Saturday, December 09, 2006

Volver (2006)


Depois de dois filmes (“Fale com Ela” e “Má Educação”) que mergulhavam no universo masculino, o diretor e roteirista espanhol Pedro Almodóvar retorna a um mundo que ele ama e conhece como ninguém: o das mulheres. No filme “Volver”, Almodóvar aborda como as questões de vida e de morte afetam a vida de três mulheres oriundas de uma mesma aldeia espanhola – e que já é misteriosa por si só, pois, reza a lenda, que seus habitantes ficam loucos com grande facilidade.

Quando a gente conhece as três mulheres de “Volver”, dá para começar a entender o por quê da existência da linha tênue entre sanidade e loucura. Raimunda (Penélope Cruz, que recentemente ganhou o prêmio de melhor atriz no European Film Awards pela sua performance neste filme) e Sole (Lola Dueñas) perderam os pais em um incêndio e, na primeira oportunidade que tiveram, abandonaram a aldeia e foram para Madrid. No início do filme, elas – na companhia de Paula (Yohana Cobo), filha de Raimunda – estão no vilarejo polindo e limpando o túmulo de seus pais. Após fazerem isso, as duas aproveitam e visitam a Tia Paula (Chus Lampreave) – o único parente vivo que elas têm –, que vive sozinha e está louca e doente.

Agustina (Blanca Portillo) também perdeu a mãe, que está desaparecida, e mantém pouco contato com a irmã, que está mais interessada em obter atenção e sucesso. Assim como a sua genitora, que era hippie, Agustina tem uma personalidade exótica e planta e fuma maconha como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Mas, você deve estar se perguntando, o que Agustina tem a ver com Raimunda e Sole? Agustina é a vizinha de Tia Paula e cuida dela, verificando se ela está bem e se ela terá o pão de cada dia para comer.

A vida destas três mulheres dará uma guinada de 360 graus quando Raimunda chega em casa e encontra Paco (Antonio de la Torre), seu marido, morto pela filha depois deste ter tentado abusar sexualmente dela; quando Agustina recebe o diagnóstico de que está com um câncer terminal; e quando Tia Paula morre e Sole volta à aldeia para cuidar do enterro e das coisas de sua tia, e acaba se deparando com o fantasma de sua mãe (Carmen Maura), que parte com a filha de volta à Madrid, pois, aparentemente, ela ainda tem algumas coisas para resolver no mundo dos vivos. Em comum nestes casos é a necessidade que cada mulher tem em dar um fechamento a algum capítulo doloroso de sua vida. Ou seja, algumas portas se fecharão, enquanto outras irão se abrir.

Quando você perde alguém que você amava muito, de certa maneira, você acaba se acostumando a viver sem ele (a). Como? Ou você passa batido pela vida (como Sole), ou você opta por seguir com ela (como o trator Raimunda, que numa cena esconde o corpo do marido em um freezer, e, em seguida, está fazendo um almoço para trinta pessoas). Mas existe também aquela situação em que você fica estagnada (como Agustina) e só pode continuar a viver depois de entender tudo pelo que você passou.

No entanto, “Volver” não se interessa por isso. O roteiro de Pedro Almodóvar (que é muito bem encenado pelas suas atrizes) quer desvendar o momento em que se decide voltar à vida. Pensemos um pouco na mãe de Raimunda e Sole. Como voltar a um mundo em que você não existe? Como viver e sentir dessa maneira? Talvez o maior propósito de sua presença, da sua volta, é devolver às filhas – e, de certa forma, à Agustina – a vida que elas deixaram para trás. E, a partir do momento em que se tem a volta, a ausência passa a ser insuportável. Isso é muito bem ilustrado na frase mais tocante de “Volver”, em que Raimunda olha para sua mãe e diz: “Preciso de você, mamãe. Não sei como consegui viver tanto tempo sem você”.

Cotação: 9,3

Crédito Foto: Yahoo! Movies

14 comments:

Museu do Cinema said...

Finalmente hein Kamila, e pelo visto curtiu, só discordo quando no inicio vc diz q Fale com Ela é sobre o universo masculino, o filme é totalmente feminino, o único filme realmente masculino do diretor é o Má Educação.

Kamila said...

Cassiano, curti bastante!

"Fale Com Ela" é um filme sob o universo feminino, mas todo o ponto de vista da história é masculino, pois os homens é que enxergam a vida daquelas mulheres pelos olhos deles. Por isso, que eu disse que este era um filme que mergulhava em um universo masculino.

Túlio Moreira said...

"(...) dar um fechamento a algum capítulo doloroso de sua vida". Kamila, acho que é isso mesmo. O filme é sobre volver à vida sem ter saído dela, por isso a alegoria da morte funciona tanto.

BJO.

Kamila said...

No final, Túlio, todo o filme acaba sendo sobre isso mesmo. Como voltar à vida, e como tê-la de volta em suas mais variadas formas.

Beijo.

Museu do Cinema said...

de uma certa maneira sim Kamila, mas mesmo as personagens femininas estando em coma, a história gira em torno delas, e como vc mesma disse, é a interpretação do universo feminino pelos olhos masculino, o que é a essência de todos os filmes de Almodóvar, porque é dele todas as interpretações desse maravilhoso universo. Alias, Volver é o mais feminino de seus longas. Aqui os homens tem papéis secundários e caricatos. Aquela cena onde Sole, assustada com o fantasma da mãe, corre dela pela casa e se depara com os velhos da cidade, imediatamente ela volta e prefere encarar o fantasma, mesmo morrendo de medo.

Kamila said...

Cassiano, sua opinião tem fundamento. Realmente, se formos levar em consideração, todos os filmes do Almodóvar são interpretações masculinas sobre o mundo feminino. “Volver” é uma prova disso e a cena que você citou reflete bem esse seu pensamento.

Túlio Moreira said...

hehehehehe, se bem que pelo histórico do Almodóvar, não podemos considerá-lo uma mente tão masculina assim não...

Kamila said...

A mente do Almodóvar, Túlio, é sensível. :-)

De muitas formas, ele próprio é parecido com os personagens que cria. Ele sabe entender o mundo feminino como ninguém.

Museu do Cinema said...

Mas não podemos esquecer A Má Educação, que apesar das personagens (todos masculinos), serem homossexuais ou bi, o universo é totalmente masculino.

Mas Volver tb pode ser considerado uma volta de Almodóvar ao feminino, tb ao drama comico, ou apenas Volver.

O fato é que A Má Educação, apesar de bom, é seu filme mais irregular.

Kamila said...

Eu não gosto e nem consigo - já tentei - gostar de "Má Educação". Naquela retrospectiva que você fez no seu blog, Cassiano, fiz meu comentário sobre este filme, o qual acho muito confuso. Um dia, talvez, eu consiga entender "Má Educação".

Túlio Moreira said...

Talvez filmes autobiográficos não sejam feitos para serem entendidos por terceiros...

mas sim, o universo de Má Educação é masculino e não se deve confundir essas questões de sexualidade: não é porque o personagem é homossexual que ele deixa de ser homem (Brokeback Mountain provou isso muito bem). Do mesmo jeito que existem gays afeminados e lésbicas machonas, existem gays másculos e lésbicas femininas. Do mesmo jeito que um transexual biologicamente homem que gosta de homens deve ser considerado heterossexual. Quer dizer, essas divagações sobre a sexualidade humana são básicas para não se levar os filmes de Almodóvar para a interpretação errada.

Kamila said...

“A Má Educação” é claro que é uma experiência pessoal demais para Almodóvar. Acho que o filme é irregular, talvez, porque ele não soube manter uma distância de sua própria história. Ele ficou próximo demais daquilo tudo.

felipeixe said...

Ôw meu Deus! Eu doido pra assistir a esse filme antes de sair de cartaz...
Vou ver se vou essa semana.

Bjs!

Kamila said...

Assista logo, Felipe, de preferência hoje, pois o filme, se não me engano, vai sair de cartaz.