáveis no desenvolvimento da trama de “Os Infiltrados”.

Billy e Collin são descendentes de irlandeses, inteligentes e tentam uma carreira na polícia estadual de Boston. Collin terá uma ascensão meteórica na organização (sai da Academia direto para o posto de detetive na divisão de investigações especiais da polícia). Já Billy é expulso da Academia antes mesmo de se formar policial, pois deu um soco na cara de um dos instrutores. Além disso, os dois possuem ligação com o crime organizado – Collin é o protegido do mafioso Frank Costello (Jack Nicholson, excelente na interpretação de um personagem que parece com ele mesmo) e Billy tem parentes ligados à máfia de Costello.

Conhecer estes primeiros detalhes será de fundamental importância para a platéia, pois, na trama principal de “Os Infiltrados”, Collin é designado para uma investigação que tem como objetivo descobrir quem é o informante de Frank Costello na polícia – ou seja, ele tem que investigar ele mesmo. Por outro lado, Costello manda que seu protegido descubra para ele quem é o agente da polícia infiltrado em sua organização criminosa. Esta última tarefa será particularmente difícil, pois os únicos que sabem que Billy é o policial infiltrado na gangue de Costello são Dignam (Mark Wahlberg, outro que conhece muito bem os subúrbios de Boston) e Oliver Queenan (Martin Sheen).

O grande eixo da trama de “Os Infiltrados”, com certeza, é a implicação de se viver uma vida dupla, nos casos de Collin Sullivan e Billy Costigan. Como veremos, aos poucos todas as mentiras que eles contam para se proteger e todas as barreiras que eles erguem para evitar um contato maior com outras pessoas vão tomando conta de suas vidas até chegar a um ponto em que eles não têm mais identidade própria. Isso fica ainda mais evidente quando Billy e Collin começam a se envolver com a mesma mulher, a psicóloga da polícia Madolyn (Vera Farmiga).

Desde o início de “Os Infiltrados”, a platéia tem a certeza de que nada disso vai dar certo e que, a qualquer momento, a vida dupla de Billy e Collin será descoberta. Martin Scorsese e William Monahan vão adiando essa situação até o último momento, preferindo – acertadamente – colocar ao máximo os seus infiltrados contra a parede. Essa é a grande sacada desse filme, e por isso que ele é tão bem-sucedido em colocar a platéia dentro de sua ação.

Neste sentido, é muito bom notar que a mão de diretor de Martin Scorsese não andava engessada e no piloto automático – impressão esta dada pelos seus dois últimos filmes. “Os Infiltrados” representa uma injeção
de sangue novo em sua carreira e faz totalmente jus à sua filmografia passada - em que a violência era retratada sem máscaras para enfatizar a noção de que ela era somente mais um dos elementos que fazem parte do mundo em que vivemos. A película acerta em quase tudo, especialmente no roteiro, no tom das interpretações de seu excelente elenco (que ainda conta com Ray Winstone, Anthony Anderson e Alec Baldwin, dentre outros), na trilha sonora (que possui músicas de Rolling Stones, John Lennon, Patsy Cline e Van Morrison com Roger Waters, do Pink Floyd), na fotografia de Michael Ballhaus e na edição de Thelma Schoonmaker (uma antiga colaboradora de Scorsese); e termina de maneira metafórica com a imagem de um rato e, no fundo, a Assembléia Legislativa de Boston. Em “Os Infiltrados”, os ratos receberam algum tipo de justiça, mas e quanto aos ratos do mundo real? Aqueles que teimam em continuar impunes?

Resta agora esperar para ver se, sendo fiel a si mesmo, Martin Scorsese vai realizar o seu grande sonho. Está dada a largada para a corrida pelo Oscar!

Cotação: 9,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, November 07, 2006

O Grande Truque (The Prestige, 2006)


“A platéia quer ser enganada. Eles não estão prestando a devida atenção”. Essa é a última frase do filme “O Grande Truque”, do diretor Christopher Nolan (que foi co-autor do roteiro do filme com o irmão Jonathan Nolan). Esta afirmação também poderia muito bem ser um complemento do monólogo final de Robert Angier (Hugh Jackman), no qual ele faz um longo discurso sobre o fascínio dele em subir noite após noite nos palcos para fazer o seu show de magia. A razão maior por trás de tanta obsessão era não só o olhar da platéia, mas sim a questão de fazê-los entrar em dúvida, num determinado momento, tentando imaginar se o que ela estava vendo era uma ilusão ou uma realidade.

Os dois discursos poderiam muito bem se referir ao cinema, uma arte que – de certa maneira – ilude e transporta o público para uma outra realidade. No entanto, as palavras de Robert Angier e de seu engenheiro Cutter (Michael Caine) se aplicam à magia, que ganha um status de arte no filme de Christopher Nolan. É através da mágica que a trama de “O Grande Truque” se desenrola, que os conflitos surgem e que Nolan mostra a sua mensagem e os seus dois personagens centrais – homens que tentam ultrapassar um ao outro, sem medo de enfrentar o impossível.

Robert Angier e Alfred Borden (Christian Bale) nunca foram aquilo que podemos chamar de amigos. Apesar de terem convivido juntos por boa parte de sua vida, o que se estabeleceu entre eles foi uma rivalidade nada sadia. A princípio, Borden e Angier trabalhavam como assistentes de um famoso mágico e ambos esperavam a sua chance de brilhar sozinhos em um palco. Eventualmente, os dois conseguirão essa chance. Mas, até ela chegar, o abismo, a disputa e a animosidade que existiam entre eles ficam ainda mais profundas.

Isso acontece em decorrência de várias razões. A esposa de Robert, Julia (Piper Perabo), morre em decorrência de um acidente de trabalho – que pode ou não ter sido causado intencionalmente por Alfred. Quando os dois se reencontram, depois de algum tempo, Alfred está casado e com uma filha; enquanto Robert continua sozinho. Quando Alfred se torna um mágico de sucesso, graças ao seu truque do “Homem Transportado”, Robert não hesita em gastar todo o seu dinheiro e em viajar pelo mundo para encontrar uma maneira de superar o truque do “amigo”, numa luta que não chegará ao fim, pois nenhum dos dois nunca estará satisfeito.

De acordo com Cutter, uma mágica é feita de três atos. No primeiro, que tem o nome de “a promessa”, o mágico mostra à platéia uma coisa que é comum, quando, obviamente, ela não o é. No segundo, chamado “a virada”, o mágico transforma sua coisa comum em algo extraordinário. Já no terceiro ato, que se chama “o grande truque”, a platéia presencia algo cheio de mudanças e reviravoltas, em que a vida fica por um fio, e você vê algo chocante e nunca visto antes.

O filme “O Grande Truque”, na realidade, possui todos estes três elementos; o que o faz ser considerado como uma grande mágica. As reviravoltas da trama criada por Christopher e Jonathan Nolan (com base no livro de Christopher Priest), mesmo sendo previsíveis em alguns casos, chegam a surpreender nos momentos mais importantes da trama. Por esta razão, “O Grande Truque” é um filme que merece uma segunda visita, para que as peças do quebra-cabeça montado pelos irmãos Nolan sejam encaixadas de maneira mais clara.

Este é mais um grande trabalho do diretor Christopher Nolan. Aqui, encontramos alguns elementos que são recorrentes em sua curta – e expressiva – obra. Mais uma vez, o diretor e roteirista trabalha com personagens que não têm medo de entrar em contato com seu lado obscuro e de testar os seus limites. Neste sentido, Nolan contou com a extraordinária colaboração de sua dupla de atores centrais. Hugh Jackman e Christian Bale entregam as melhores performances de sua carreira.

Além do trabalho expressivo de roteiro, direção e atuação, vale a pena prestar atenção também na direção de arte, na edição, na fotografia, na trilha sonora original e nos figurinos de “O Grande Truque”, pois eles são primorosos e muito contribuem para essa atmosfera de ilusão e realidade que predominam durante o filme. Ah, e fique de olho na pequena (e ótima) participação do cantor David Bowie como o famoso inventor Nikolas Tesla.

Cotação: 9,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Thursday, November 02, 2006

O Sacrifício (The Wicker Man, 2006)


Não é segredo nenhum para ninguém que a indústria cinematográfica hollywoodiana passa por uma grande crise. Não só em relação à audiência, como também o relacionado à filmagem de bons roteiros. A sede de Hollywood por boas histórias é tão grande, que o impossível aconteceu e eles abriram o seu mercado para diretores e roteiristas estrangeiros. No entanto, a maior praga dessa crise de roteiro são as chamadas refilmagens; e, claramente, Hollywood não tem um critério bem definido sobre quais histórias merecem uma segunda visita.

“O Sacrifício”, refilmagem de “O Homem de Palha” (filme dirigido por Robin Hardy, em 1973), pertence ao grupo de refilmagens que nem mereciam sequer serem feitas. A película conta a história do policial Edward Malus (Nicolas Cage, que também produziu o filme), que, depois de presenciar um trágico acidente envolvendo mãe e filha, decide tirar umas férias do departamento. O descanso de Edward chega ao fim quando ele recebe uma carta de Willow (Kate Beahan), sua ex-noiva, o informando do desaparecimento de sua filha Rowan (Erika-Shaye Gair). Willow quer que Edward a ajude a reencontrar sua filha.

É assim que Edward acaba embarcando para Summersisle, uma espécie de ilha privada. A localidade lembra muito à do filme “A Vila” na sua essência medieval, isolada e cooperativa. Mas, uma olhada mais profunda em Summersisle mostra que ela difere muito da vila de Shyamalan, pois ela é um território exclusivamente feminino, aonde as mulheres ocupam as posições de poder e os homens ocupam um papel submisso e desempenham exclusivamente as atividades braçais e a figura de procriador e de mantenedor da linhagem pura que se estabeleceu em Summersisle.

Esse mundo acaba sendo muito para a cabeça de Edward. O policial está obviamente sofrendo de um estresse pós-traumático devido ao acidente que presenciou no início de “O Sacrifício” e começa a se questionar se o que vive em Summersisle é verdade ou mentira; e se as pessoas que ele enfrenta e questiona são mocinhas ou bandidas.

No papel, “O Sacrifício” é até um filme interessante. Na prática, o filme peca por uma sucessão de erros. A película começa bem, com uma cena imprevisível e intrigante, mas, depois, entra numa teia sem pé nem cabeça que é uma culpa exclusiva do seu diretor e roteirista Neil LaBute (do ótimo “A Enfermeira Betty”). Não importa se “O Sacrifício” tem um bom elenco (além dos que já foram citados, aparecem no filme Ellen Burstyn, Frances Conroy, Diane Delano, Leelee Sobieski, James Franco e Jason Ritter). O máximo que eles conseguem é arrancar vários risos da platéia (quando o esperado seria o contrário). Nada poderá salvar “O Sacrifício” da sua própria mediocridade. O que nos leva de volta à discussão do início do texto: para quê revisitar aquilo que não merecia nem uma primeira olhada?

Cotação: 1,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, October 24, 2006

Cinema, Aspirinas e Urubus (Movies, Aspirin and Vultures, 2005)


Muita gente se surpreendeu quando o Ministério da Cultura anunciou o filme “Cinema, Aspirinas e Urubus”, do diretor Marcelo Gomes (que também co-escreveu o roteiro do filme ao lado de Karim Ainouz e Paulo Caldas), como o representante oficial do Brasil na tentativa de indicação ao Oscar 2007 de Melhor Filme Estrangeiro. Não porque o filme seja de má qualidade, e sim, pois ele não tinha o apoio de uma grande produtora nacional, como a Globo Filmes. A concorrência de “Cinema, Aspirinas e Urubus” à indicação foi grande e incluía filmes como “A Máquina”, “Anjos do Sol”, “Bens Confiscados”, “Cafundó”, “Depois Daquele Baile”, ”Doutores da Alegria”, “Estamira”, “Irma Vap – O Retorno”, “O Maior Amor do Mundo”, “Tapete Vermelho”, “Vida de Menina” e o que todos consideravam o favorito para a indicação, “Zuzu Angel”.

“Cinema, Aspirinas e Urubus” começa mostrando Johan (Peter Ketnath), um imigrante alemão. Ele dirige um caminhão, nos anos 40, em pleno sertão pernambucano e está aparentemente perdido no meio do nada. A princípio, nós da platéia não saberemos nada sobre ele ou sobre o que ele faz. Talvez para conseguir se direcionar no meio do sertão, Johan contrata como seu ajudante, Ranulpho (João Miguel, numa grande performance), um homem que busca uma oportunidade de crescer na vida longe do sertão pernambucano e que, por isso, não hesita em aceitar a proposta que Johan lhe faz.

O filme adota o formato de road movie para contar a história de Johan e Ranulpho rumo à cidade de Triunfo. Nessa viagem, eles entrarão em contato com as pessoas e com a cultura do sertão nordestino. Ao mesmo tempo, apresentarão um mundo novo aos habitantes das localidades que visitam, pois, em cada nova cidade que chegam, Johan (que, agora sabemos, trabalha como caixeiro viajante vendendo aspirinas) e Ranulpho armam acampamento, montam um cinema e passam um filme que mostra os benefícios que a aspirina traz aos seus consumidores. Portanto, pessoas que têm pouco dinheiro para comprar comida, acabam desperdiçando suas economias nas aspirinas de Johan. Essa viagem também marca o início de uma amizade que surge entre Johan e Ranulpho. Apesar das origens culturais diferentes, os dois têm muito em comum, afinal ambos estão fugindo de algo – Johan, de seu país natal e da guerra; Ranulpho, da fome e da miséria.

É muito cedo para dizer se “Cinema, Aspirinas e Urubus” terá chances de ser indicado ao Oscar 2007 de Melhor Filme Estrangeiro. Neste exato momento, a única certeza é a de que o grande favorito à estatueta é “Volver”, do diretor espanhol Pedro Almodóvar. No entanto, os relatos iniciais são animadores. Quem esteve presente na exibição de “Cinema, Aspirinas e Urubus” aos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas afirma que o filme foi aplaudido no final e manteve um número considerável de votantes atentos até o final da sessão. De qualquer maneira, indicado ou não, a atenção que “Cinema, Aspirinas e Urubus” vem conquistando na mídia estrangeira já é um grande prêmio.

Cotação: 7,0

Crédito Foto: Web Cine

Monday, October 23, 2006

Dois é Bom, Três é Demais (You, Me and Dupree, 2006)


Todo mundo tem um amigo (a) inconveniente, do tipo que só aparece nos momentos errados e que só fala aquilo que não deve. Dupree (Owen Wilson) é um desses amigos. E, pior: apesar de ter 36 anos, vive como um adolescente e, enquanto seus amigos amadurecem, se casam e evoluem nas carreiras profissionais, ele se mantém solteiro, em busca de aventuras e de um emprego que lhe permita manter o estilo de vida que possui – sem responsabilidade alguma.

"Dois é Bom, Três é Demais”, filme dos diretores Anthony e Joe Russo, começa quando todos os personagens do filme estão no Havaí para o casamento de Carl (Matt Dillon) e Molly (Kate Hudson). O noivo é o melhor amigo de Dupree, o qual, por sua vez, será o padrinho do casamento. Se o final de semana no Havaí marca o início de uma nova etapa na vida de Carl e Molly, o mesmo não pode ser dito a respeito de Dupree – que teve que faltar ao trabalho para viajar ao Havaí e, por isso, acabou perdendo o seu emprego, a casa e o carro. Se sentindo culpado, Carl convida Dupree para morar provisoriamente em sua casa, até que ele coloque sua vida de volta nos eixos. No entanto, o que era provisório começa a ganhar uma cara de permanente quando Dupree dá sinais de que não vai deixar tão cedo a casa dos recém-casados.

A partir do momento em que Dupree se muda para a casa de Carl e Molly, “Dois é Bom, Três é Demais” começa a ficar bastante previsível. É óbvio que a presença de Dupree na casa dos recém-casados vai afetar negativamente no relacionamento de Carl e Molly. É óbvio que essa situação só vai se agravar quando Carl começa a ser pressionado pelo sogro (Michael Douglas) que o odeia. É óbvio que Carl começará a sentir ciúmes quando notar a aproximação cada vez mais crescente entre Molly e Dupree. É óbvio que a amizade de 25 anos existente entre Carl e Dupree irá estremecer. E é óbvio que todo mundo vai acabar tendo um final feliz.

Dupree realmente é um cara irritante, imaturo e inconseqüente. Por causa disso, não existe melhor ator do que Owen Wilson – ele próprio um homem irritante e imaturo – para interpretá-lo. O roteiro de “Dois é Bom, Três é Demais”, de Mike LeSieur, foi escrito sob medida para o tipo de comédia que ele gosta de fazer. Pena que o texto do filme deixa pouco terreno para que Matt Dillon e Kate Hudson, dois atores bem melhores do que Wilson, possam brilhar.

Cotação: 3,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Sunday, October 22, 2006

O Bicho Vai Pegar (Open Season, 2006)


O urso pardo é um tipo de animal que é um dos maiores do gênero. Apesar de ele ter uma dieta variada, sua presença junto ao homem não é recomendada, pois ele é um animal de natureza solitária, mas que convive pacificamente com outras espécies quando há uma abundância de alimento. No entanto, Boog (dublado por Martin Lawrence na versão original) não é igual aos outros animais de sua espécie. Desde quando ele era um bebê, ele foi domesticado pela ambientalista Beth (dublada por Debra Messing, a Grace do seriado "Will & Grace", na versão original), que lhe deu amor, carinho e conforto; além de uma casa, uma cama confortável, comida, entre outras coisas. Em decorrência disso, Boog convive bem com os seres humanos e é a atração principal de um show de variedades.

A boa convivência de Boog com os humanos fica ameaçada quando ele conhece o cervo tagarela Elliot (dublado por Ashton Kutcher na versão original). Através deste, o urso pardo arruma uma série de encrencas na cidade aonde mora. Fatos estes que farão com que Beth tome uma decisão que vinha sendo adiada há tempos: a de devolver Boog ao seu habitat natural, a floresta.

A trama principal de “O Bicho Vai Pegar”, animação dos diretores Roger Allers, Jill Culton e Anthony Stacchi, é a que acompanha a jornada de Boog em busca do caminho de volta para a casa de Beth e tudo aquilo que ela representa para ele (o amor, a proteção, o apoio, entre outras coisas). Como em todo outro filme que retrata este mesmo tema, Boog conhecerá, no seu caminho, outros animais que lhe mostrarão um lado – até então – desconhecido para ele da vida na floresta e que envolve a cooperação e o companheirismo que existe entre os animais de diferentes espécies.

Com o passar do tempo em “O Bicho Vai Pegar”, uma segunda trama ganha destaque: a que coloca os animais da floresta em confronto com os caçadores que vão ao local em decorrência da abertura da temporada de caça. No melhor estilo “Esqueceram de Mim”, os animais preparam uma série de armadilhas inusitadas para se protegerem da fúria dos caçadores.

Como em todo outro filme de animação, “O Bicho Vai Pegar” se apóia no carisma de seus personagens principais para ganhar a simpatia da platéia. Por outro lado, é muito fácil para nós nos identificarmos com a jornada de Boog. No entanto, o filme não adiciona nenhum elemento novo a uma história que já foi contada de diversas maneiras no cinema – a mais clássica delas seria a viagem de Dorothy por um mundo mágico até voltar para a casa de seus tios no Kansas em “O Mágico de Oz”, filme do diretor Victor Fleming.

Cotação: 5,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, October 21, 2006

Um Cara Quase Perfeito (Man About Town, 2006)


Jack Giamoro (Ben Affleck, numa boa performance) – o protagonista do filme “Um Cara Quase Perfeito”, do ator, diretor e roteirista Mike Binder – tem uma postura bastante reservada. Ele procura evitar qualquer tipo de artifício que o faça revelar seus segredos ou confrontar sua vida e relacionamentos. Portanto, dá para se ter uma idéia do quão difícil deve ter sido para ele decidir participar de um curso de autoconhecimento, ministrado pelo professor Dr. Primkin (John Cleese), um senhor de atitude rude e de economia com as palavras.

A atividade principal que o Dr. Primkin propõe aos seus alunos é a seguinte: cada um deles deve escrever um diário. A cada semana, o grau de dificuldade dessa tarefa vai aumentando, pois o professor espera que seus alunos vão retirando camada por camada até descobrirem a sua real essência – aquilo que escondemos por trás de tudo que fomos acumulando no decorrer de nossa vida.

Analisando por este ponto de vista, podemos dizer que Jack é um homem formado por facetas distintas. Ele foi uma criança e um jovem que teve negado o direito a qualquer tipo de amor – com exceção daquele que ele recebia de sua mãe. Como adulto, Jack se dividiu entre duas personas: a persistente, viva e ativa do trabalho como agente de talentos especializado em administrar as carreiras de roteiristas; e a apática, distante e sem vida que estava presente nos relacionamentos que Jack estabelecia com a sua esposa Nina (Rebecca Romijn) e com o pai doente (Howard Hesseman).

É justamente ao desempenhar a tarefa que lhe foi proposta no curso de autoconhecimento que Jack fará uma grande descoberta a respeito de si mesmo. Nada do que ele fez ou conquistou lhe trouxe felicidade. Ele vai descobrir isso da pior maneira, quando começará a ser chantageado por Barbi Ling (Ling Bai), uma aspirante à roteirista, e seu namorado Jimmy Dooley (Samuel Ball), um aspirante a ator, que tiveram a sua grande chance negada por Jack; e quando Nina revela ao marido que estava tendo um caso com um de seus clientes, Phil Balow (Adam Goldberg).

Para quem estreou num filme de tom ácido e sarcástico sobre a vida familiar nos subúrbios norte-americanos (o ótimo “A Outra Face da Raiva”, com Joan Allen, Kevin Costner e grande elenco), “Um Cara Quase Perfeito” é uma nítida mudança de ares. Não é que o filme não tenha momentos engraçados (eles existem, principalmente depois que Jack sofre um ataque), mas o seu tema principal é a autodescoberta de Jack. Pena que, em alguns momentos de “Um Cara Quase Perfeito”, Mike Binder deixa o filme perder o seu foco e dispersa a atenção da platéia. O mais interessante, então, é prestar uma atenção especial naquilo que Jack aprende: não importa o tamanho do sucesso, do reconhecimento e do dinheiro que você tenha, sempre existe algo novo a aprender. Quer coisa mais batida e sincera do que isso?

Cotação: 5,5

Crédito Foto: Yahoo! Cinema

Wednesday, October 18, 2006

Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho (Hoodwinked, 2005)


Não existe criança na terra que nunca tenha ouvido falar da história da Chapeuzinho Vermelho, o conto de fadas que conta a história da garotinha que pede à mãe para ir visitar a sua vovó e acaba enfrentando um inimigo que pode ser mortal: o lobo-mau. O filme de animação “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho”, dos diretores Cory Edwards, Todd Edwards e Tony Leech toma como fonte principal, além do famoso conto de fadas, os filmes da série “Shrek”, do diretor Andrew Adamson – que fizeram sucesso em todo mundo ao brincar com as clássicas histórias infantis que nossos pais costumavam nos contar quando éramos pequenos.

O filme começa no ápice do conto, quando a Chapeuzinho Vermelho (dublada por Anne Hathaway na versão original) chega na casa de sua avó (dublada por Glenn Close na versão original) e encontra o Lobo Mau (dublado por Patrick Warburton na versão original) se passando por ela até a chegada providencial do Lenhador (dublado por James Belushi na versão original), o herói da historinha. A partir daí, “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” começa a brincar com a fábula ao apresentar seus personagens de uma maneira completamente diferente. A Chapeuzinho Vermelho, na realidade, trabalha como entregadora de doces na firma da avó. A vovozinha, quando não está fazendo doces, tem uma postura completamente hardcore e é praticante de esportes radicais, como snowboard e esqui. O Lobo Mau é um repórter investigativo que não mede esforços para conseguir uma informação. Já o Lenhador, na verdade, é um ator se passando por essa profissão – ele está fazendo uma espécie de laboratório para interpretar um lenhador em um comercial.

No entanto, a história de “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” ainda envolve uma estrutura mais complexa do que essa. No momento em que a trama começa a se desenrolar, a platéia fica sabendo que a floresta habitada pelos personagens está sendo atacada por um bandido dos doces. Em conseqüência disso, lojas e fábricas de doces foram à falência. A única empresa que continua funcionando é a da avó de Chapeuzinho Vermelho. Ao se depararem com o cenário do início do filme, os policiais responsáveis pelo caso do bandido dos doces têm quase certeza de que o marginal é um dos quatro presentes na casa da vovó. O roteiro de “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” retrata justamente a versão de cada um destes quatro personagens para de qual forma eles foram parar na casa da vovó naquele momento em particular.

Primeira produção em animação do novo estúdio dos irmãos Harvey e Bob Weinstein, a The Weinstein Company, “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” aposta numa história que já é garantia de sucesso. O filme inova somente na apresentação de seus personagens. O resto é uma repetição dos clichês dos filmes do gênero: canções pegajosas, conflitos familiares que se resolvem no final e o desfecho apoteótico com todo mundo se dando bem. “Deu a Louca na Chapeuzinho Vermelho” é uma boa diversão para as crianças e para os pais – que poderão reconhecer no filme referências à “Matrix” e “Kill Bill”.

Cotação: 5,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, October 17, 2006

O Grito 2 (The Grudge 2, 2006)


O cinema oriental virou a indústria oficial dos filmes de terror, tendo em vista que é dos países de lá que vêm as histórias e os diretores deste gênero. A razão por trás disso não é difícil de entender. A fórmula dos filmes de terror norte-americanos (que coloca atores que estão no auge da idade e da beleza para enfrentar assassinos cheios de traumas pessoais e sofrerem uma desfiguração que mais parece uma punição justamente por eles serem tão joviais e lindos) está saturada. As platéias parecem que estão mais interessadas em filmes que mostram um tipo de terror mais próximo – e é justamente isso que os filmes de terror do oriente oferecem: histórias estreladas por gente comum e que enfrentam um medo que pode vir do simples ato de se assistir um filme ou de se oferecer para trabalhar como enfermeira e cuidar de uma paciente no conforto de sua casa. Estas pessoas comuns enfrentam os assassinos representados pelas doces figuras de uma mãe e seu filho. Ou seja, nos filmes orientais, o medo está em qualquer lugar e a ameaça pode estar mais próxima do que você pensa.

Seqüência do sucesso de 2004, “O Grito 2” traz de volta a mesma equipe de diretor e roteirista do primeiro filme: Takashi Shimizu (também o diretor dos filmes japoneses) e Stephen Susco. A estrela de “O Grito”, Sarah Michelle Gellar, faz uma pequena participação especial como Karen, a estudante de intercâmbio vítima da maldição da casa. O roteiro de “O Grito 2” segue a mesma premissa do primeiro filme (quando uma pessoa morre cheia de mágoa ou raiva, se dá início a uma maldição, que acontece no local em que a pessoa morreu e que irá atingir a todos aqueles que entrarem em contato com esse lugar). A diferença é que, na seqüência, existem três tramas “principais”, ao invés de uma única.

Na primeira trama, acompanharemos a irmã mais nova de Karen, Aubrey (Amber Tamblyn, que interpretou a sobrinha de Naomi Watts que morria vítima da maldição em “O Chamado” e que ficou mais conhecida do público brasileiro como a protagonista da série “Joan of Arcadia”), quando ela viaja para o Japão para visitar a irmã que se encontra internada depois dos acontecimentos retratados em “O Grito”. Após a morte de Karen, Aubrey decide investigar o que aconteceu com a irmã – e, para isso, conta com a ajuda de um repórter chamado Eason (Edison Chen).

Na segunda trama, Vanessa (Teresa Palmer), Miyuki (Misako Uno) e Allison (Arielle Kebbel), três estudantes de um colégio norte-americano no Japão, decidem visitar a casa em que se passou os acontecimentos de “O Grito”. Depois de invadirem a casa e de fazerem uma brincadeira de extremo mau gosto, o que se segue é uma série de acontecimentos estranhos na vida das três garotas.

A terceira trama de “O Grito 2” se passa em Chicago, quando a chegada de uma misteriosa moradora faz com que acontecimentos bizarros comecem a ocorrer em um prédio residencial. A história é vista do ponto de vista de uma família que lida com os seus próprios problemas – a chegada da nova esposa (Jennifer Beals, do clássico dos anos 80 “Flashdance – Em Ritmo de Embalo”) do pai viúvo (Christopher Cousins), que enfrenta a resistência do filho mais novo (Matthew Knight).

Ao que parece, Takashi Shimizu não soube como transportar o roteiro de Stephen Susco para a grande tela. Nenhuma das três tramas tem um desenvolvimento adequado e o suspense só começa a aparecer em “O Grito 2” já nos seus momentos finais, quando o diretor resolve unir as três tramas. O problema é que a conclusão da história é muito corrida, com tudo acontecendo de maneira rápida e atropelada. “O Grito 2” é um filme extremamente pessimista e sem nenhuma possibilidade de final feliz. Pelo jeito, esta maldição nunca terá um fim; portanto é bom que os fãs deste tipo de filme esperem por mais continuações.

Cotação: 3,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Wednesday, October 11, 2006

Muito Gelo e Dois Dedos D´Água (2006)


O ator, diretor e produtor Daniel Filho, com certeza, é uma das figuras mais importantes da retomada do cinema brasileiro. À frente da Globo Filmes, Filho é o responsável pela grande maioria dos filmes nacionais que são lançados anualmente. Muitas vezes, fica a impressão de que ele é uma figura onipresente, pois supervisiona os projetos dos outros, enquanto desenvolve os seus próprios. Só em 2006, Daniel Filho lançou dois filmes: a comédia leve “Se Eu Fosse Você” e, agora, a comédia dark “Muito Gelo e Dois Dedos D´Água”.

O último filme, cujo roteiro é da dupla Alexandre Machado e Fernanda Young (os mesmos que criaram o seriado e o filme “Os Normais”), tem uma história bastante inusitada e que deixa a sensação de que poderia muito bem ser feita pela indústria cinematográfica norte-americana. Na superfície, as irmãs Suzana (Paloma Duarte) e Roberta (Mariana Ximenes) são muito diferentes. A primeira é muito vaidosa, é casada com o médico chato Francisco (Thiago Lacerda) e mãe do pequeno Thiago (Matheus Costa). Já a segunda é desprovida de qualquer vaidade, tem uma postura rebelde e está meio sem rumo na vida. No entanto, as duas irmãs compartilham algo que é muito maior do que elas: o ódio pela avó (Laura Cardoso) que, ao contrário de qualquer outra vovó, castrava qualquer naturalidade e vontade de suas netas.

“Muito Gelo e Dois Dedos D´Água” trata justamente de todos os problemas bizarros que começam a acontecer com Roberta e Suzana a partir do momento em que elas decidem seqüestrar a avó e levá-la para a casa de praia que tantas más lembranças as trazem (era lá que a avó delas fazia todo tipo de “tortura” para transformar as suas netas em algo que elas não queriam). A situação das duas irmãs parece que vai tomar um rumo complicado quando elas transformam o advogado bobalhão Renato (Ângelo Paes Leme) em seu cúmplice e quando Francisco – na sua inocência – decide ir atrás de Suzana com medo da má influência que Roberta possa ter nela.

“Muito Gelo e Dois Dedos D´Água” é um filme surpreendente de diversas maneiras. O filme tem um estilo de humor sarcástico que nunca imaginaríamos que caísse nas mãos de um diretor “conservador” como Daniel Filho. Nesse sentido, “Muito Gelo e Dois Dedos D´Água” representa um passo à frente se compararmos este trabalho com o seu anterior – tendo em vista que Daniel Filho apresenta soluções criativas, como o uso de animações nas seqüências que retratam os traumas de colégio e de infância de Roberta e de Renato. Mas, principalmente, o filme marca o amadurecimento de Mariana Ximenes como atriz. Que ela não tem medo de se entregar aos seus personagens, isso a gente já sabia; mas, na TV, muitas vezes, as performances de Mariana soam artificiais e irritantes. Com Roberta, ela finalmente encontra um tom certo e entrega a melhor performance de sua carreira.

Cotação: 6,0

Crédito Foto: Yahoo! Cinema

Saturday, October 07, 2006

Dália Negra (The Black Dahlia, 2006)


Um dos gêneros clássicos da idade de ouro de Hollywood foi o noir – que alcançou o seu ápice nos anos 40, com filmes como “A Relíquia Macabra”, de John Huston; e cuja figura marcante do ator Humphrey Bogart serviu como a face oficial dos detetives que tinham a ambigüidade como princípio maior de vida e de carreira. O filme “Dália Negra”, do diretor Brian de Palma, tenta recriar o universo desses filmes usando como base o livro de James Ellroy (autor de outro noir recente, “Los Angeles Cidade Proibida”, de Curtis Hanson).

O trailer de “Dália Negra” vendeu o filme como sendo o relato da história da investigação do assassinato de Elizabeth Short (Mia Kirshner, do seriado “The L Word”, que vai ao ar no Brasil pela Warner Channel), uma das muitas aspirantes à estrela que viviam em Hollywood. Na época em que o crime ocorreu, o caso mexeu com a imprensa e causou comoção popular. No entanto, “Dália Negra” se prende mais aos efeitos da investigação deste crime na vida de dois detetives de homicídios.

O mais velho deles, Lee Blanchard (Aaron Eckhart), ou Mr. Fire (a sua alcunha nos ringues de boxe), é um sujeito passional, que não hesitará em fazer o que for necessário para conseguir o que quer e cumprir o seu papel – seja como boxeador, detetive ou marido. O mais novo deles, Dwight “Bucky” Bleichert (Josh Hartnett), ou Mr. Ice (o apelido que ele usava nos ringues de boxe), é um cara mais racional e analítico, do tipo que mede bem os seus passos antes de agir.

“Dália Negra” retrata todo o conflito que vai existir entre eles dois no decorrer da investigação do assassinato de Elizabeth Short. O conflito deles irá ultrapassar os limites do ringue (os dois irão lutar para conseguir mais benefícios para os policiais) e chegará até o trabalho deles e, mais tarde, vai abranger também o lado pessoal, quando os dois começarão a brigar pela atenção – e pelo amor – de uma mesma mulher, Kay Lake (Scarlett Johansson).

Lee e Bucky serão, portanto, os veículos perfeitos para que a platéia possa perceber todos os conflitos clássicos dos filmes noir: a lei X o arbítrio, a inocência X a corrupção, o mundo selvagem X o mundo primitivo. Todos os personagens de “Dália Negra” têm características ambíguas e podem ser bons ou maus, mocinhos ou vilões (às vezes eles são tudo isso ao mesmo tempo). No final, um deles tem que tomar iniciativa e sair de sua passividade – e é essa a grande transformação que a investigação do assassinato de Elizabeth Short vai trazer para um dos detetives.

"Dália Negra” é um filme muito bom do ponto de vista estético. A fotografia de Vilmos Zsigmond é boa (o filme não é em preto e branco, como a maioria dos clássicos noir, mas consegue criar – com a ajuda da trilha de Mark Isham – um acentuado clima de suspense). A direção de arte (o design da produção ficou a cargo de Dante Ferretti, o colaborador habitual de Martin Scorsese) e os figurinos de Jenny Beavan reconstroem com perfeição uma época. O único problema de “Dália Negra” é o roteiro de Josh Friedman. Algumas cenas do filme eram dispensáveis e acabam prejudicando o andamento da película – o que deixa a impressão, em certos momentos, de que “Dália Negra” é um filme lento.

Cotação: 6,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, October 03, 2006

Minha Super Ex-Namorada (My Super Ex-Girlfriend, 2006)


Normalmente, o cinema retrata os super-heróis em filme densos e que, apesar de possuírem alguns momentos divertidos, sempre mostram os heróis como seres extremamente divididos e angustiados entre a persona que têm para o público em geral e a personalidade que assumem para aqueles a quem realmente ama. O conflito maior que estes heróis assumem, geralmente, é o de ter que esconder sua verdadeira condição de amigos, parentes e amores. “Minha Super Ex-Namorada”, filme do diretor Ivan Reitman, quer retratar um lado mais bem-humorado do herói, quando ele não tem que abdicar de sua felicidade.

Assim como muitos outros heróis que conhecemos, a G-Girl (Uma Thurman) passa os seus dias atenta a tudo aquilo que está acontecendo à sua volta e pronta para resolver qualquer emergência. Ela possui um nome (Jenny Johnson) e um trabalho (assistente do curador de uma galeria) para o resto do mundo. No entanto, uma característica importante a difere dos outros heróis: Jenny busca a sua felicidade e tem namoros como se fosse um ser humano qualquer.

Jenny acha que encontrou o amor verdadeiro na pessoa de Matt Saunders (Luke Wilson), um arquiteto que já sofreu muito nas mãos das mulheres. Ela abre sua vida e sua verdadeira identidade para ele. Entretanto, Matt não tem tanta certeza de que Jenny é o seu grande amor. A desconfiança vira uma certeza quando ele chega à conclusão de que Jenny é ciumenta, carente e pegajosa – por quê nós mulheres sempre acabamos retratadas assim em filmes?

“Minha Super Ex-Namorada” é um filme engraçado enquanto explora a dinâmica do relacionamento entre um homem comum e uma mulher com superpoderes. No entanto, o filme acaba caindo para um lado desagradável quando o relacionamento entre Jenny e Matt acaba e ela se transforma em uma ex-namorada obsessiva do tipo que vai fazer de tudo para evitar que Matt reencontre o amor e a felicidade – de novo, não custa perguntar: por quê nós mulheres sempre acabamos retratadas assim em filmes?

Apesar de ser dirigido com segurança por Ivan Reitman, o pior elemento de “Minha Super Ex-Namorada” – junto com o roteiro de Don Payne – acaba sendo o elenco do filme. Luke Wilson não tem carisma, talento ou pinta de galã. Chega a ser constrangedor ter que assistir – em certos momentos – uma atriz do porte de Uma Thurman fazendo cenas imbecis. O filme ainda sofre o preço de colocar de escanteio o talento de dois excelentes comediantes: Eddie Izzard (que interpreta o Professor Bedlam, o maior vilão da G-Girl) e Anna Faris (que interpreta Hannah Lewis, a colega de trabalho de Matt e por quem Jenny sente enormes ciúmes). Isso parece ser comum na carreira de Faris, o que nos faz pensar: quando será que ela vai ter um papel da altura de seu talento?

Cotação: 3,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Monday, October 02, 2006

A Casa do Lago (The Lake House, 2006)


Existem quatro elementos que dão suporte à narrativa – seja ela literária ou cinematográfica: o tempo, o espaço, o narrador e o personagem. Desses elementos, dois são muito importantes: o tempo e o espaço. A narrativa cinematográfica provou que esses dois elementos são inseparáveis. É justamente a relação entre o tempo e o espaço que será o eixo principal do filme “A Casa do Lago”, do diretor argentino Alejandro Agresti.

O roteiro criado por David Auburn se passa em dois momentos distintos. Em 2004, o arquiteto Alex Wyler (Keanu Reeves) compra uma casa no lago (a qual possui uma arquitetura arrojada e moderna, que contrasta muito bem com a quietude do local onde está localizada). A residência foi construída pelo pai dele (Christopher Plummer), com quem Alex tem uma relação bastante delicada, em homenagem à sua esposa (e mãe de Alex). Já em 2006, a médica Kate Forster (Sandra Bullock) se muda para Chicago depois de passar um tempo morando na casa do lago. A residência, para Kate, representa a segurança e o conforto longe do mundo que ela encontra na sua profissão, a qual a impede de ter uma vida pessoal e de se aproximar das pessoas que querem lhe oferecer amor e proteção.

O tempo e o espaço na história de “A Casa do Lago” se fundem a partir do momento em que Alex e Kate começam a se corresponder. Essa troca de cartas permite aos dois se conhecerem melhor e fazem com que eles se apaixonem. Por mais que seja impossível a história de amor deles acontecer (afinal, eles estão separados por um período de dois anos), é notável que a conexão que se estabelece entre Kate e Alex é única, do tipo que só acontece uma vez na vida da gente.

“A Casa do Lago” dialoga muitas vezes com a linguagem literária – que faz muito bem o jogo entre o tempo e o espaço. Em muitos momentos, fica a sensação de que o roteiro criado por David Auburn com base no roteiro do filme “Il Mare” ficaria melhor num livro. A história desenvolvida por Auburn envolve a platéia (graças também à boa química que existe entre Keanu Reeves e Sandra Bullock), mas o roteiro tem sérios problemas de construção. O tempo todo a platéia tem quase a certeza de que o desfecho de “A Casa do Lago” será um; mas a partir do momento em que o roteirista permite que seus personagens possam influir no tempo e no espaço de forma a ficarem juntos, o filme começa a se perder. Em conseqüência disso, o final de “A Casa do Lago” soa forçado e nada natural.

Cotação: 4,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, September 30, 2006

As Torres Gêmeas (World Trade Center, 2006)


Numa das – poucas – passagens bonitas do filme “A Dama na Água”, do diretor e roteirista M. Night Shyamalan, a ninfa Story (Bryce Dallas Howard) afirma que os seres humanos pensam que estão sozinhos no mundo até que existem acontecimentos que nos unem de uma forma irreversível. Os atentados terroristas de 11 de Setembro foram um desses acontecimentos. Neste dia, o mundo todo parou em frente à televisão para acompanhar o passo a passo de algo que todos achavam ser impossível acontecer e para o qual ninguém estava preparado – inclusive as autoridades norte-americanas.

O que se sucedeu neste dia em particular ainda é um assunto muito doloroso para muitas pessoas, especialmente para os norte-americanos. Aos poucos, foram surgindo livros e programas de TV que mostravam os bastidores dos atos terroristas. Cinco anos depois chegou a vez de Hollywood explorar o tema a seu modo. Nos dois filmes lançados sobre o tema – “Vôo United 93”, de Paul Greengrass, e “As Torres Gêmeas”, de Oliver Stone –, o foco estão nos heróis – naqueles que foram “altruístas” a ponto de se sacrificarem em prol de um bem maior (evitar a morte de mais pessoas inocentes) ou naqueles que viram o bem no meio de tanto mal.

“As Torres Gêmeas” joga o olhar sob a cidade de Nova York e os seus heróis – até aquele dia – anônimos (os policiais). As primeiras cenas do filme retratam os policiais enquanto eles deixam as suas famílias e partem rumo a mais um dia de trabalho como outro qualquer – em que o ponto mais “arriscado” seria a expulsão de algum mendigo de algum local. Logo o chão começa a tremer e, com o mínimo de informações possíveis, os policiais da autoridade portuária partem para o World Trade Center – local onde o Sargento John McLoughlin (Nicolas Cage) reúne a equipe formada por Will Jimeno (Michael Pena, o chaveiro de “Crash – No Limite”), Antonio Rodrigues (Armando Riesco), Dominick Pezzulo (Jay Hernandez), Christopher Amoroso (Jon Bernthal) e Giraldi (Danny Nucci) para entrar na torre cinco do World Trade Center e resgatar o máximo possível de pessoas.

O diretor Oliver Stone opta por não mostrar nenhuma cena dos aviões se chocando com a torre – afinal, esta imagem já está completamente solidificada em nossa mente. Para ele – e para nós da platéia – o momento mais chocante (e novo) será acompanhar o desespero que se instala naqueles que estavam na torre quando os dois prédios que formavam o World Trade Center começam a colapsar. Outro elemento importante – e poderoso – da narrativa de “As Torres Gêmeas” começa a acontecer a partir do momento em que passamos a seguir o desespero de Allison (Maggie Gyllenhaal) e Donna (Maria Bello), as esposas de Jimeno e McLoughlin (os únicos da equipe de policiais a sobreviver), que estão em busca de notícias dos dois.

O 11 de Setembro não é o primeiro acontecimento histórico dos Estados Unidos a ser retratado em filme pelo diretor Oliver Stone. Ele já abordou o Vietnã (nos filme “Platoon” e “Nascido em 4 de Julho”) e o assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy (no filme “JFK – A Pergunta que Não Quer Calar”) e sempre apresentou as suas teorias conspiratórias sobre tais temas. Stone surpreende com “As Torres Gêmeas”, pois optou por contar de forma direta e sem floreios sua história (o roteiro de Andrea Berloff foi desenvolvido com base nos depoimentos daqueles que estiveram presentes nas duas torres no dia 11 de Setembro). No único momento em que ele é Oliver Stone (na cena em que Will Jimeno vê Jesus Cristo), a situação soa manipuladora e destoa do trabalho que ele acaba construindo em “As Torres Gêmeas”.

Mais do que contar a história de dois sobreviventes, “As Torres Gêmeas” retrata metaforicamente como uma cidade pode mudar devido a um único acontecimento. E não foi só Nova York que mudou a partir do dia 11 de Setembro de 2001. O mundo todo se transformou e não foi mais o mesmo desde aquele fatídico dia.

Cotação: 9,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, September 26, 2006

Obrigado por Fumar (Thank You For Smoking, 2005)


Não existe indústria mais massacrada do que a do cigarro. Em relação a este assunto, a maioria das pessoas adota a posição única de condenar o vício em cigarros, por causa dos males que este produto faz à saúde. De uns tempos para cá, a situação ficou tão crítica que até mesmo aqueles que fumam assumem o vício, mas com uma posição envergonhada frente ao olhar de reprovação dos outros do tipo “fumo, mas estou tentando parar”.

Entretanto, existe ainda um outro lado – o da própria indústria de cigarros – que defende que o vício é uma atitude cool. Afinal, atores famosos e idolatrados no mundo todo fumam. Modelos que representam todo um ideal de vida glamuroso fumam. Músicos, cantores que são mundialmente famosos fumam. É ao fazer uso desse tipo de imagem – e ao atingir um público jovem que tem todo o potencial de mercado – que a indústria do cigarro mantém a sua sobrevivência.

Nick Naylor (Aaron Eckhart, numa performance inspirada) – o personagem principal do filme “Obrigado por Fumar”, do diretor e roteirista Jason Reitman (filho do cineasta Ivan Reitman) – teria, então, o trabalho mais ingrato do mundo: ele é o porta-voz oficial e o vice-presidente da Academia de Estudos do Tabaco (que é sustentada pela indústria de cigarros e, como o próprio nome já diz, estuda os efeitos do cigarro no homem para a indústria poder se defender da melhor maneira das acusações que são desferidas contra ela diariamente). Por ofício, Nick faz uma peregrinação quase religiosa por todos os meios de comunicação tentando convencer as pessoas do inconcebível: fumar faz bem à saúde.

Nós da platéia podemos pensar que, por fazer o que faz, Nick é um homem sem caráter. Pelo contrário, ele possui princípios morais, mas é flexível em relação a eles quando está trabalhando. Ele tem uma verdadeira vocação para aquilo que faz: é cara de pau, competente, tem carisma e sabe argumentar. Por outro lado, o mesmo bombardeio que a indústria do tabaco sofre é vivenciado por Nick em sua vida pessoal. Ele é divorciado (sua esposa não perde a oportunidade de criticar o seu trabalho), tem um relacionamento distante com o filho Joey (Cameron Bright, de “Reencarnação”) e seus amigos mais próximos são Polly Bailey (Maria Bello), a porta-voz oficial da indústria do álcool, e Bobby Jay Bliss (David Koechner), o porta-voz oficial da indústria das armas – o grupo se autodenomina de “Os Mercadores da Morte”.

Na trama que é desenvolvida no decorrer de “Obrigado por Fumar”, a platéia assiste Nick no momento em que ele tenta estabelecer um relacionamento mais próximo com seu filho Joey. Ele passa a levar o menino nos seus compromissos de trabalho. É a partir do contato que se inicia entre os dois e dos questionamentos que o filho começa a fazer a respeito da profissão do pai que Nick começa a perceber que sua profissão tem uma importância maior do que ele imaginava. Após dar uma entrevista bombástica sobre os bastidores da indústria do tabaco para a repórter Heather Holloway (Katie Holmes) e ser convocado para prestar depoimento em uma audiência pública no Congresso (que quer adicionar o rótulo de veneno às embalagens de cigarro), Nick tem que tomar uma decisão: ou segue no caminho que já está ou parte para novos vôos.

O diretor e roteirista Jason Reitman coloca um olhar irônico não só na vida de Nick Naylor, como também na realidade da indústria do tabaco e nos métodos que eles se utilizam para vender seu produto (sobra, como sempre, para a própria indústria cinematográfica, que é bem alfinetada por Reitman). O eixo maior de sua trama não é essa crítica, e sim tentar desvendar qual a importância do trabalho de Nick. A questão é jogada justamente para nós da platéia: se todos nós temos informações suficientes sobre os cigarros, os males que o vício causa para a nossa saúde; por quê precisamos dos Nick Naylors da vida? A resposta para essa pergunta é que eles existem justamente para colocar pimenta nesse jogo doido que é a vida da gente e nesse monte de teorias com as quais a gente entra em contato e julga como indefectíveis.

Cotação: 6,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Monday, September 25, 2006

O Pequenino (Little Man, 2006)


A família Wayans está presente – com sucesso – em diversos ramos do entretenimento. Keenan Ivory Wayans (uma espécie de mentor da família) foi um dos criadores do lendário programa televisivo “In Living Colour” (que revelou o talento de Jennifer Lopez, na época uma dançarina), que contava com seu irmão Damon Wayans no elenco – posteriormente, Damon ficaria conhecido com o seriado “My Wife and Kids”. Já Marlon e Shawn Wayans (os astros de cinema da família) foram responsáveis pelo retorno do gênero da paródia com os sucessos “Todo Mundo em Pânico” e “Todo Mundo em Pânico 2”. Para Marlon e Shawn, não existe limite na hora de fazer comédia. Depois de se vestirem como patricinhas em “As Branquelas”, Shawn agora empresta o rosto para um anão em “O Pequenino”, filme dirigido por Keenan Ivory Wayans.

O filme conta a história de Calvin “Bebezão” Sims (Shawn Wayans), um ladrão de postura firme e que coloca qualquer um no seu devido lugar. O fato de ele ser anão ajuda Calvin a desempenhar de melhor maneira o seu serviço, pois faz com que ele sempre passe despercebido. É assim que ele, depois de sair da prisão, consegue roubar um diamante valioso. Na fuga da joalheria, Calvin e seu parceiro Percy (Tracy Morgan, que fez parte do elenco do “Saturday Night Live”) quase são pegos pela polícia. Para despistar os guardas, Calvin acaba colocando o diamante na bolsa de Vanessa (Kerry Washington, de “Ray”). Quando o chefão do crime Sr. Walken (Chazz Palminteri) entra no encalço de Calvin e de Percy, o primeiro tem uma idéia brilhante: fingir ser um bebê abandonado – Vanessa e seu marido Darryl (Marlon Wayans) estão naquele ponto importante de um casamento: o de decidir se este é o momento certo para ter o primeiro filho – e recuperar o diamante que está escondido na bolsa de Vanessa.

É justamente quando Calvin se transforma num bebê de tamanho e desenvolvimento incomum e passa a viver o cotidiano do casal Darryl e Vanessa que “O Pequenino” entra num rumo já bem conhecido daqueles que tiveram a oportunidade de assistir a algum dos filmes dos irmãos Wayans. Entre uma e outra piada grosseira e de mau gosto, são inseridos momentos delicados que mostram que o bandidão Calvin tem coração.

Em comparação com “As Branquelas” – um filme bobo, porém divertidíssimo e com algumas cenas inesquecíveis -, “O Pequenino” é um retrocesso. O roteiro do filme (que foi escrito por Keenan Ivory, Marlon e Shawn Wayans) não convence, pois é cheio de furos (o roubo do diamante está sendo super noticiado na TV, mas nem Vanessa, nem Darryl, nem os amigos deles e nem mesmo os policiais que participam de uma das cenas do filme chegam a reconhecer Calvin). A impressão que se tem é a de que os irmãos Wayans querem ocupar o espaço deixado pelos irmãos Bobby e Peter Farrelly desde que eles decidiram fazer filmes mais “adultos”. Os Wayans querem ser agora os reis do politicamente incorreto, mas acabam indo sempre parar na vulgaridade.

Cotação: 2,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies