Saturday, August 05, 2006

Zuzu Angel (2006)


Atualmente, a moda brasileira (bem como as nossas modelos) vivem um momento especial, de reconhecimento e interesse internacional. Entretanto, esta não foi a primeira vez que esse fenômeno foi notado. Em 1971, a estilista mineira radicada no Rio de Janeiro Zuzu Angel projetou a moda brasileira pelo mundo afora, quando as suas coleções alcançaram sucesso em cidades como Nova York.

A cinebiografia “Zuzu Angel”, do diretor Sergio Rezende (que também co-escreveu o roteiro do filme ao lado de Marcos Bernstein), não retrata este momento em particular da vida da estilista Zuzu Angel, e sim a luta da mãe Zuzu Angel na busca pelo corpo de seu filho Stuart Edgard Angel Jones (Daniel de Oliveira), um militante político em plena época da ditadura militar no Brasil, e que foi preso, torturado e assassinado pelos agentes do Centro de Informações da Aeronáutica – sendo, posteriormente, declarado como desaparecido político.

A ditadura militar não é um território desconhecido pelo diretor Sergio Rezende – tendo em vista que ela já foi tema de um de seus filmes, “Lamarca”, de 1994 (Paulo Betti, inclusive, que interpretou o guerrilheiro neste filme faz uma pequena participação em “Zuzu Angel”). Por esta razão, Rezende toma a decisão acertada de, em “Zuzu Angel”, enfocar somente a batalha pessoal de Zuzu Angel. Tal batalha moveu autoridades políticas nacionais e internacionais e afetou profundamente a vida pessoal e profissional da estilista. Zuzu sempre foi ciente das atividades políticas de seu filho Stuart, mas, assim como a maioria dos brasileiros no período da ditadura militar, ela preferia se manter à margem de tudo o que estava acontecendo. Se o Brasil vivia um período político obscuro, as roupas criadas por Zuzu Angel retratavam as belezas naturais e a vivacidade do país. É somente após o desaparecimento de Stuart que Zuzu acorda para a situação confusa e caótica vivida no Brasil e passa a se manifestar naquilo que ela sabia fazer de melhor: suas roupas, que passam a estampar figuras inocentes, mas que, ao mesmo tempo, contestavam o momento político do país.

“Zuzu Angel” é um filme que tem um eixo emocional muito bem definido e ele é representado pela figura da atriz Patrícia Pillar, que está presente em quase todas as cenas do filme e, em conseqüência disso, interage com quase todos os (excelentes) atores que participam da trama (como Luana Piovani, Alexandre Borges, Othon Bastos, Leandra Leal, Regiane Alves, Ângela Vieira, Ângela Leal, Flávio Bauraqui, Nélson Dantas, Fernanda de Freitas, Antônio Pitanga, Aramis Trindade, Caio Junqueira, dentre outros). Poder interpretar Zuzu Angel – uma personagem difícil, pois sua trajetória de vida é cheia de facetas e de nuances – é a oportunidade da vida de Pillar, que é acostumada a ser uma coadjuvante de luxo nos seus trabalhos na televisão. E a atuação que ela proporciona é, literalmente, de entrega emocional e, se já não era difícil se identificar com a cruzada pessoal de Zuzu Angel, fica ainda mais complicado não se envolver com tudo aquilo que a estilista passou depois de vê-la pelos olhos de Patrícia Pillar.

O filme “Zuzu Angel” se transforma numa importante peça histórica para nos lembrar de que houve um tempo em que as pessoas eram perseguidas simplesmente por defenderem os ideais nos quais acreditavam. A luta de Zuzu Angel foi igual à de muitas outras mães que também perderam os seus filhos nos porões da ditadura militar brasileira; a diferença é que Zuzu tinha os meios – e os contatos – disponíveis para conseguir ser ouvida. É triste perceber que gente como ela e Stuart tiveram que morrer para que nós tivéssemos o direito de nos expressar livremente e defendermos aquilo que achamos ser o mais correto. Nossas crenças são uma arma poderosa e, em ano de eleições, é bom que nós as sigamos para termos um país justo e, quem sabe, mais digno – fazendo com que a luta de Stuart, Zuzu e tantos outros não tenha sido em vão.

Cotação: 9,6

Crédito Foto: Yahoo! Cinema

11 comments:

Kamila said...

Queria fazer um parêntese no meu texto para destacar a ótima trilha sonora de "Zuzu Angel", que faz uma releitura de músicas da época. Dêem uma atenção especial para a linda voz de Roberta Sá na canção "Dê um Role", que ela divide com Pedro Luís e a Parede nos créditos iniciais do filme; e para a belíssima canção "Angélica", que Chico Buarque compôs especialmente para Zuzu Angel um ano depois de sua morte. Vale a pena ficar até os fins do crédito só para escutar o Chico cantando.

Bob Harris said...

To esperando por esse filme faz tempo, pretendo ver semana que vem, se já tiver estreado aqui.
É a maior nota que tu já deu pra um filme aqui no blog (acho), espero que seja bom mas prefiro não criar tantas expectativas, apesar de eu já estar com algumas.

Felipe said...

Valeu Kamila, verei essa semana e volto aqui p comentar o q achei tb. Como disse o cara acima, foi a maior nota q vc deu pra 1 filme (eu acho) entao, deve ser mt bom mesmo. Bjs!

Kamila said...

Vocês dois estão certos. A nota que eu dei para "Zuzu Angel" foi a maior que eu dei por aqui. Mas o filme realmente merece. Não deixem se levar pelas expectativas, assistam ao filme com calma. Não quero que vocês se decepcionem depois.

Romeika said...

Oi Kamila, que notão vc deu, deve ser muito bom o filme, eu vou vê-lo, sim.. Vc gostou da Luana Piovani como a Elke Maravilha? (ela está entre esses 'excelentes atores' que vc mencionou??)
O filme parece ser bem emocionante, espero que não seja como Olga, que mais parece um novelão (só vc mesmo gostou de Olga hehehe)
;*
Romeika

Kamila said...

"Zuzu Angel' não é um novelão. É um bom filme, com ótimas performances. Eu, particularmente, não sou fã de Luana Piovani, mas ela não compromete no filme (ao contrário do que disseram alguns críticos). É claro que ela faz uma Elke Maravilha menos espalhafatosa do que a verdadeira, mas eu gostei do trabalho dela - e do trabalho do elenco como um todo.

Romeika said...

Ahh.sei. Porque eu li por aí que a performance da Luana beirava o constrangedor.. Mas a maioria dos críticos são mal-humorados mesmo.. As críticas que li sobre o filme, no geral, foram boas, a média das notas (em estrelas), são de *** e tal.. Mas a única resenha apaixonada que li até agora foi a sua. Bom, tenho que ver antes pra depois julgar o filme e as atuações.. Ouvi dizer que a Patrícia Pillar está excelente como a estilista.

Kamila said...

Patrícia Pillar está excelente mesmo. Se entregou de tal maneira ao papel que a gente nem se lembra que é ela que está ali no filme o tempo todo. Uma grande performance, uma das melhores que vi de atrizes neste ano - até agora.

FeliPeixe said...

Assisti! Excelente mesmo o filme, e a performance de Pillar então, nem se fala... Há momentos mt bonitos mesmo. Só achei muito corrida a passagem da morte dela, parecia assim que já queriam acabar o filme e pronto. Bjs!

FeliPeixe said...

Ah! A trilha é mt linda mesmo. Nao reconheceria a voz de Roberta Sá no início se fosse nao tivesse falado.

Kamila said...

Ah, eu não achei que a sequência da morte da Zuzu foi corrida não. Tudo foi muito bem feito. O final foi simples e deu o senso de conclusão que a história dela precisava.