Thursday, July 19, 2007

Mais Estranho que a Ficção (Stranger Than Fiction, 2006)

De uma certa maneira, o cinema e a literatura são uma forma de arte que caminham juntas. Ao longo dos anos, uma foi influenciando a outra. Se os livros são pictóricos, os filmes nos levam a territórios que os escritores só podem tentar nos fazer imaginar. Mesmo com as diferenças de linguagem entre as duas formas de arte, uma coisa muito importante elas têm em comum: o fato de que, ao se inspirarem no dia-a-dia das pessoas, elas tentam colocar alguma luz para tentarmos compreender o mundo em que vivemos. O filme “Mais Estranho do que a Ficção”, do diretor Marc Forster, celebra justamente o momento em que o cinema e a literatura estão mais juntos do que nunca.

Karen Eiffel (Emma Thompson, numa ótima atuação) é uma famosa escritora que está passando por um bloqueio criativo. Ela já tem uma história: a narrativa sobre um homem que, no lugar de ser o personagem principal de sua vida, é somente um observador daquilo que acontece ao seu redor. De uma maneira muito estranha, o que Karen escreve é um reflexo direto da vida do auditor fiscal Harold Crick (Will Ferrell, numa atuação indicada ao Globo de Ouro 2007 de Melhor Ator em um Filme de Comédia/Musical), um cara que é cheio de manias e que tem uma vida extremamente solitária.

Muita gente diz que a última coisa em que um autor pensa é no final que sua obra terá. Em “Mais Estranho do que a Ficção”, o roteiro de Zach Helm nos mostra o seu final logo nos primeiros 20 minutos de filme. Karen – e, principalmente, Harold – sabem que o personagem principal tem que morrer. O que roteirista, escritor e personagem mal sabiam é que a vida de Harold começaria a se tornar interessante a partir do momento em que seu destino parece traçado. Ao conhecer a confeiteira Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal), a vida do auditor fiscal se torna mais doce e ele tem uma razão para lutar para continuar a viver.

Na época do lançamento de “Mais Estranho que a Ficção”, críticos de cinema foram unânimes na comparação entre o roteirista Zach Helm e o aclamado Charlie Kaufman (o criador de filmes como “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação” e “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças”). A comparação, além de impertinente, é completamente injusta. Kaufman tem uma abordagem um tanto irônica da vida e seus personagens parecem habitar um mundo que só existe na mente do roteirista. No caso de Helm e este “Mais Estranho que a Ficção”, a história criada por ele é real, vivida por pessoas que existem de verdade e que poderiam estar ao nosso lado.

Se tivéssemos que comparar um filme como “Mais Estranho com a Ficção”, deveríamos procurar uma obra como “As Horas”, do diretor inglês Stephen Daldry. Assim como este último filme, aquele fala sobre a importância da vida e sobre como aquelas coisas mais mundanas – e, aparentemente, insignificantes – são justamente as que são mais definidoras e que nos fazem perceber o quanto a vida é valiosa e importante de ser experimentada.

Cotação: 9,7

Crédito Foto: Yahoo! Movies

18 comments:

Museu do Cinema said...

Bela introdução Kamila.

Vinícius P. said...

Puxa, Kamila, gostou mesmo do filme, hein? Eu também adorei (não tanto, mas sem dúvida está entre os melhores do ano).

Como dito acima, a introdução está belíssima mesmo, acredito que o filme mostra perfeitamente essa interação entre cinema e literatura, graças ao roteiro maravilhoso do Zach Helm. Puxa, acho que é a primeira vez que vejo alguém com a mesma opinião em relação às comparações com o Charlie Kaufman. Muitos inclusive acusaram o Helm de ser uma cópia barata, o que é completamente injusto (os dois são ótimos, mas tem estilos diferentes).

Abraço!

Vinícius P. said...

Ah, me esqueci de falar da atuação maravilhosa da Emma Thompson, sem dúvida sua melhor em anos. Até agora está na minha lista de atrizes coadjuvantes de 2007. ;-)

Felipe Nobrega said...

Oi! mais que belo texto o seu, muito bom mesmo! e acho que define bem o filme, e a comparação erronea com Kauffman vc comentou de maneira bem sintática e precisa,acho a mesma coisa. Enquanto Kauffman as vezes peca por querer ser "engraçadinho" demais, Zach consegue ser mais sério e é muito justa a comparação com As Horas. QWuantyo as atuações reaslmente, Emma está muito bem e merecia ser lembrada pelo Oscar. E Will Farrel está em seu melhor momento no cinema.
Se der aparece la no blog para ajudar em uma votação!
abraços!

Otavio Almeida said...

Caraca! Bela cr�tica! Me deu at� vontade de rever o filme para ver se gosto.

E concordo sobre a atua�o da Emma Thompson!

Bjs! E bom final de semana!

Romeika said...

Kamila, gostei da reflexão que vc fez com relação à história do filme, não tinha pensado dessa maneira. Realmente não vejo muitas similaridades entre esse filme e "Quero Ser John Malkovich", mas vc sabe como é a crítica, sempre fazendo comparações...

Gostei do filme, mas não tanto como vc. Me surpreendi com a nota que vc deu. Ah, e a Emma Thompson, maravilhosa, sem dúvida.

Kamila said...

Obrigada, Cassiano.

Vinícius, eu acho que o melhor do filme é justamente o paralelo que faz entre o cinema e a literatura. Eu, que gosto de estudar os dois temas, tive um prato cheio nesse sentido.

Felipe, a Emma Thompson poderia muito bem ter sido indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Seria uma coisa justíssima. Mas, neste ano, o Oscar desta categoria estava muito disputado. Se não me engano, a Emma chegou a ser indicada ao BFCA Awards.

Obrigada, Otávio.

Romeika, como você mesma disse, a crítica sempre procura uma desculpa para rotular o trabalho de alguém e comparar. Todo mundo tem a necessidade de encontrar o "novo fulano de tal". Eu acho que Zach Helm tem identidade própria e esse filme é uma prova disso.

Bom final de semana para todos!

Wanderley Teixeira said...

Mais Estranho que a Ficção foi um dos trabalhos q menos gostei este ano.Acho sincera esta comparação com o Kaufman,apesar das diferenças apontadas por ti.O q destaco mesmo é a irrepreensível performance de Will Ferrell.

Kamila said...

Tudo bem, Wanderley. Essas discordâncias é que são interessantes entre nós, cinéfilos. :-)

Marcus Vinícius said...

Tri bom o texto. Eu tava meio assim pra assistir ele, mas como confio na senhorita eu vou conferir. =D

Beijos e bom sábado!

Alex Gonçalves said...

Não daria uma nota tão alta para a produção, mas ela foi muito bem justificada pelo que o espectador pode estar absorvendo de uma história aparentemente improvável. Porém, muitas vezes, é dos enredos peculiares que vêm os melhores filmes e as melhores reflexões.

Alex Gonçalves said...

Há, creio que tudo indica que o destaque de Helene Bonham Carter será maior em "O Enigma do Príncipe". Kamila, já viu "Mistérios do Passado"?

Kamila said...

Marcus, obrigada pela confiança. Espero que assista ao filme e goste tanto quanto eu. :-)

Alex, nunca vi "Mistérios do Passado". Sobre o que trata este filme?

E vamos torcer para que a Helena Bonham Carter tenha mesmo maior destaque no próximo filme do HP.

Roberto Queiroz said...

Estou correndo atrás desse filme já tem tempo: ele só passou em lugar de difícil acesso pra mim no cinema, tem lista de reserva dele em quase todas as locadoras que sou sócio, no dia que passou num cineclube aqui perto de casa (podia ter ido de graça), tive outro compromisso inadiável, Puxa! Como dizia Drummond "Encontrei uma pedra no meio do caminho". Mas ainda vejo ele, ah! se vejo!

(http://claque-te.blogspot.com): Últimos Dias, de Gus Van Sant.

Alex Gonçalves said...

Kamila, "Mistérios do Passado" é uma produção que foi jogada há alguns anos no mercado de vídeo. É um suspense australiano bem sutil sobre um homem que retorna a cidade onde nasceu para cuidar do enterro do seu pai que faleceu recentemente. Quando isto ocorre, ele acaba recordando o próprio passado, especialmente quando se relaciona com uma enigmática mulher chamada Ruby. O filme é protagonizado por Guy Pearce e, claro, Helena Bonham Carter.
É um filme sensível e bonito. Vale a pena procurar nas locadoras!
Excelente semana.

Kamila said...

Roberto, só consegui assistir a este filme, que não estreou nas salas de cinema daqui, em DVD.

Alex, obrigada pela dica. Adorei a sinopse do filme. Anotei o nome aqui para eu procurar na minha próxima ida à locadora.

Wally said...

Eu gostei bastante desse filme. Inventivo, original e simplesmente refrescante, ótimo de ver e se deliciar. Excelentes performances e uma direção com estilo e substância.

Nota 8,5

Kamila said...

Concordo, Wally. O filme foi uma agradável surpresa para mim.