Monday, February 25, 2008

Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, 2007)

“Onde os Fracos Não Têm Vez”. Poucas vezes os tradutores de títulos de filmes acertaram tanto. É bom prestar atenção nessa pequena titulação porque ela irá dizer muita coisa a respeito do filme dos diretores e roteiristas Joel e Ethan Coen. Toda a trama da obra se passa no Estado do Texas, uma das localidades mais tradicionais dos Estados Unidos. E é justamente em algumas cidades de lá que se passará uma verdadeira onda de violência, em que aquele que, necessariamente não é o mais forte, mas sim o mais esperto e possuidor de sangue frio irá prevalecer.

Llewelyn Moss (Josh Brolin, numa sólida atuação) é um veterano da Guerra do Vietnã, que está caçando em uma floresta próxima ao Rio Grande quando tropeça em uma série de corpos em estado de putrefação. Na cena do crime, ele encontra uma enorme quantidade de heroína e uma maleta abandonada. Ela contém dois milhões de dólares. Llewelyn toma a atitude que qualquer outra pessoa naquela situação faria e pega a maleta. A ação a seguir é que irá definir seu destino: ao invés de procurar a polícia e relatar o que viu – e pegou –, Moss elabora um plano para usar a maleta em seu próprio benefício.

Anton Chigurh (Javier Bardem, em uma performance que lhe rendeu o Oscar 2008 de Melhor Ator Coadjuvante), à primeira vista, é um cara meio bizarro com aquele corte chanel bem escovadinho. No entanto, por trás dessa aparência existe um assassino frio e calculista. Um verdadeiro psicopata que não quer saber e tira da frente qualquer um que se põe em seu caminho. Ele está atrás da maleta que está sob a posse de Llewelyn Moss. E o caçador se torna o seu maior alvo.

No meio dessas duas figuras, encontramos o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones, um ator que é simplesmente perfeito para esse papel). Se as ações de Llewelyn Moss e Anton Chigurh movem a trama de “Onde os Fracos Não Têm Vez”, é no caráter de Ed Tom Bell que encontramos a espinha dorsal do filme. O xerife é uma figura à moda antiga e que acredita na honra e na capacidade da verdade, da lei e da justiça. O problema é que, na terra em que a brutalidade de Chigurh é a penalidade mais usada, os valores de Ed Tom Bell estão fora de moda.

Baseado no livro de Cormac McCarthy, “Onde os Fracos Não Têm Vez” é o filme mais aclamado de 2007, inclusive sendo o maior vencedor do Oscar 2008 – razões para isso não faltam, como a ótima performance do elenco, as metáforas presentes no roteiro e a excelente fotografia de Roger Deakins. Críticos enxergam na história destes três personagens um estudo sobre a violência e a corrupção. No entanto, esta é mais uma obra sobre a vontade ou não de participar de um mundo em que valores como esses são as palavras de ordem. E isto está muito bem representado pela narração final de Ed Tom Bell, quando ele retrata para a esposa um sonho que teve com seu pai. O que os irmãos Coen querem nos mostrar é que a idéia de mundo que a gente tinha morreu. A gente precisa mais é acordar.

Cotação: 7,2

Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men, EUA, 2007)
Diretor(es): Ethan Coen, Joel Coen
Roteirista(s): Joel Coen, Ethan Coen (com base no livro de Cormac McCarthy)
Elenco: Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson, Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Tess Harper, Barry Corbin, Stephen Root, Rodger Boyce, Beth Grant, Ana Reeder, Kit Gwin, Zach Hopkins, Chip Love

16 comments:

Otavio Almeida said...

É isso mesmo, Kamila!

Agora, Oscar de Melhor Filme? Por favor...

Bjs!

Vinícius P. said...

O que eu acho bacana é que boa parte dos blogueiros reconheceram que "Onde os Fracos Não Têm Vez" não é uma obra irretocável. Quero dizer, adorei o filme (tenho um grande problema com o seu desfecho, apenas) e fico até satisfeito pelo reconhecimento dos irmãos Coen, mas claramente não merecia ser tão festejado. Enfim, opiniões...

Abraço!

Weiner said...

Eu adoro este filme, é uma obra daquelas para ficar na história - especialmente pela maneira como aborda a ganância e a violência - e claro, pelas atuações, roteiro e direção muito competentes. Mas dentre os indicados ao Oscar, filmes igualmente poderosos, até mais, eu diria, pelo fato de tratarem melhor com a emoção do público, era o que menos preferia para levar o Oscar.
Porém, está feito. E não estou tão triste.
Nota: 9,0

Museu do Cinema said...

Precisamos acordar mesmo Kamila.

E eu preciso ser mais benevolente com esse filme.

Ele não é o melhor filme dos cineastas, não tem pessoa sã que negue isso, mas tá longe de ser filme ruim, o problema dele é que encarou pela frente Sangue Negro que é um filme irretocavel.

Mas vc foi feliz em retratar isso, o mundo que vivemos onde os fracos não tem vez, e pelo dialogo final, mostra que Cormac perdeu as esperanças.

Rodrigo Fernandes said...

ótimo texto Kamila...Javier foi merecido ter ganahdo o Oscar, já era hora...
tava entre sangue negro e ele para os grandes premios... só achei que sangue negro poderia ter levado mais, além dos obvios...
beijos

Kamila said...

Otavio, tentei ser o mais imparcial possível no meu texto, mas já tinha te dito que o filme não me cativou. Por enquanto, "Juno" ainda é meu favorito. Preciso ainda assistir "Sangue Negro".

Vinícius, eu concordo com você!

Weiner, dos filmes que eu assisti, também era o meu menos favorito para levar o Oscar de Melhor Filme.

Cassiano, eu tentei ser benevolente com esse filme e acho que consegui. Ao assistir a esta obra, cheguei à conclusão de que o cinema dos Coen não é para mim. Eles não conseguem despertar em mim o mesmo entusiasmo que despertam em você, por exemplo.

Rodrigo, obrigada. Também achava que "Sangue Negro" iria sair com mais Oscars ontem à noite.

Pedro Henrique said...

Eu amo esse filme mais pela atuação de Bardem do que por qualquer outra coisa.

Abraço!!!

Rogerio said...

Já tinha dito isso antes e falo novamente. Acho incrivel como esse filme teve tanta premiaçao. Ele é filme para cinéfilos, com todos aqueles detalhezinhos e suposiçoes sobre a maleta, matou ou nao matou, origens etc.

Falei com pessoas que vao ao cinema acidentalmente, e odiaram o filme, nao entenderam nada.

Mesmo assim, ja falaram que só ofuscou por causa da magnitude de Sangue Negro (Quando vc vir esse filme vai entender), mas "Onde os fracos..." é bem acima da média, todo perfeito tecnicamente.

Museu do Cinema said...

Entendo Kamila, assim como entendo que, apesar de não gostar, vc reconhece o talento deles e o espirito cinéfilo que suas obras possuem.

Kamila said...

Pedro, o Bardem está muito bem, mas o elemento que mais me agradou neste filme foram as metáforas do roteiro, essa dicussão entre o velho e o novo.

Rogerio, isso é verdade. "Onde os Fracos Não Têm Vez" é um filme bem acima da média e acredito que seja uma obra que não agrada a muita gente justamente porque o cinema dos Coen não é para todos.

Cassiano, com certeza. Sei reconhecer o valor e a importância que os Coen e seus filmes têm para o cinema. E acho que, no final, isso é o importante.

Vulgo Dudu said...

Muito boa a sua resenha. Eu acho que o filme remonta os westerns de antigamente, tanto no que diz respeito ao decoro, quanto aos valores. A violência apenas permeia a trama porque não poderia ser diferente.

Bjs.

André Renato said...

Todos os elementos deste filme (direção, roteiro, fotografia, atores, montagem, direção de arte e design de produção) são muito bem equilibrados e confluem com toda a sua força para a apresentação da história e dos temas mais profundos do filme. Este é o grande valor desta obra, que a faz superar consideravelmente "Sangue Negro" (que não é de todo ruim em si mesmo). Valeu!

Wally said...

No Oscar, eu preferia Atonement, mas faço parte da legião que idolatra Onde os Fracos Não Tem Vez. Acho um filme muito, muito, muito bom. Repleto de valores, principalmente técnicos e do elenco, ainda se revela uma metáfora maravilhosa sobre nossa sociedade cinica e pessimista. Adorei cada segundo, inclusive o final, do qual adorei.

Nota 9,5

Ciao!

Kamila said...

Dudu, interessante a sua análise, já que eu pensei muito nos filmes westerns assistindo a este filme. Os valores e o decoro podem ser encontrados, principalmente, no personagem do Tommy Lee Jones.

André, depois que eu assistir a "Sangue Negro", posso dizer se concordo ou discordo de seu comentário.

Wally, mesmo não compartilhando de muito de seu entusiasmo com o filme, concordo com certas coisas que você falou.

Romeika said...

Parece um filme pessimista-realista, Kamila. Achei sua resenha o que mais de interessante já li sobre esse filme, que confesso, só tinha me despertado o interesse devido ao zum zum zum sobre o mesmo. Devo vê-lo esse fds.

Kamila said...

Romeika, "Onde os Fracos Não Têm Vez" é mesmo uma obra pessimista-realista. Assisti ao filme também pelo zum zum zum, já que não sou a maior fã do cinema dos Coen.