Monday, November 12, 2007

Lendo - Canto dos Malditos

“Basta entrarmos numa ala proibida, onde permanecem confinados e escondidos dos olhos dessa sociedade de normais as vítimas do desleixo profissional, para ver que experiências e abusos indiscriminados causam ao ser humano! Crime não é apenas matar o nosso semelhante. É também deixá-lo inútil, matando sua iniciativa e vontade própria, transformando-o numa besta humana” (Austregésilo Carrano Bueno)

Década de 70. Curitiba. Um grupo de jovens estudantes vive alheio ao regime Militar e se reúne em uma loja de revelação de fotografias para viverem noites de sexo, drogas e rock ‘n roll. Um desses jovens é Austregésilo Carrano Bueno, filho de classe média de uma família curitibana, dono de uma cabeleira e de uma beleza que chamavam a atenção. Carrano cresceu em um lar de pais que não dialogavam com ele e é justamente esta falta de diálogo que o levará a passar pela experiência que modificará a sua vida: uma internação em um hospício, após seu pai descobrir o vício do filho em maconha, para que ele pudesse se livrar das drogas.

“Canto dos Malditos”, livro que ele mesmo escreveu, relata as lembranças de Carrano sobre os mais de três anos em que ficou internado em hospitais psiquiátricos do Paraná e do Rio de Janeiro. Através de suas memórias, o autor denuncia a realidade dos manicômios brasileiros, dos psiquiatras nacionais, que, ao invés de tratarem os pacientes, os entopem de remédios, os deixando completamente paralisados e incapazes de fazer atividades essenciais do dia-a-dia, como as necessidades básicas, por exemplo. Além disso, Carrano revela a experiência mais traumática pela qual passou nos anos de internação: 21 aplicações de eletrochoque, cujos efeitos até hoje ele sente em sua saúde.

O livro escrito por Carrano foi adaptado para o cinema, em 2001, num filme chamado “Bicho de Sete Cabeças”, da diretora Laís Bodansky e do roteirista Luiz Bolognesi. Na época, o filme ficou conhecido como o ponto da virada na carreira do ator Rodrigo Santoro, que conquistou vários prêmios pela sua interpretação de Neto e viu a possibilidade de fazer uma carreira como ator de cinema internacional em Hollywood. No entanto, o filme de Bodansky serve mesmo como um complemento à obra de Carrano. Se o livro “Canto dos Malditos” tem um tom de desabafo, de ódio mesmo de uma pessoa que não consegue perdoar aqueles que tanto prejudicaram sua vida, sua juventude e as oportunidades que ele tinha para crescer naquele momento; o filme “Bicho de Sete Cabeças” aborda tudo isso através de um distanciamento necessário do roteirista e diretor em relação ao personagem Neto. É ele que tem a missão mais difícil: a de contar a história de Carrano, a de fazer com que a denúncia dele seja vista e tenha penetração usando essa capacidade que o cinema tem de atingir a muitas pessoas. E a história que é contada tanto por livro, quanto por filme é uma daquelas que tem que ser conhecida para causar as mudanças que são tão necessárias em nosso país.

Canto dos Malditos (2001)
Autor:
Austregésilo Carrano Bueno
Editora: Rocco

Bicho de Sete Cabeças (Bicho de Sete Cabeças, Brasil, 2001)
Diretor(es):
Laís Bodanzky
Roteirista(s): Luiz Bolognesi
Elenco: Rodrigo Santoro, Othon Bastos, Cássia Kiss, Daniela Nefussi, Jairo Mattos, Altair Lima, Lineu Dias, Caco Ciocler, Gero Camilo, Marcos Cesana, Luis Miranda, Valeria Alencar, Gustavo Machado, Cláudio Carneiro

9 comments:

Museu do Cinema said...

É Kamila, conhecia o filme, mas nunca tinha ouvido falar do livro, para falar a verdade, o filme tb conhecia pouco, e achei a história bastante interessante.

O livro deve ser bem denso!

Victor Nassar said...

Eu nunca cheguei a ver esse filme inteiro, todas as vezes que eu tentei assitir sempre acontecia alguma coisa que eu tinha que interromper. hehe
O livro eu conhecia de nome, só não sabia da relação com o filme!

São projetos prum futuro breve..
hehe


Beju Kamila!

Rogerio Scheidemantel said...

O Filme é ótimo , e o livro deve ser melhor ainda.Queria ter mais tempo pra ler;
Lembra muito "Um Estranho no Ninho" neh.

Vinícius P. said...

Como sempre ainda não conferi o livro, aliás este ano estou meio preguiçoso para a literatura - talvez pelo excesso de filmes e séries... Contudo, achei legal você comentar o filme, do qual gosto muito. Aliás, acho que é o nacional que mais vi até hoje, foram seis vezes no total se não me engano - não só no DVD e na TV, como duas vezes na faculdade em discussões sobre essas instituições psiquiátricas. Além do Santoro, gosto muito da Cássia Kiss em "Bicho de Sete Cabeças".

Abraço! :-)

Kamila said...

Cassiano, o livro é bem denso e triste e a gente se sente como o Carrano: revoltado com tudo aquilo que ele passou.

Victor, eu sugiro que você entre em contato com as duas obras: livro e filme, que são excelentes.

Rogerio, lembra, sim "Um Estranho no Ninho". O "vilão" de "Canto dos Malditos" lembra um pouco a Enfermeira Ratched. :-)

Vinícius, a Cássia Kiss está ótima mesmo nesse filme também. Infelizmente, só assisti "Bicho de Sete Cabeças" uma vez, mas me lembro que o filme me marcou profundamente. Tanto que quis conhecer mais sobre a história do Carrano.

Beijos.

Romeika said...

Kamila, eu vi o filme, bem triste e revoltante aquela realidade dos hospícios... Esse trecho que vc escolheu é bem verdadeiro. Legal vc comparar aqui o livro e o filme (nem lembrava que o filme era uma adaptação).

Kamila said...

Romeika, acho bom que a comparação entre livro e filme seja feita, ainda mais entre obras diferentes e que se complementam, como é o caso de "Canto dos Malditos" e "Bicho de Sete Cabeças".

Anonymous said...

Li o livro....assisti o filme....mais de uma vez....afinal Austri era meu primo...faleceu a poucas horas, 27/05/2008....

Maria Stella said...

Ola Kamila

Li o que você escreveu, estou pensando em comprar o livro para ler, o filme eu já assisti. Eu mesma já passei por uma interação em Hospital Dia. E gostaria de dizer que os movimentos em favor de direitos a respeito de pacientes na Psiquiatria ajudaram a mudar muito o que é feito no Brasil. Muitas dessas instituições já foram fechadas.

A minha opinião como também vivenciei o tratamento na psiquiatria é que ainda hoje, os "malditos" - vamos assim colocar, mas são pessoas como todo mundo. Infelizmente ainda existem famílias que abandonam, o Estado possui pouca estrutura e investimento. Não falo a respeito desses hospitais e sim os Centros de Convivências os CAPS etc. Ou seja, ainda falta muito para o Brasil em termos de disponibilizar um tratamento psiquiátrico considerado bom para que os pacientes possam levar suas vidas normalmente e se recuperarem. Mas acredito que o livro ajudou a melhorar o que acontecia e ainda tem ajudado, o filme colocou essa questão para um público ainda maior.

Beijos


Stella