Sunday, January 13, 2008

Lendo - "A Tenda Vermelha"

“O Egito apreciava o Lótus porque sua flor nunca morre. Também é assim com as pessoas que são amadas. Basta algo insignificante como um som, um nome – duas sílabas, uma alta, a outra suave – para trazer de volta os incontáveis sorrisos e lágrimas, suspiros e sonhos de uma vida humana” (p. 377)

A Bíblia, talvez, é o livro mais importante – e lido – da história da humanidade. Um relato de acontecimentos vividos e testemunhados pelos homens. Com exceção dos pedaços marcantes vivenciados por Maria, Maria Madalena e Eva, suas passagens são todas protagonizadas por pessoas do sexo masculino. O livro “A Tenda Vermelha”, de Anita Diamant, faz um retrato ficcional da vida das mulheres de Jacó – o filho de Rebeca e Isaac, neto de Abraão e Sara –, que, com os doze filhos, foi personagem principal de capítulos do Livro do Gênese.

Se, aos meninos, cabia a responsabilidade de aprender com seus pais o valor do trabalho braçal e de sentimentos como honra e respeito; as garotas aprendiam com as mulheres da família a serem as guardiãs dos segredos e dos acontecimentos marcantes da história do clã. E é justamente a única filha de Jacó, Dinah, a narradora de “A Tenda Vermelha” – o título do livro se refere ao local aonde as mulheres se reuniam num determinado período do mês para celebrarem a sua maturidade e a capacidade de fertilidade –, um livro que segue toda uma geração de mulheres da casa do patriarca Jacó.

A história criada por Anita Diamant é dividida em dois atos. No primeiro, acompanhamos as “mães” de Dinah: Lia, Raquel, Zilpah e Bilah. As quatro esposas de Jacó amam a filha profundamente e a escolhem como sucessora, como aquela que vai guardar para sempre seus ensinamentos, sua devoção à família e, principalmente, o amor que possuíam uns pelos outros – independente das diferenças existentes entre eles.

No segundo ato, acompanhamos a jornada solitária de Dinah no Egito, quando ela, já uma mulher adulta, viúva e com um filho para criar, tem que encarar o legado marcado pela conquista, rivalidade, dor, sofrimento, amor e medo que sua família deixou de forma que ela possa vislumbrar um futuro feliz para si própria.

“A Tenda Vermelha” é um livro que vai melhorando na medida em que a leitura progride. Por se tratar de um relato de histórias de mulheres em diferentes gerações, a prosa de Anita Diamant se revela um tanto irregular. As melhores partes do livro acontecem quando encontramos Dinah já amadurecida, chegando perto do final de sua vida. São nesses momentos que a mensagem do livro (o qual é um grande tributo à força, à sensibilidade e ao sacrifício impostos às mulheres) ganha um significado ainda mais especial.

“A Tenda Vermelha” (2001)
Autora:
Anita Diamant
Editora: Sextante

10 comments:

Vinicius Silva said...

Nao conhecia o livro. Na verdade, não tenho lido muito. O ultimo que você estava lendo, "O Veu Pintado" é muito bom. Mas, do Somerset prefiro "Servidão Humana". Mas o livro parece ser interessante e o teu texto consegue cativar alguém que pretende lê-lo.

Kamila said...

Vinícius, ainda estou lendo "O Véu Pintado". Acho que "A Tenda Vermelha" é um livro perfeito para mulheres. Os homens, acredito, não irão gostar muito da leitura.

Vinícius P. said...

Pois é, pelo seu texto percebi que esse livro é mais direcionado às mulheres - não que não seja uma boa leitura para os homens, mas até mesmo no cinema é complicado entender algumas obras tipicamente femininas (falo isso porque nem sempre tenho a mesma percepção para avaliar personagens do sexo oposto).

Abraço!

Vinicius Silva said...

E, continuando ao que o meu xará disse, as mulheres conseguem entender as mulheres. É muito mais difícil para nós, homens, tentar decifrar um certo personagem feminino. Sempre faltará algo a ser avaliado, e muitas vezes esse "algo" é o que as mulheres conseguem definir de melhor.

Percebi isso nos seus comentários no meu blog no post de "Desejo e Reparação". Mas você já leu servidão humana?

Arthur said...

Não conhecia o livro, mas deve ser mais especial para o público feminino, não querendo dizer que o público masculino também não possa apreciar, mas tem mais um significado para as mulheres.

Eu estou lendo "O Hobbit" =P

Boa Semana!

Romeika said...

Kamila, nunca tinha ouvido falar desse livro, gostei dos aspectos que vc resenhou aqui, e a citação inicial é muito bela e poética, além de verdadeira.. Apesar da irregularidade na narrativa, vc recomenda o livro?

Kamila said...

Vinícius, também tenho dificuldade de entender, às vezes, certas histórias que são muito masculinas.

Vinícius Silva, nunca li "Servidão Humana". Como estou gostando muito de "O Véu Pintado", devo procurar esse outro livro do W. Somerset Maugham.

Arthur, não sei se eu conseguiria ler "O Hobbit", porque, para mim, já foi um esforço tremendo terminar de ler os três livros de "O Senhor dos Anéis".

Romeika, recomendo se você gosta de ler sobre essas jornadas pessoais de dor, mas de muito aprendizado. Como eu disse, os melhores momentos ocorrem a partir do momento em que Dinah se torna a personagem principal.

Anonymous said...

Estou lendo A Tenda Vermelha agora e estou adorando. Estou na parte das mães ainda e acho o maximo como a autora conta esta versão. É como se a primeira vez as mulheres da Biblia tivesse alma, tivessem tido realmente uma vida, uma história tão ou mais importante do que a dos seus homens,fosse marido ou filhos.

Neni Tenorio. said...

tou lendo e bem interessante gostei , e bem feminino :D

Diu Mota said...

Li e gostei do propósito- a valorização da mulher diante do seu universo.
Abraço, cinéfila
Inté