Sunday, December 16, 2007

Lendo - "Plano de Ataque - A História dos Vôos do 11 de Setembro"

“Não sei como isso vai terminar. Mas, do lado de fora da janela, o céu está lindo”. (Honor Elizabeth “Liz” Wainio, 27 anos, passageira do vôo 93 da United Airlines, quando se despedia da madrasta pelo telefone, após o avião ter sido seqüestrado)

Todo século é marcado por um acontecimento que causa efeitos na vida de pessoas ao redor do mundo. No caso particular do século XXI – o que estamos vivendo atualmente –, este acontecimento ocorreu logo no seu primeiro ano, quando, em 11 de Setembro de 2001, terroristas que faziam parte do grupo Al-Qaeda seqüestraram quatro aviões em pleno espaço aéreo norte-americano e desviaram suas rotas para construções que são símbolos daquilo que fazem dos Estados Unidos o país mais bem desenvolvido do mundo. Eram eles: o World Trade Center (local onde estavam localizados escritórios de bancos de investimento e de empresas comerciais), o Pentágono (sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, com escritórios dedicados à espionagem e à inteligência estratégica) e o Capitólio (sede do Congresso norte-americano). O último prédio, na realidade, nem chegou a ser atingido, pois, sabendo do destino que tiveram os outros aviões seqüestrados naquela manhã, os passageiros do vôo 93 da United Airlines, tentaram retomar o controle da aeronave, forçando o “piloto” Ziad Jarrah a abortar a sua missão e sacrificar o avião num campo que ficava localizado no Estado da Pennsylvania.

Os desdobramentos do 11 de Setembro puderam ser vistos em todos os campos – os atentados marcaram o início da Guerra contra o Terror do governo de George W. Bush (e as conseqüentes invasões ao Afeganistão e ao Iraque) e, principalmente, chamaram a atenção para uma certa figura que vive no Oriente Médio: Osama Bin Laden, o líder máximo da Al Qaeda. Filmes (de ficção ou documentários), livros, relatórios de comissões de investigações, matérias jornalísticas, entre outras, tentaram desvendar o que de fato aconteceu naquele dia e como isto passaria a influenciar as relações políticas internacionais. A obra “Plano de Ataque – A História dos Vôos do 11 de Setembro”, do brasileiro Ivan Sant’anna, se exime de encontrar os significados políticos e sociais por trás da tragédia. O que interessa para o autor – um apaixonado por aviação e autor do livro “Caixa Preta”, que conta a história por trás dos três maiores acidentes da história da aviação brasileira (isso antes dos trágicos vôos 3054 da TAM e o 1907 da GOL) – é nos relatar o que aconteceu nos vôos 11 e 77 da American Airlines, 175 e 93 da United Airlines, bem como nas Torres Norte e Sul do World Trade Center e no Pentágono.

Para tanto, Sant’anna começa o livro dez anos antes do 11 de Setembro, ao nos mostrar o momento em que a “Operação Aviões” (nome que ganhou o plano de usar aviões para atacar, a princípio, somente o World Trade Center) surgiu. Partindo desta primeira etapa, o autor entra no meio da célula da Al-Qaeda, apresentando a história de vida por trás de cada um dos jovens recrutados para os atentados (a maioria deles eram pessoas que moravam no Ocidente e que, se sentindo isoladas dos outros, buscavam refúgio no extremismo religioso e acabavam envolvidos na Jihad, a guerra santa), os métodos de treinamento e, principalmente, toda a facilidade com que os Muhajid (os que seguem a Jihad) conseguiram entrar nos EUA e se matricular em escolas de aviação, tendo uma vida mais próxima do normal, sem chamar a atenção para aquilo que eles estavam prestes a fazer.

No entanto, não é só na Al-Qaeda que Ivan Sant’anna mergulha. Ele nos apresenta aos heróis daquele fatídico dia. As vítimas de cada avião, os bombeiros que morreram cumprindo seu dever, as pessoas que foram pegas de surpresa no seu ambiente de trabalho (chama a atenção a história de Ed Beyea, um tetraplégico que trabalhava na Torre Norte do World Trade Center, e que morreu ao lado do amigo Abe Zelmanowitz e do Capitão do Corpo de Bombeiros que se recusaram a ir embora até que Beyea fosse resgatado). O autor cobre ainda a trajetória daqueles que conseguiram se salvar.

Em “Plano de Ataque – A História dos Vôos do 11 de Setembro”, Ivan Sant’anna dá um destaque todo especial ao vôo 93 da United Airlines, especialmente ao “piloto”, o libanês Ziad Jarrah (filho de família rica e que deixou uma noiva na Alemanha, local aonde morava quando foi recrutado pela Al-Qaeda), e aos passageiros que se rebelaram contra o seqüestro e tentaram mudar o destino daquele dia – de uma certa maneira, eles conseguiram fazer isso, ao evitar que a tragédia tivesse proporções ainda maiores se houvesse atingido o seu alvo primário: o Capitólio.

A prosa de Ivan Sant’anna é muito boa e “Plano de Ataque – A História dos Vôos do 11 de Setembro” é um daqueles livros que você não consegue deixar de lado. O autor faz um relato humanizado dos acontecimentos daquele dia, com certas passagens que nos deixam extremamente emocionados (ler a história de Ed Beyea; a do mensageiro do banco de investimentos que ficou preso no elevador e se salvou no último instante; a de famílias inteiras que morreram nos aviões e os minutos do vôo 93 – com os passageiros se despedindo de suas famílias – é de cortar o coração). Ao mesmo tempo, o autor mostra que, até mesmo na maior nação do mundo, a falta de preparo para encarar o que aconteceu naquele dia foi imperdoável – tantas vidas poderiam ser salvas se as duas torres tivessem sido imediatamente evacuadas (o mesmo despreparo seria visto quatro anos depois, quando Nova Orleans foi devastada pelo Furacão Katrina). Enfim, por mais dolorosa e verdadeira que seja, a leitura de “Plano de Ataque – A História dos Vôos do 11 de Setembro” é indispensável, até mesmo para a gente entender o mundo louco em que a gente vive – afinal, ninguém está a salvo.

Para ler:

“Plano de Ataque – A História dos Vôos do 11 de Setembro” (2006)
Autor: Ivan Sant’anna
Editora: Objetiva

Para ver:

Vôo United 93 (United 93, 2006, dirigido por Paul Greengrass)
Flight 93 (2006, dirigido por Peter Markle)

13 comments:

Romeika said...

Kamila, por melhor que seja um livro desses, e até mesmo indispensável como vc colocou aqui, eu prefiro passar uma leitura dessas, deve ser duro e emocionante, e eu me sinto tão mal após leituras do tipo, de algo que realmente sucedeu. De livros assim, para mim já basta "O Diário de Anne Frank", por mais genial que seja o relato da menina e seu inegável dom para Literatura, acho que nunca mais lerei aquele livro de novo.

Kamila said...

Romeika, eu estava terminando de ler o livro enquanto esperava uma consulta médica e eu tive que me segurar para não começar a chorar ali mesmo no meio da sala de espera. Não li ainda "O Diário de Anne Frank" e tenho a maior curiosidade para ler a obra.

Johnny Strangelove said...

11 de setembro ...
Antigamente quando eramos mais jovens percebemos que vimos naquele dia tudo que saia e nós acreditavamos. Acreditamos que existem terroristas no mundo, acreditamos que existe um senso de justiça, porém quando crescemos e criamos senso do ocorrido, percebemos que heróis não são tão herois e que vilões não são criados do dia para noite.

Fiz um trabalho sobre a influencia da midia no sistema politico mundial e cada vez que me aprofundava nesse tipo de pesquisa, tenho a minha verdade sobre a situação e o que nós vimos não foi o que realmente aconteceu. como uma maquiagem perfeita ou uma ilusão de ótica, fomos enganados por algo muito além do que se imagina e somos até hoje.

e a guerra contra o terror ... que guerra inutil é essa, é como o verdadeiro mal criar um outro mal para convencer o menos esclarecido em prol de algo que não vale a pena. e pior é que muita gente morreu, perdeu contato com sua familia, deixou de perpetuar sonhos e pespectivas de alegrias.

e o 11 de setembro ... eu achei FOI POUCO!

Ainda a verdade irá aparecer ... mesmo sendo tarde demais.

Johnny Strangelove said...

e sim
beijos Kamila

cinevita said...

Interessante texto, fiquei intrigado. Quanto à Vôo United 93...essêncial e sensacional cinema.

Ah, você viu a seleção oficial do AFI para os melhores do ano??
Se não viu, ta lá no blog.

Ciao!

Marcus Vinícius said...

Parece ser muito bom. Lembrei de um livro muito bom também, que fala sobre as falhas da CIA e do FBI pra evitar o 9/11 e principalmente de Abu Ghraib, chamado "Cadeia de Comando", do Seymour Hersh. Conta cada cagada do FBI, cada treta que os caras fizeram pra aprovar a invasão no Afeganistão... é jornalismo investigativo, mas é bem legal. =]

Beijão Kamila, ótima segunda-feira!

Kamila said...

João, realmente ainda tem muita coisa mal esclarecida a respeito de tudo o que aconteceu no 11 de Setembro. Acho que você tocou num ponto importante: esse atentado foi só o começo. Pior é vendo muita gente inocente continuando a perder a vida.

Wally, vi e acabei de comentar no seu blog. E recomendo a leitura desse livro.

Marcus, como fã de livros de jornalismo investigativo já anotei o nome do livro aqui para poder ler depois. :-)

Beijos.

Museu do Cinema said...

É Kamila, o livro parece ser emocionante mesmo. No começo do seu texto quando fala no recrutamento dos arabes pela Al Queada lembrei demais do filme Paradise Now que comentei em meu blog e que é de uma verdade ferina com a nossa humanidade.

Só discordo com o final de seu texto na afirmação do autor em dizer que os EUA não estavam preparados para esse ataque, e ai eu digo, e quem tá?

Quando uma pessoa resolve perder a própria vida para tal ato é impossivel alguém deter.

O filme (volto a ele) Paradise Now mostra exatamente isso. Por isso a necessidade da vida ser muito mais subjetiva do que é hoje. Eles recrutam camponeses pelo simples fato deles (os camponeses) não terem perspectivas de futuro (leia ganhar dinheiro), e nesse ponto acho que os norte-americanos incentivaram demais essa teoria, e pagaram o preço com vidas alheias.

Vinícius P. said...

Como já tinha dito outra vez, fiquei bem curioso a respeito desse livro, afinal já foi bastante recomendado. Que bom que estão discutindo o assunto dessa forma após os ataques - muita gente pensou que nunca fariam um filme sobre o assunto, por exemplo. Dos longas, vi apenas "United 93", top 10 do ano passado.

Abraço!

Johnny Strangelove said...

Quer um exemplo disso
lembre-se de A Mighty Heart ...
e aquilo foi só o começo ...
se brincar até o Vôo United 93 foi um martir para algo pior
além de um dos motivos de odiar o filme, é tentar convencer ao publico que foi aquilo mesmo que aconteceu, porém como as noticias sairam tão rapido, deu tempo de questionar se aquilo mesmo era real ?

Kamila said...

Cassiano, infelizmente, ainda não assisti "Paradise Now". No livro, o que o Sant'anna mostra é que os recrutados para a "Operações Aviões" tinham o mesmo perfil: moravam no Ocidente e se sentiam excluídos, por isso se voltavam à religião e eram presas fáceis para a Jihad. Quando o Sant'anna fala sobre a falta de preparo acho que ele se refere ao estado de choque mesmo em que as autoridades ficaram naquele dia. Hoje é fácil elaborar saídas, mas naquela hora era difícil.

Vinícius, eu acho que é importante que se faça essa discussão até mesmo porque a gente precisa compreender o que aconteceu ali naquele dia. E esses filmes e livros se tornam peças importantes para as futuras gerações.

João, lembre-se de que, por causa do atraso do vôo United 93, os passageiros já sabiam do que tinha acontecido com os outros três aviões. Eles puderam ligar para casa, se despedir, compartilhar dos planos deles. O que a gente viu no filme é a recriação daquilo que aconteceu contado pelas pessoas que sobreviveram aos entes queridos que perderam naquele fatídico dia.

Romeika said...

Nossa, Kamila, que dureza deve ter sido engolir o choro. Foi no final do livro de Anne Frank que eu não consegui segurar as lágrimas, principalmente quando aparece o relato do que aconteceu a cada uma das pessoas da casa após serem encontradas pelos nazistas. É uma boa leitura, mas é bem emocionante e triste..

Kamila said...

Romeika, esse é o mesmo caso desse livro: uma leitura boa, mas emocionante e triste.