Thursday, November 01, 2007

Baixio das Bestas (2007)

Em uma das primeiras cenas do filme “Baixio das Bestas”, do diretor Cláudio Assis, dois senhores idosos conversam sobre um programa de televisão que assistiram. Eles estavam espantados com a maneira promíscua como as mulheres se apresentavam e acreditavam que faltava para elas um “homem de peia”, alguém que colocasse as rédeas nos momentos certos. Este é o retrato perfeito da comunidade aonde o filme se passa, a qual vive em meio a costumes retrógrados e decadentes, aonde os homens tratam as mulheres de maneira bastante humilhante.

Para apresentar o roteiro de Hilton Lacerda, o diretor Cláudio Assis utiliza um recurso narrativo que foi visto recentemente no filme “Cão Sem Dono”, de Beto Brant e Renato Ciasca. São vários segmentos dentro de um único filme. Existe uma parte que acompanha os dois amigos Cícero (Caio Blat) e Everardo (Matheus Nachtergaele), que passam o dia bebendo, arrumando encrenca e abusando das prostitutas da região – as quais são representadas pelo trio Marcélia Cartaxo, Hermylla Guedes (de “O Céu de Suely”) e Dira Paes (do seriado “A Diarista”). E temos uma outra que acompanha a vida na localidade descrita no primeiro parágrafo, em especial a de um senhor idoso que mora com a neta Auxiliadora (Mariah Teixeira) e que, nas horas vagas da menina, faz com que ela se exponha no posto de gasolina para atrair a atenção de caminhoneiros dispostos a pagar uma boa nota para somente passar a mão na jovem. No meio disso tudo, temos Maninho (Irandhir Santos), que, para a desgraça do senhor idoso, decide construir uma fossa no quintal dele, expondo toda essa comunidade à podridão humana que, antes, ficava escondida entre quatro paredes.

O diretor Cláudio Assis (que fez “Amarelo Manga”) é um exemplar do tipo que acredita que, no cinema, se pode tudo. Em “Baixio das Bestas”, o diretor abusa da exposição do corpo nu para mostrar que, de uma certa forma, todas aquelas pessoas são somente o reflexo de um choque cultural e do contraste entre o que é considerado moral ou imoral. O tempo todo o diretor brinca com a chegada do futuro. Para os da comunidade descritas no início do texto, o progresso vem da usina que poderá se instalar por lá. Para pessoas como a jovem Auxiliadora, o futuro é ainda mais difícil e representado pelo fato de que ela é a mina de ouro para “cabras safados" como o seu avô e os dois amigos Cícero e Everardo. O problema é que, infelizmente, todas essas boas idéias ficam perdidas dentro de um filme de caráter puramente experimental.

Cotação: 3,8

Baixio das Bestas (Baixio das Bestas, Brasil, 2007)
Diretor(es): Cláudio Assis
Roteirista(s): Hilton Lacerda
Elenco: Caio Blat, Conceição Camaroti, Marcélia Cartaxo, Hermila Guedes, Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Fernando Teixeira, Samuel Vieira, Mariah Teixeira, João Ferreira

11 comments:

Romeika said...

Kamila, ao ler os dois primeiros parágrafos (nem tinha visto a nota) imaginei que esse poderia ser um bom filme. A premissa é boa e interessante, e o elenco é muito bom (gosto do Nachtergaele e da Dira Paes). Mas, é ruim assim mesmo? Não vi os trabalhos anteriores desse diretor, parece que "Amarelo Manga" foi até elogiado..? Bom feriado amanhã!

Kamila said...

Romeika, não é que seja ruim. O filme tem uma proposta boa. Mostra situações de violência. Mostra a podridão. Mas, termina, assim, sem dizer quase nada. A impressão que a gente tem é a de que tinha muita história para ser contada.

Obrigada!

Vulgo Dudu said...

Olha, eu curto muito "Amarelo Manga", muito mesmo! "Baixio das bestas" não tive a oportunidade de ver nos cinemas, mas os meus chegados tem falado bem. Mesmo assim, eu tenho um pé atrás com o Claudio Assis. Assim que o vir, volto aqui pra comentar!

Bjs.

Johnny Strangelove said...

esse é um filme que estou louco para ver ... quanto mais cru e mais proximo da realidade melhor ...
posso até entender a sua nota baixa ... mas tudo bem ...
abraços

Luciano Lima said...

Gostei de Baixio das Bestas, Kamila. Mas não foi tanto e isso justamente por ser o Claudio Assis. Gosto muito o trabalho dele como diretor. Ele sabe usar bem os recursos que tem. Mas esse discurso de que o cinema foi feito para chocar e incomodar chega a ser ridículo nas proporções que ele impõe.

Vinícius P. said...

Esse filme dividiu opiniões mesmo. O Wanderley, por exemplo, deu 5 estrelas. Pelas críticas negativas que já li (incluindo a sua), posso perceber que os maiores méritos do filme estão na parte técnica, já que as idéias não foram expostas de forma adequada pelo diretor - o Assis tem esse estilo mesmo... Espero conferir em breve.

Abraço!

Museu do Cinema said...

Oi Kamila, tô querendo ver esse filme, por curiosidade, mas pelo seu texto parece que o filme padece de roteiro né?

Rafael Carvalho said...

Vc não sabe Kamila como quero ver esse filme, muita gente gostou e muita gente odiou. Tô bastante curioso pra saber o resultado. E vai acontecer aqui na minha cidad euma Mostra de filmes brasleiros do qual Baixio das Bestas será exibido. Aguardo ansiosamente.

Kamila said...

Dudu, eu não assisti "Amarelo Manga" e acho que nem vou fazer isso depois de assistir "Baixio das Bestas".

João, mas aí é que está o fato: "Baixio das Bestas" não está nada próximo da realidade. O filme se perde nessa intenção de querer chocar, de causar impacto nas pessoas.

Luciano, concordo plenamente com seu comentário.

Vinícius, o melhor mesmo do filme é a parte técnica.

Cassiano, padece um pouco. Como eu disse para a Romeika, a impressão que eu tive foi a de que ainda tinha muita história para contar.

Rafael, assista ao filme e, depois, espero seu comentário.

Bom final de semana a todos!

Wanderley Teixeira said...

Baixio das Bestas foi um filme q dividiu opiniões.Eu particularmente enxerguei no filme uma clara e eficaz(por meio do choque das cenas?) crítica ao tratamento da mulher na sociedade.Bom, aquela cena com a personagem da Dira Paes é uma das mais fortes q já vi, e olha q ele só se utiliza das sombras dos personagens.Flando nela , Dira Paes e Caio Blat tem desempenhos louváveis.Gosto bastante desse trabalho do Assis.

Kamila said...

A cena da Dira Paes é fortíssima mesmo, Wanderley. Mas, acho que dá para a gente questionar a vontade do Cláudio Assis de nos chocar. Ao querer fazer isso, ele pode causar o efeito contrário: repulsa ao filme dele.

Gostei muito do senhor idoso, o avô da Auxiliadora e das atuações do Caio Blat e da Dira Paes, que é muito boa atriz.