Friday, February 09, 2007

A Rainha (The Queen, 2006)


Na era da televisão, o nosso imaginário é povoado por imagens da Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, que ascendeu ao posto em 06 de Fevereiro de 1952, aos 26 anos, logo após a morte de seu pai, o Rei George VI – quem quiser conhecer um pouco mais da história que levou George ao trono inglês, pode conferir o telefilme “Wallis e Edward”, que retrata o romance entre o Rei Edward VIII e a norte-americana Wallis Simpson, e de que maneira Edward preferiu o amor ao poder. De qualquer maneira, nenhuma câmera penetrou na alma e na mente da Rainha Elizabeth II como a do diretor inglês Stephen Frears no filme “A Rainha”.

O excelente roteiro do filme, que foi escrito por Peter Morgan (também co-autor do roteiro de “O Último Rei da Escócia”), retrata o que aconteceu na Inglaterra e, principalmente, nos bastidores do poder na semana seguinte à morte da princesa Diana em um acidente de carro, em Paris, no dia 31 de agosto de 1997. O contexto histórico do filme reflete um momento de mudança na Inglaterra, com a recente eleição do primeiro-ministro Tony Blair (o primeiro trabalhista da história a ser eleito para o cargo e que é interpretado no filme de maneira soberba por Michael Sheen, que foi injustamente esquecido pela Academia) pelo povo britânico.

O filme deixa de ser uma simples recriação de um momento da história para ser uma obra especial ao vermos a maneira pela qual Peter Morgan optou por contar a sua história. Por mais que ele tenha colhido depoimentos de pessoas que estiveram presentes nos bastidores daqueles dias, Morgan coloca sua própria interpretação sobre o fato e mergulha na mente, nos valores e nas convicções da Rainha Elizabeth II. A Rainha nos é apresentada como uma mulher altiva, forte e que preza muito a tradição. Tony Blair, ao contrário, é visto como um homem prático, moderno e muito mais preparado para o show que vem inevitavelmente ao lado do poder.

Todos sabemos que a família real britânica tinha seus problemas com Diana. A morte dela traz à tona toda a admiração que o povo britânico tinha por aquela que seria a sua futura rainha. A família real – a Rainha Elizabeth II (Helen Mirren), o Príncipe Philip (James Cromwell), a Rainha Mãe (Sylvia Sims) e o Príncipe Charles (Alex Jennings) – não consegue compreender isso. Cabe à Rainha Elizabeth II tentar entender os anseios do povo por um funeral público da Princesa e por fazer com que a família real demonstre o luto que está sentindo.

E é aqui que entra a interpretação já antológica de Dame Helen Mirren como Elizabeth II. Não é só a transformação física. São os gestos, o tom de voz, a postura. Mirren transpõe aquela barreira que poucos atores ultrapassam - na tela, não existe a pessoa Helen, e sim sua personagem. Como platéia, estamos entregues à Rainha. Na sua performance, Mirren nos mostra a mulher privada, em contraste com a imagem pública que conhecemos. Na visão da atriz, a Rainha Elizabeth II é uma mulher que entende o significado da palavra sacrifício (ela viu, afinal, a II Guerra Mundial e testemunhou o que o exercício do poder causou no seu pai) e que vê o desempenho do poder como algo que tem que ser feito na esfera privada – primeiro, para ser de valor ao legado de sua família e, em segundo lugar, para ser respeitada pelo seu povo.

A Rainha Elizabeth II de Mirren é uma mulher que se recusa a ceder àquilo que ela não acredita – e, principalmente, declina em aceitar a orientação de alguém (Blair) que, na cabeça dela, ainda não sabe que é o verdadeiro exercício de poder. Depois de muita reflexão, de algumas cenas fantásticas (como a conversa telefônica entre ela e Blair sobre qual a maneira correta de se vivenciar o luto e a que mostra a visão do veado pela solitária Rainha), Elizabeth II realiza a vontade do povo – e isso só acontece quando ela vê que o legado, o bom nome da família real e o regime monárquico em si podem sair prejudicados.

“A Rainha” é um filme muito simples e que não chama muito a atenção pelos seus elementos estéticos. Mas, a experiência de se assistir ao filme é única, não só pelas interpretações de Helen Mirren e Michael Sheen, como também pela direção de Stephen Frears e pelas palavras de Peter Morgan. O filme é especial, pois tem uma linda mensagem num tempo em que tanta gente está desiludida com os rumos políticos que o mundo toma. Através da análise do que aconteceu na Inglaterra após a morte da Princesa Diana, “A Rainha” mostra o verdadeiro poder que uma única ação pode ter para mudar o curso da história. Sem protestos ou uso de violência, o povo conseguiu com que a política, por um único momento, atendesse aos anseios populares. Além disso, o filme faz com que a figura da Rainha Elizabeth II, aquela senhora simpática que costumamos ver em rituais estritos ou como personagem principal de esquetes humorísticas, se torne objeto de admiração pela mulher que ela é. Nesse sentido, todas as reverências vão para Helen Mirren.

Cotação: 10,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

25 comments:

Túlio Moreira said...

Kamila, acho que é o primeiro dez que vejo você dar. Pelo menos depois que comecei a acompanhar o teu blog, ainda não tinha visto. Ainda acho que A Rainha corre por fora e pode surpreender no Oscar. Vou ler sua resenha na quarta, quando assistirei ao filme.

Você sabia que a idéia original do roteirista era mostrar a repercussão da morte de Lady Diana em diferentes personagens, famosos e anônimos? Foi de Stephen Frears (The Hit, Sammy e Rose) a idéia de focar apenas na Rainha e no primeiro-ministro. Achei cool.

Grande beijo!

Kamila said...

É o meu primeiro dez, sim, Túlio. O filme merece. É uma obra especial. Uma experiência realmente única de cinema.

Não sabia dessa informação que você me deu. O Stephen Frears estava certo. Focar a história da Rainha e em Blair torna o filme poderoso.

Beijo para você e bom final de semana!

Museu do Cinema said...

Hei Kamila, que legal que vc já viu A Rainha, tá reclamando de barriga cheia hein...

Kamila said...

No que diz respeito à cinema, sempre reclamarei de barriga cheia, Cassiano! Nós, cinéfilos, nunca estaremos satisfeitos. :-)

Otavio Almeida said...

Belo texto, Kamila! O filme é 10 mesmo!! Mas não sei se deveríamos menosprezar a força do filme nesse Oscar imprevisível.

Bjs, e bom final de semana!

Túlio Moreira said...

Stephen Frears foi responsável pela melhor atuação feminina que já vi na minha vida – Glenn Close em Ligações Perigosas. Com Helen Mirren, parece que conseguiu repetir o feito – tirar o máximo de proveito do talento de uma atriz. Kamila, sua nota me fez mudar de idéia: vou assistir A Rainha amanhã.

Bjo e bom fds!

Museu do Cinema said...

Ah Túlio, o Stephen Frears é um grande diretor, talvez o melhor inglês da atualidade.

Victor Nassar said...

o filme estreou hoje aque na minha cidade, acho que amanhã estarei no cinema acompanhando já!
Gosto da história do filme...mas to indo muito com pé atrás...hehe


Beju

Kamila said...

Otávio, espero que nós tenhamos agradáveis surpresas em relação a este filme no Oscar.

Túlio, o Frears é um grande diretor de atrizes. Michelle Pfeiffer, Glenn Close, Anjelica Huston, Annette Bening, Judi Dench e, agora, Helen Mirren conseguiram indicações ao Oscar ao trabalharem com ele. O cara sabe trazer o que de melhor suas atrizes têm e ainda é humilde. O Frears disse que a Mirren tem todos os méritos pela performance como Elizabeth II, pois ela compôs a personagem sem sua orientação.

Victor, pode assistir "A Rainha" com tranquilidade, porque o filme vale muito a pena.

Túlio said...

Kamila,

que bom que você não citou Julia Roberts. Tudo bem que ela é uma das melhores atrizes de Hollywood, mas aquela parceria dela com o Frears poderia ser apagada da história do cinema.

Beijo :)

Kamila said...

Túlio, "O Segredo de Mary Reilly", realmente, é um filme terrível. Somente uma das tentativas frustradas da Julia de ganhar seu primeiro Oscar antes de "Erin Brockovich".

Beijo.

Túlio Moreira said...

Kamila, mas até que foi engraçado ver Glenn Close e John Malkovich trocando cartas de novo, hehehehehhee..

bjo!

Kamila said...

Isso é verdade, Túlio. :-)

Beijo.

Túlio Moreira said...

Kamila,

eu não costumo dar notas aos filmes que vejo. Talvez porque nunca consiga expressar com um número o que eu achei do filme. Mas te digo que se eu tivesse esse costume, com certeza daria 10 também a esse A Rainha. Perfeito do início ao fim. A forma como a imprensa vai de "inimigo" - a morte de Diana - a "herói" - instrumento de Blair para a reconciliação do povo com sua rainha - só mostra o quanto Frears é genial.

Beijo.

Kamila said...

Túlio, eu também odeio dar notas aos filmes que assisto, mas, de alguma maneira, consegui criar um sisteminha para transformar aquilo que sinto em relação a um filme em número.

"A Rainha" realmente é um filme perfeito. Um belo tratado mesmo sobre temas como tradição e modernismo, exercer o poder de forma pública ou privada e sobre como você bem lembrou o papel da imprensa.

Um perfeito caso de que ter um roteiro perfeito, um bom diretor e excelentes atores ainda é a boa receita para se fazer um excelente filme.

Beijo.

Túlio Moreira said...

Kamila, muito obrigado por seu comentário lá no CK. E como eu te respondi lá, "essa é a receita que nunca vai sair de moda no cinema".

Beijo e ótimo domingo!

(Ah, acredita que teve uma hora no filme que eu pensei ter visto a Glória Maria do Fantástico? Estranho né, mas essa foi a minha impressão...)

Kamila said...

De nada, Túlio! :-)

Eu juro que não vi nenhuma pessoa parecida com a Glória Maria no filme, mas, como tem muita imagem de arquivo no filme, quem sabe essa sua impressão não é realidade.

Túlio Moreira said...

Pode ser, hehehehehehe... às vezes a repórter do Fantástico tava fazendo a cobertura... eu era bem pequeno na época e não lembro direito. Mas, aliás, outro atrativo do filme são essas imagens de arquivo. Stephen Frears as coloca nos momentos certos.. (Muito bom Helen Mirren assistindo uma reprise de entrevista de Diana pela tv).

Alex Gonçalves said...

Pelo visto, o esforço de Helen Mirren em interpretar a Rainha Elizabeth II é notório. Segundo a própria atriz, este foi o papel do qual teve a maior dificuldade de incorporar em toda a sua carreira. Boa resenha, e o seu dez foi muito curioso, para mim, que não deixarei de forma alguma esse filme sair dos cinemas sem ao menos o vê-lo.

Túlio Moreira said...

Alex, eu comparo a performance dela como a de uma Bette Davis em A Malvada ou Glenn Close em Ligações Perigosas: a atriz "some" por detrás do personagem. É incrível. O mundo vai acordar (ainda) mais maluco caso aquele Oscar não vá pras mãos de Mrs. Mirren.

Abs!

Kamila said...

Faço minhas as palavras do Túlio para você, Alex. :-)

Museu do Cinema said...

Olha Kamila, eu acho que muito da interpretação de um ator se deve ao diretor.

Uma cena em particular no filme demonstra isso, é quando a Rainha chora ao ver o veado. O diretor a pega por trás, talvez um ângulo mais favoravel naquela cena.

Kamila said...

Concordo com sua afirmação, Cassiano. A interpretação de um ator vem, claro, do trabalho de composição de personagem que ele faz e das orientações do diretor no set de filmagem.

Na minha opinião, a cena mais bonita de "A Rainha" é justamente esta que você citou.

Peixe said...

Sem muitos comentários: vale a nota que você deu. Muito bom.

Beijos!

Kamila said...

Que bom, Felipe, que você gostou desse filme.

Beijos!