Wednesday, October 24, 2007

Saneamento Básico - O Filme (2007)

Praticar arte no Brasil é muito difícil. Fazer cinema, então, nem se fala. Para os cineastas, não basta seguir a idéia romântica de “idéia na cabeça e uma câmera na mão”. A partir do momento em que se tem o roteiro, se tem início a uma verdadeira jornada em busca de financiamento (na maior parte, estatal, com complementos de patrocínios privados). Muitas vezes, até chegar à grande tela, o processo de se completar um filme pode levar até cinco anos, por exemplo. “Saneamento Básico – O Filme”, do diretor e roteirista Jorge Furtado, faz uma crítica a todo essa dificuldade que é imposta àqueles que tentam estabelecer uma indústria cinematográfica no Brasil.

Cansados de esperar que a Prefeitura local faça uma obra de construção de uma fossa na cidade aonde moram – o rio da localidade exala um cheiro terrível –, moradores de uma comunidade gaúcha de descendentes de imigrantes italianos resolvem apelar para uma saída esperta e tipicamente brasileira. Seguindo a sugestão de uma funcionária da sub-prefeitura, a comissão de habitantes formada pelo casal Marina (Fernanda Torres) e Joaquim (Wagner Moura) decide conseguir a verba para a construção de outra forma: ao usar os 10 mil reais que serão destinados ao projeto vencedor para fazer um filme de ficção de teor educativo.

A grande graça do filme é ter que assistir a este grupo de habitantes, que não tem a mínima noção de linguagem cinematográfica ou da dificuldade que é criar um roteiro, conseguir patrocínio (como o dinheiro do financiamento estatal será totalmente destinado à obra, para manter a farsa eles precisarão de um patrocínio externo), entre outras coisas, tentando colocar a idéia deles em prática. O filme que eles criam – e que possui papel tão importante na narrativa quanto qualquer outro personagem de “Saneamento Básico – O Filme” – e que se chama “O Monstro do Fosso”, segue Silene (Camila Pitanga) e seu namorado Fabrício (Bruno Garcia) em uma noite tenebrosa no rio da comunidade, na qual eles serão atormentados pelo monstro interpretado por Joaquim.

“Saneamento Básico – O Filme” é uma comédia que tem várias críticas sutis. A primeira delas é à burocracia que a comissão enfrenta para poder ver seu projeto ser qualificado como o vencedor do concurso. A segunda é aos políticos oportunistas que investem, no caso do filme, em obras necessárias ao bem-estar da população ou em projetos culturais somente no momento em que for conveniente para eles. Jorge Furtado cria um dos filmes mais engraçados – e irônicos – do ano, em que brilha o seu ótimo elenco – além dos atores já citados, passam na tela atores como Paulo José, Lázaro Ramos, Tonico Pereira, Lúcio Mauro Filho, dentre outros.

Cotação: 6,5

Saneamento Básico, O Filme (Saneamento Básico, O Filme, Brasil, 2007)
Diretor(es):
Jorge Furtado
Roteirista(s): Jorge Furtado
Elenco: Marcelo Aquino, Irene Brietzke, Felipe De Paula, Bruno Garcia, Paulo José, Sérgio Lulkin, Janaína Kremer, Wagner Moura, Margarida Leoni Peixoto, Tonico Pereira, Camila Pitanga, Sandra Possani, Lázaro Ramos, Fernanda Torres, Milene Zardo

15 comments:

Museu do Cinema said...

Então o filme é bom Kamila?

Eu, sinceramente, não gostei muito da história, parece uma Bruxa de Blair com cerebro, mas de qualquer forma, e como vc disse no texto, fica a crítica, que é extremamente bem vinda.

Romeika said...

Interessante a produção desse filme, e gostei desse lado da crítica sutil que se objetiva fazer. Alguns nomes do elenco (que eu conheço) são muito bons atores, acho que o filme deve valer a pena, não?

Vulgo Dudu said...

Eu não gostei do filme. Achei fraquíssimo para o que Jorge Furtado é capaz de realizar. Ficou com cara de especial de fim de ano da Globo...

Otavio Almeida said...

Kamila, não vi esse filme ainda.

Te respondi no post abaixo... e já postei a crítica de DESEJO E REPARAÇÃO. Depois, vamos conversar sobre o livro (que eu não li).

Bjs!

Matheus Pannebecker said...

Eu gostei desse filme, apesar de ser o mais fraco do Jorge Furtado. Me diverti horrores com a história, mas o filme deixa a desejar bastante no roteiro. Porém, o afiado elenco (minha favorita é Fernanda Torres, perfeita!), compensa essas falhas.
NOTA: 7.0

Kamila said...

Cassiano e Romeika, o filme é bom. Não é o melhor do Jorge Furtado, mas o elenco, especialmente a Fernanda Torres, diverte bastante.

Dudu, não acho que o filme ficou com cara de especial de final de ano, mas concordo que o Jorge Furtado pode fazer um filme melhor que este.

Matheus, concordo plenamente com seu comentário.

Ramon Scheidemantel said...

Grande post, Kamila.
Não vi o filme, mas fiquei ansioso. Essas burocracias são mesmo um grande problema. Porém, ainda acho que uma "indústria" cinematográfica não deve depender do governo. O capital privado não deveria investir nessa arte, e em todas as outras, somente no caso de receber desconto no imposto. Acho que falta, no Brasil, um Jerry Bruckheimer ou alguma Weistein Company. Gente que faça cinema por dinheiro.
Pelo contrário do que a maioria pensa, não acho que o cinema se tornaria comercial demais. Tropa de Elite é ume exemplo de sucesso comercial com alto nível de qualidade artística.
Porque no Brasil tudo que depende do governo não dá certo. A não ser, é claro, a corrupção.

Vinícius P. said...

Quero muito ver esse filme, gosto bastante dos outros trabalhos do Jorge Furtado - além do excelente "O Homem que Copiava", também merecem destaque "Houve uma Vez Dois Verões" e "Meu Tio Matou um Cara". Geralmente gosto desse tipo de comédia crítica e o elenco também é ótimo - Wagner Moura, Camila Pitanga, Fernanda Torres...

Abraço!

Gustavo said...

Quero muito assistir esse filme, kamila, estou bastante curioso.

o elenco é ótimo e jorge furtado raramente decepciona. já chegou em dvd?

Kamila said...

Ramon, mas o problema é que a indústria cinematográfica daqui depende desse financiamento público. Um sistema antigo e que será muito difícil de ser mudado. E "Tropa de Elite", mesmo com produção de grande estúdio (a Universal) conta com financiamento estatal.

Vinícius, o filme não é o melhor do Jorge Furtado. Mas, com certeza, diverte bastante.

Gustavo, ainda não chegou em DVD. Está passando nas salas de cinema.

Jen (MahaloFashion.Com) said...

that looks like a good movie!

Ramon Scheidemantel said...

Kamila, poucas salas de cinema no Brasil optam em deixar os filmes nacionais por um bom tempo em cartaz. Em algumas salas eles nem entram. Além disso, o povo brasileiro quando resolve ir ao cinema acaba optando por grandes blockbusters e filmes hollywoodianos.
Sei que o Tropa de Elite teve investimento através da lei de incentivo à cultura, o que digo é que quando o cinema daqui começar a gerar lucro as coisas vão mudar!

Kamila said...

Jen, it is a fun movie. With a lot of critics.

Ramon, concordo. Quando o cinema brasileiro começar a ser sucesso mesmo de público, talvez, a situação mude e a gente consiga experimentar mais. Sair desse trivial de sempre.

Wanderley Teixeira said...

Gostei muito de Saneamento Básico justamente pela forma com que os personagens descobrem suas funções em um set de filmagens.Furtado fez de maneira divertida uma homenagem ao processo de se fazer filmes, acompanhando passo-a-passo a sensação e a transformação que o cinema faz na vida das pessoas.Gostei muito desse filme e olha que não sou fã dos trabalhos do Furtado como O Homem que copiava.

Anonymous said...

Adorei o filme!! Realmente, a crítica latente é sobre a dificuldade de se fazer cinema no Brasil, poder e política. Interessante o relacionamento entre os personagens que tem como cenário uma pequena vila. Os desejos, medos, descobertas...espetacular e muito inteligente!!

Fernanda N.M.