Tuesday, March 04, 2008

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 saptamani si 2 zile, 2007)

Até chegar ao fim de sua primeira meia-hora, o filme “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, do diretor e roteirista Cristian Mungiu, pode enganar bastante a gente. Acompanhamos duas amigas – Otilia (Anamaria Marinca, numa excelente atuação) e Gabriela Dragut (Laura Vasiliu) – repassando um “check list” antes que Gabriela (a quem Otilia chama carinhosamente de Gabita) viaje. Na realidade, Gabriela não vai fazer viagem alguma. Ela vai se ausentar por uns três dias da república estudantil aonde mora com a amiga, pois vai fazer um aborto – o título da obra é uma referência ao tempo de gravidez dela.

No entanto, este não é o único elemento surpreendente do filme “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”. Toda a jornada que leva desde os preparativos, a espera no quarto de hotel, o aborto e a recuperação após a eliminação do feto é vista pelos olhos de Otilia. Com medo do que está por vir, Gabita pede a amiga que arranje tudo – inclusive o contato final com Bebe (Vlad Ivanov, excelente), a pessoa que irá realizar o procedimento de aborto – de forma que ela só compareça ao quarto de hotel reservado para se livrar daquilo que a está incomodando.

A trama do filme se passa em um momento de mudança para a população romena, nos últimos dias do regime comunista do ditador Nicolae Ceausescu. E, como estamos testemunhando o que está acontecendo com Gabita através dos olhos de Otilia, veremos como este dia irá modificá-la profundamente. A cada furo no planejamento (e – acredite – tudo que poderá dar errado neste dia ocorrerá), vemos Otilia repensando sua própria vida – inclusive o relacionamento com o compreensivo Adi (Alexandru Potocean), um cara que a ama de verdade e que, provavelmente, nunca deixaria acontecer com ela o que está se passando com Gabita.

Vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes, em 2007, “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” é um exercício de fazer (e de assistir) cinema completamente diferente para aqueles que estão acostumados com os filmes norte-americanos. O diretor e roteirista Cristian Mungiu deixa um único plano, sem mudar qualquer ângulo de câmera, por minutos em tela. Além disso, os diálogos – quase sempre – são vistos através de um só personagem (não importa quantas pessoas estejam em cena). São decisões arriscadas, mas que dão um resultado ótimo.

Cotação: 8,5

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 saptamani si 2 zile, Romênia, 2007)
Diretor(es): Cristian Mungiu
Roteirista(s): Cristian Mungiu
Elenco: Anamaria Marinca, Laura Vasiliu, Vlad Ivanov, Alexandru Potocean, Ion Sapdaru, Teodor Corban, Tania Popa, Cerasela Iosifescu, Doru Ana, Eugenia Bosânceanu, Marioara Sterian, Adi Carauleanu, Ion Grosu

21 comments:

Museu do Cinema said...

É Kamila, eu acho que cinema é isso, arriscar, eu sou totalmente contra aqueles diretores de encomenda que não possuem criatividade nem mesmo para posicionar a camera. Fazer filme como receita de bolo encheu já.

Pedro Henrique said...

Como não constume ler sinopses de filmes antes de os assistir, fiquei meio perdido no início desse - o que é bom, pois, gosto de não entender nada, e depois ver a história se desonrolar toda de uma vez.

Um tema delicado e muito bem abordado, só podia resultar em um filme super agradável.

É um filme pesado, que algumas vezes, chegou a me revoltar.

Também gostei da fixação da camera na personagem.
E também fico muito feliz por ver cinema não norte-americano fazendo filmes como este.

7.0

Abraço!!!

Pedro Henrique said...

Desculpa:

*Costumo
*Desenrolar

Otavio Almeida said...

Não vi ainda. Mas interessantes as suas observações no final do texto.

Sobre O CAÇADOR DE PIPAS, acho que faltou emoção. Não li o livro, mas o filme não justifica tanto barulho em torno da história de Khaled Hosseini.

Bjs!

Kamila said...

Cassiano, se você gosta de quem toma riscos, recomendo esse filme. É maravilhoso!

Pedro, realmente, assistir a este filme sem saber da sinopse nos deixa com essa sensação de que estamos perdidos na história. Eu achei que este filme retratou tudo de uma maneira muito suave. Acho que a parte em que eu fiquei mais desorientada foi quando a Otilia teve que sair para se "livrar" do feto. Eu adorei o olhar que o Cristian deu à sua história.

Otavio, pois assista a este filme. E falta mesmo em "O Caçador de Pipas" a emoção. O filme não faz jus ao livro do Khaled Hosseini.

Beijos.

Rogerio said...

Nossa, que interessante esses detalhes da filmagem. Acho que por isso já devo amar o filme.
Tudo que li foi muito bom acerca desse filme, e tua resenha só aumenta minha curiosidade.
Belo texto.

Pedro Henrique said...

Justamente essa parte foi que me revoltou.
Inclusive, achei que eles não iriam mostrar o feto...foi um choque.
Mas muito bom mesmo

Kamila said...

Rogerio, é um filme bem diferente justamente por esses decisões tomadas pelo diretor Cristian Mungiu. Fora isso, a história em si é muito bem contada.

Pedro, eu também pensei que eles não iriam mostrar o feto. Como você disse, é um choque, mas uma coisa necessária.

Wally said...

Esse ainda não chegou aqui. Mas quero muito ver. Sua crítica me animou. ;)

Ciao!

Weiner said...

Quero muito ver este filme, acredito que ele será o filme estrangeiro do ano. É claro que excluo os filmes americanos desta categoria, apesar de eles também serem estrangeiros, hehehe. O roteiro é bem intrigante, e se o resultado é ótimo, como você disse, eu vou adorar.
Grande abraço!
E uma boa quarta-feira!

Museu do Cinema said...

Tá mais do que recomendado Kamila. Valeu! Só espero que ele dê as caras por aqui.

Kamila said...

Wally, tivemos a sorte de que este filme estreasse por aqui. E é maravilhoso. Depois de assistí-lo, fico sem entender o por quê de não ter sido um dos finalistas ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Weiner, até agora, e estamos no começo de 2008, é o melhor filme estrangeiro do ano.

Cassiano, também espero que estréie em Salvador.

Marfil said...

Pena que eu sabia o argumento do filme. Se soubesse nada sobre ele teria gostado mais ainda da surpresa... Que todo mundo sabe o que é, mas enfim...

Vinícius P. said...

Eu nem sei tanto sobre a história do filme, mas estou muito interessado, ainda mais depois de seus comentários. Geralmente gosto dessas fitas que fazem um cinema diferente do americano, algo mais "cru", sem tanta enrolação. Uma das prioridades desse mês - já que finalmente chegou por aqui.

Kamila said...

Marfil, eu fui assistir ao filme sabendo da trama, mas, mesmo assim, me surpreendi em determinados momentos.

Vinícius, eu sou muito fã desse tipo de filme que você descreveu: uma obra mais "crua", sem enrolações. Assista sem medo!

Romeika said...

Eu sou doida pra ver esse filme, todos dizem que é excelente. Sua crítica foi muito animadora, Kamila, parece ser uma história contada de uma maneira bastante original e independente.

Kamila said...

Romeika, exatamente. E eu acho que você vai AMAR esse filme.

Tatiana said...

Oi, Kamila! Muito interessante o que você falou sobre a primeira meia hora do filme: é exatamente assim, enganadora. E penso também que sua melhor qualidade seja o olhar de Otilia sobre o problema de Gabita.
Eu saí do cinema muito impactada.
Foi algo pior que filme sobre o Holocausto!
Beijo e bom fim-de-semana!

Luciano Lima said...

Adorei o texto, Kamila. Bem direta e exatamente no ponto mais forte do filme (também tem a atuação da Anamaria Marinca, um primor). O que mais me encantou em 4 Meses... foi a forma como o diretor consegue instigar nossas reações. Até hoje tenho na mente a cena em que a câmera fica entre as pernas da Gabita, mostrando o estado da Otilia. É uma ótima experiência cinematográfica.

Cláudio Paixão said...

"4 meses, 3 semanas e 2 dias" é um excelente filme... Baixei-o para minha coleção, pois amo cinema alternativo e nunca havia visto nada "romeno". Enfim, aquela cena onde a protagonista fica parada e calada na mesa uma meia-hora mostra a excelência do projeto. Um filme que MERECIA o Oscar de Filme Estrangeiro.

Kamila said...

Tatiana, eu também saí do cinema desnorteada. Achei "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias" um filme maravilhoso, como há muito tempo eu não via.

Luciano, essa cena que você citou, realmente, é impactante. E o diretor quer mesmo brincar com nossas reações.

Cláudio, este também foi o meu primeiro filme romeno. E concordo: este filme merecia o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.