Saturday, March 17, 2007

O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, 2006)


Idi Amin Dada marcou seu nome na história como líder de uma das ditaduras mais sangrentas da história de Uganda. Assim como muitos outros governantes que acabam se perpetuando no poder nos países que formam o continente africano, Amin conquistou a liderança política de Uganda fazendo a promessa de um governo para o povo. Assim como muitos outros governantes que deixam o poder subir às suas mentes, Amin logo se esquece de suas promessas iniciais e reprisa as cenas de violência, censura e cerceamento que são tão conhecidas dos africanos. É justamente este personagem complexo, carismático e contraditório, o objeto principal do filme “O Último Rei da Escócia”, do diretor Kevin MacDonald.

A história do filme é contada pelo ponto de vista de Nicholas Garrigan (o excelente James McAvoy), jovem recém-formado em Medicina, e que ainda não sabe lidar com as pressões de sua família ou com os caminhos que o seu pai julga serem os melhores a se seguir. Nicholas ainda é inocente a ponto de pensar que pode mudar o mundo, por isso ele embarca rumo à Uganda, no continente africano, aonde trabalhará em uma missão coordenada pelo médico David Merrit (Adam Kotz) e sua esposa Sarah (Gillian Anderson).

Na África, Nicholas encontra um mundo completamente diferente do que conhecia. A alegria do povo esconde, na realidade, a escassez de recursos, a pobreza, a miséria e, principalmente, a violência. O contraste é ainda maior quando – a convite do presidente Idi Amin Dada (Forest Whitaker, numa performance que lhe rendeu o Oscar 2007 de Melhor Ator) – Nicholas vai para a capital do país (Kampala), um local mais moderno e organizado. Seduzido pela confiança que é depositada nele pelo próprio Amin, Nicholas abandona o idealismo e se entrega ao sistema quando aceita ser o médico particular do presidente e de sua família, bem como o conselheiro político do ditador.

No momento em que decidiu deixar a Escócia para ir à África, Nicholas julgou estar deixando uma prisão (que era dominada pelos valores e pelas expectativas de seus pais) para ir para uma terra aonde ele poderia ser livre para aprender e aproveitar a sua juventude. Mal ele sabia que, ao aceitar trabalhar para o regime, estaria entrando em uma outra prisão. E esta nova realidade é sufocante, dolorida e decepcionante. O isolamento de Nicholas se agrava ainda mais quando ele se envolve com uma das esposas de Idi Amin Dada, a bela Kay (Kerry Washington).

O excelente roteiro de “O Último Rei da Escócia” foi baseado no livro de Giles Foden e escrito pela dupla Jeremy Brock e Peter Morgan. Este último também foi o autor do roteiro de “A Rainha”, filme do diretor Stephen Frears. Os dois filmes têm em comum o teor político. A diferença entre eles é que, em “A Rainha”, o povo tem uma maior influência na política. “O Último Rei da Escócia” dialoga mais com filmes como “Diamante de Sangue”, de Edward Zwick, e “Hotel Ruanda”, de Terry George. Nestes três filmes, o homem branco é a ponte pela qual o mundo fica conhecendo a verdadeira realidade do continente africano. Os filmes dão voz àqueles que não podem falar. O chato é saber que, provavelmente, os nossos filhos e netos continuarão a assistir filmes como estes; afinal os governos do hemisfério norte continuam a ignorar aqueles que ajudaram a construir, praticamente, todas as nações do mundo.

Cotação: 9,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

14 comments:

Wanderley Teixeira said...

De O Último Rei da Escócia o melhor é a interpretação de McAvoy q protagoniza o filme com Whitaker.Em nada me embasbacou a interpretação do vencedor do Oscar deste ano,talvez pelo excesso de cenas divulgadas e as poucas cenas dele no filme se comparado a McAvoy.

Túlio Moreira said...

Kamila, tá aí um filme que torço muito para ainda estrear aqui em Goiânia. Que bom que você gostou (9,5!). Eu gostei bastante do seu texto, especialmente do último parágrafo e do trecho "O chato é saber que, provavelmente, os nossos filhos e netos continuarão a assistir filmes como estes (...)".

Quero muito ver esse filme! E Whitaker é um puta ator, um dos melhores de sua geração - apesar de ter enveredado por um caminho de gosto por vezes duvidoso...

bjo e bom domingo!

romeika said...

Que bom que vc gostou da atuacao do McAvoy, Kamila. Ele foi uma das melhores coisas do filme, pena que nao teve muito reconhecimento nas premiacoes. Acho ele ateh mais interessante do que o Whitaker no filme.

Kamila said...

Wanderley e Romeika: o McAvoy é o personagem principal de "O Último Rei da Escócia". Whitaker é coadjuvante. Um absurdo o McAvoy ter sido prejudicado na campanha do filme ao Oscar pela decisão errada do estúdio de promover a atuação do Whitaker ao prêmio de melhor ator. Mas, não tem problema, pois o McAvoy vem com tudo neste ano e acho que a indicação ao Oscar pode vir.

Túlio: espero que "O Último Rei da Escócia" estréie em Goiânia. O filme, para mim, foi uma agradável surpresa. Adorei.

Beijos.

romeika said...

Concordo, Kamila, acho o McAvoy a personagem principal do filme, enquanto o Whitaker eh o coadjuvante. Espero ver mais filmes com ele no futuro, e se ele estiver tao bem quanto em "O Ultimo Rei da Escocia", tomara que o reconhecimento chegue. Bjs,

Kamila said...

Neste ano, o McAvoy tem dois filmes que estão cotados para o Oscar: "Atonement" e "Becoming Jane". Li o comentário de alguém que já assistiu ao primeiro filme que citei e essa pessoa disse que o McAvoy está fantástico em "Atonement" e que uma indicação ao Oscar é muito provável.

Museu do Cinema said...

McAvoy para o Oscar é um pouco demais Kamila, vamos aguardar a ascensão dele, com calma.

Gostei do final de seu texto, acho que o poder corrompe quem não está acostumado e preparado para ele. É preciso uma formação para ser líder, e o que vemos diariamente é uma forjação de lideranças.

Túlio Moreira said...

Também quero que estreie por aqui, acho um filme que parece ser muito interessante mesmo. Conferi foi Cartas de Iwo Jima, e acredite: gostei mais de A Conquista da Honra!

Parece-me que existe a previsão de O Último Rei da Escócia chegar a Goiânia nessa sexta-feira.

BJO!

Otavio Almeida said...

Oi Kamila!

Achei o filme muito interessante pela força da dupla Whitaker/McAvoy. Tirando eles, acho que já esqueci de O ÚLTIMO REI DA ESCÓCIA.

Bjs!

Kamila said...

Cassiano, concordo com sua frase. O poder corrompe muito aqueles que não estão preparados para enfrentá-lo. É necessário mesmo uma formação para líderes.

Túlio, não acredito que você gostou mais de "A Conquista da Honra". Eu acho "Cartas de Iwo Jima" um filme melhor. E acho que "A Conquista da Honra" funciona ainda mais depois que a gente assiste "Cartas".

Otávio, a força da dupla Whitaker/McAvoy foi justamente o que eu mais gostei neste filme.

Beijos

Museu do Cinema said...

Eu tb concordo com o Túlio, Batalhas é melhor que Cartas.

Túlio Moreira said...

Foi peculiar, Kamila, porque Cartas me fez gostar mais ainda de A Conquista... durante o filme, foi como se me desse uma tremenda vontade de assistir a versão americana dos fatos. No balanço geral, achei A Conquista um pouco melhor. Mas ambos são filmaços.

bjo!

Otavio Almeida said...

Quer saber, gente? Já não sei mais qual é o melhor entre A CONQUISTA DA HONRA e CARTAS DE IWO JIMA. Acho os dois filmes maravilhosos! Talvez CARTAS tenha me capturado mais pelo fato de abordar o lado japonês. E com um diretor americano fazendo isso. Talvez eu prefira CARTAS DE IWO JIMA por uma pequena margem...

Abs!

Kamila said...

Como o Otávio disse, tanto "Cartas" quanto "Conquista" são maravilhosos. "Cartas" me agrada mais por mostrar um lado mais humano, mas os dois filmes juntos funcionam muito bem e se complementam.

Beijos.