Wednesday, January 23, 2008

Lendo - "O Véu Pintado"

“Pensara a princípio que ele realmente não tinha aquela intenção, e até iniciarem viagem, não muito depois, até desembarcarem do vapor e tomarem as cadeirinhas para atravessar a região, julgava que o marido com seu risinho costumeiro lhe diria que não precisava ir. Não poderia imaginar o que ele tinha em mente. Não era possível que lhe desejasse a morte, pois a amava tão desesperadamente. Ela agora sabia o que era o amor e lembrava-se de mil coisas que revelavam o quanto ele a adorava. Na verdade ela era tudo para ele, o bom e o mau tempo. Era impossível que não a amasse mais. Deixamos de amar alguém quando esse alguém nos trata cruelmente?” (p. 98)

De autoria do escritor inglês W. Somerset Maugham, “O Véu Pintado” é um livro que faz jus às grandes obras da Literatura Inglesa. Pode não ser uma grande história de amor como “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen, mas trata do mesmo tema com profundidade, ao mergulhar fundo nas motivações da sua anti-heroína, a deslumbrante – e superficial – Kitty Fane.

A princípio, Kitty é somente mais uma jovem inglesa criada por uma tradicional mãe para arranjar um bom casamento, um relacionamento que trouxesse prestígio à sua família. Não lhe faltam pretendentes e Kitty sempre os dispensou em busca de uma proposta melhor. No entanto, quando os anos começam a bater em sua porta, o desespero invade Kitty e sua mãe. Ela precisa se casar urgentemente, ainda mais depois que sua irmã mais nova, Doris, arruma um casamento vantajoso.

É esta realidade que leva Kitty a aceitar o pedido feito pelo bacteriologista Walter Fane. Ele a amava profundamente. Ela estava, por sua vez, mais interessada naquilo que Walter iria lhe oferecer: uma vida longe da Inglaterra e, principalmente, da mãe – com quem ela tinha um relacionamento bastante difícil. Quando o casal já está com a morada estabelecida em Hong Kong, a Sra. Fane inicia um caso com o sedutor Charles Townsend. A descoberta da relação por Walter leva-o a tomar uma drástica decisão: ir de mala e cuia para uma região remota da China, onde ocorre um surto de cólera.

Aqui é importante começar a falar a respeito do filme “O Despertar de uma Paixão”, adaptação mais recente de “O Véu Pintado”. Se o filme de John Curran ressalta a distância que se estabelece entre os dois como um ponto de partida para a descoberta do amor; o livro de W. Somerset Maugham enfatiza que a distância entre Kitty e Walter é irreversível e o perdão impossível.

W. Somerset Maugham, ao contrário do roteirista Ron Nyswaner (de “O Despertar de uma Paixão”), não romantiza Kitty e, muito menos, dá a possibilidade para ela se redimir de seus erros. No livro, as falhas de caráter de Kitty são nítidas e, ao final da leitura, a gente realmente se pergunta se ela se transformou e aprendeu com todos os seus equívocos. Enfim, Maugham nos apresenta uma mulher completamente diferente daquela que vemos nas ruas de Londres nos momentos derradeiros de “O Despertar de uma Paixão”.

Para ler:
“O Véu Pintado” (1925)
Autor:
W. Somerset Maugham
Editora: Record

Para assistir:
“O Despertar de uma Paixão” (2006)
Diretor:
John Curran
Roteiro: Ron Nyswaner
Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Diana Rigg, Toby Jones

16 comments:

Museu do Cinema said...

Sabe que eu dormi vendo esse filme, ainda vou dar uma segunda chance a ele.

Gostei da "parabola" que destacou no post. Pelo menos bem escrito o livro é.

Wally said...

Kamila, adoro o filme e fiquei com vontade de ler o livro, mas se tem um livro de romance que to morrendo para ler é Atonement, rsrsrs, acabei de ver o filme e ainda estou impressionado.

Bem, só tenho vontade de trucidar quem foi que escolheu o nome O Despertar de uma Paixão, já que O Véu Pintado é muito, muito mais bonito e sutil.

Ciao!

Vinícius P. said...

Como dificilmente irei conferir essa obra (apesar de interessante, não é meu tipo de romance preferido), já posso comentar um pouco pela visão do filme. Pode conter algum SPOILER para quem ainda não viu. Soube que seus finais são um tanto diferentes, especialmente sobre essa questão da personagem Kitty que você comentou. Aparentemente no filme ela aprende com seus erros e permanece "fiel" ao Walter mesmo após sua morte. Já no livro ela ainda tem uma recaída pelo amante ou algo do tipo - para depois 'cair na real', o que não fica tão claro para o leitor como percebi com seus comentários.

E lembrando dessa cena final de "O Despertar de uma Paixão" até me emociono - e que trilha maravilhosa...

Abraço.

Vinícius P. said...

Ah, e uma coisa que esqueci de perguntar: você gostou mais da visão diferenciada mostrada no filme ou preferia um final menos "romantizado".

Kamila said...

Cassiano, não creio que você dormiu assistindo "O Despertar de uma Paixão". O livro é super bem escrito e o filme tem uma trama muito bem contada.

Wally, tendo lido "Reparação", te digo que o livro é tão bom quanto o filme. Eu até entendo o nome "O Despertar de uma Paixão", não compreendo "O Véu Pintado" - já que, na obra, não temos nenhuma referência ao tal véu.

Vinícius, eu acho que "O Despertar de uma Paixão" melhora o livro do W. Somerset Maugham. Gostei muito mais da versão diferenciada do filme.

ATENÇÃO AOS SPOILERS:
No livro, realmente, Kitty tem uma recaída com Charlie e NUNCA demonstra qualquer vontade de se reconciliar com Walter. Ela só encontra a serenidade que procurava.

Já no filme, a Kitty passa por uma mudança profunda. Ela aprende que o dever e o amor andam lado a lado e se torna "fiel" ao Walter. Ela compreende seus erros e modifica o curso de sua vida a partir deles. Por isso que eu gosto mais do filme.

Museu do Cinema said...

Pois creia Kamila, dormi ainda nos flashbacks do inicio de namoro, e quando são apresentados a um casal, e ele fica com ciumes.

Wally said...

Kamila, acho que o nome O Véu Pintado é mais metafórico, não um véu literal, como aquele de Harry Potter. Acho que tem muito a ver com o fato de que um véu separava ambos, um não conseguia compreender o outro, não exergavam a paixão que sentiam um pelo outro, pelo menos a personagem da Kitty. Bem, é o que penso, posso estar enganado.

Ciao!

Rodrigo Fernandes said...

agora fiquei com vontade de ler o livro, acho esse filme muito bonito, um dos poucos da minha lista de romances que são bonitos, bem feitos sem se tornar melosos e repetitivos...
abraços

Rogerio said...

Acho que apesar de mudar drasticamente o ruma das coisas no filme, creio que foi uma opçao inteligente do roteirista em dar esperança aos espectadores quanto a possibilidade de os dois ficarem juntos.
No geral as coisas ficam mais interessantes quando se tem posibilidade de mudança, justamente pra nao fazer as pessoas dormirem no filme, como nosso colega Cassiano hehe.

Kamila said...

Cassiano, então você não viu quase nada do filme.

Wally, pode ser uma metáfora nesse sentido, de que os dois não se conheciam direito e que, aos poucos, iam tirando esses véus que ficavam entre eles...

Rodrigo, li o livro por causa do filme, que despertou essa curiosidade em mim. Mas, como disse, se pudesse escolher entre as duas obras ficaria com o filme.

Rogerio, eu adoro histórias de redenção, em que os personagens se transformam e modificam o rumo de suas vidas. Talvez, por isso, tenha gostado mais do filme do que do livro.

Ramon Scheidemantel said...

Nooooossa, Kamila! Então que nem fizessem o filme; Mudar o final e toda mensagem da obra para vendê-la como sétima arte é absurdo. Em que mundo vivemos? Apesar de ter gostado do filme, acho repulsivo a obra ter revertido todo significado de perdão e amor do dois dois.
Enfim... nunca li o livro, mas deve ser uma grande obra. O filme também o é, mas poderia ter sido vendido com outro nome.
Bom saber disso. Belo post!

Romeika said...

Bom, ainda bem que existem roteiristas que alteram finais e significados, desde que sejam pra engrandecer/melhorar uma obra. Afinal, se chamam roteiros adaptados, e nao roteiros copiados ou palavras e imagens filmadas. Nossa, como estou de mau humor.

Kamila, tendo lido o livro e visto o filme assim como vc, partilho de uma opiniao semelhante a sua. Prefiro a atitude da Kitty no filme, pois por exemplo, aquela certa recaida, apesar de ser mais complexa do que apenas uma simples "recaida" no livro, ecowwww... Prefiro a Kitty triunfante e digna, apesar de todos os reveses.

Gostei da comparacao que vc fez entre as duas obras e da citacao que vc extraiu do livro, que diz muito da personalidade da Kitty e de como a relacao entre ela e o marido vai mudar da agua para o vinho nas linhas seguintes.

Pedro Henrique said...

No momento estou lendo um de quase 900 páginas, mas assim que terminar, "O Véu Pintado" entrará na minha lista.

Kamila said...

Ramon, eu sou da turma que defende que adaptações cinematográficas são uma obra independente daquela que a originou. Acho que o filme tem que engrandecer o livro e mudar, sim, certos aspectos dele. Não precisa ser tudo literal. A criatividade por parte do roteirista deve existir, desde que esteja dentro do tema principal do livro.

Romeika, você não está de mau humor. Eu concordo com tudo o que você escreveu. Prefiro a Kitty do filme, uma mulher triunfante e digna. Ler o livro para mim foi até bastante esclarecedor. Foi quase um choque de realidade, afinal a diferença entre ele e o livro é tão grande.

Pedro, se puder, leia mesmo esta obra.

Ramon Scheidemantel said...

Uhmm... ok! Mas mudar a essência da obra é sacanagem, não?

"...enfatiza que a distância entre Kitty e Walter é irreversível e o perdão impossível."

Essas palavras mostram o quanto o filme destoou do livro.

Kamila said...

É verdade, mas, como te disse, Ramon, prefiro essa mudança. Acho que o filme melhora o livro.