Tuesday, February 26, 2008

Táxi Para a Escuridão (Taxi to the Dark Side 2007)

Aqui, no Cinéfila por Natureza, já falamos bastante a respeito de como os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 não só mudaram o mundo, como influenciaram uma série de livros e filmes sobre o que havia ocorrido ali. O documentário vencedor do Oscar 2008 “Táxi Para a Escuridão”, do diretor Alex Gibney, é mais um desses "filhos do atentado" e dialoga muito mais com filmes como “O Suspeito”, de Gavin Hood, já que tem uma história que versa sobre como os direitos constitucionais foram modificados de forma que o governo Bush pudesse ter subsídios em sua guerra contra o terror.

O título do documentário é uma referência direta ao que aconteceu com o taxista Dilawar, que, em 2002, saiu de sua casa, no Afeganistão, para trabalhar e foi entregue por milícias afegãs ao Exército norte-americano. Levado para uma prisão local, Dilawar morreu poucos dias depois devido às técnicas alternativas de interrogatório – ou seja, tortura física e psicológica. O laudo da autópsia indicou como causa da morte: homicídio.

Quem são os culpados pelo que aconteceu com Dilawar? É a partir do caso do taxista que "Táxi Para a Escuridão" destrincha tudo o que acontece por trás das prisões do terror, como Abu-Ghraib e Guantánamo; e mostra, principalmente, como o governo de George W. Bush modificou a própria Constituição do país de forma que a tortura passasse a ser um instrumento legítimo em busca de informações que possam ser úteis à guerra contra o terror – a ironia é que, quem pagou o pato no caso de Dilawar, foram os peixes pequenos (os soldados que acataram as ordens vindas de cima), enquanto que aqueles que têm o poder continuam por aí.

Mahatma Gandhi, talvez, o mais pacífico dos lutadores, falou uma certa vez que, se o homem fosse seguir à risca a política do “olho por olho, dente por dente”, ele já teria se tornado um cego. Aqueles que concordam com as práticas adotadas em prisões como as de Guantánamo e Abu-Ghraib falam do sentimento de vingança. Mas, esta é uma tese que vem abaixo quando “Táxi Para a Escuridão” reproduz aquela que é a voz mais sensata no meio de tanta “loucura”: a do Senador do Partido Republicano e pré-candidato à presidência dos Estados Unidos, John McCain, que fala que os terroristas podem ser seres humanos execráveis, mas nada justifica a perda da dignidade e a humilhação. Quer fazer o que é correto? Prenda-os, construa um caso e os julgue num tribunal.

Cotação: 8,0

Taxi to the Dark Side(Taxi to the Dark Side, EUA, 2007)
Diretor(es):
Alex Gibney
Roteirista(s): Alex Gibney
Com as aparições de: Alex Gibney, Brian Keith Allen, Moazzam Beg, Willie Brand, George W. Bush, Dick Cheney, Jack Cloonan, Damien Corsetti, Thomas Curtis, Greg D'Agostino, Carlotta Gall, Tim Golden, Gita Gutierrez, Scott Horton, John Hutson

16 comments:

Otavio Almeida said...

Quero muito ver esse documentário. E não sei se vai passar em algum lugar... Mas é muito bom ver um comentário positivo sobre algo raro.

Bjs!

Rogerio said...

Nossa Kamila, onde vc viu esse filme?

Pedro Henrique said...

Bom, parece que a academima não se equivocou na escolha de melhor documentário.

Abraço!!!

Kamila said...

Otavio e Rogerio, este documentário está passando no canal Futura. Tive a oportunidade de assistí-lo no sábado, véspera do Oscar 2008. E, se puderem, aproveitem a chance de assistir ao filme porque, nem nos EUA, o documentário conseguiu uma distribuição boa.

Pedro, mesmo sabendo da qualidade do documentário, fiquei surpresa demais quando ele foi anunciado o vencedor. Pensava que "No End in Sight" iria vencer, já que foi a obra mais aclamada do gênero, em 2007.

Vinícius P. said...

Quero muito ver esse documentário, especialmente depois do Oscar. Fiquei curioso desde que o primeiro pôster do filme foi proibido nos Estados Unidos, especialmente por conter dois soldados escoltando um prisioneiro e a bandeira americana fazendo uma sombra - comentei no blog que foi um absurdo, visto que cartazes ofensivos como de fitas de terror estilo "O Albergue" não são proibidos pelo simples fato de serem obras de ficção.

Bela crítica!

Kamila said...

Vinícius, obrigada. E o pior é que "Táxi Para a Escuridão" nem teve distribuição garantida nos EUA. Os produtores reclamaram disso no discurso de agradecimento e até o Rubens Ewald Filho fez o mesmo comentário.

Rodrigo Fernandes said...

ah.. eu quero o canal Futura... ele não tem aqui na minha Tv a cabo, hehehe...
confesso que o conheci atraves da cerimonia do oscar e já me chamou a atenção a descrição dele e poucas cenas que foram mostradas na cerimonia... espro cnseguir acha-lo em algum lugar...
É Kamila, parece que cada vez mais as pessoas se sobressaem com os poderes que possuem e abusam deles, comentendo injustiças dolorosas a troco apenas do medo... é o que aconte com as prisoes de Abu-Ghraib, comov c bem mencionou... vi o ótimo domunetario sobre ela e realmente é lamentavel que quem acabe pagando memso o pato como vc disse são os peixes, enquanto os tubarões estão por aí, exibindo seus dentes sujos de sangues inocentes...
mas por outro aldo, que bom que existem pessoas que tem a coragem de produzir tais filmes, documentários.. alertar a sociedade para todo esse mal...e melhor ainda o Oscar (assumidamente uma premiação americana e uq epor diversas vezes exalta o american-life..) teve a coragem de assumir que tal documentário é digno do premio...

Wally said...

No Futura Kamila? Oba! Vou procurar para ver se vai repetir...gostei de seu texto. ;)

Ciao!

Weiner said...

É, deve mesmo ser um belo documentário. O título é bem impactante, e o tema político deve despertar minha atenção.
Abraço!

Johnny Strangelove said...

Assim Milla ... filme queimando os US and A não tem nenhum tipo de distribuição no proprio pais ... vide O Caminho Para Guantanamo que só teve os mizeros 15 cinemas em todo o pais e enquanto outros filmes que ressaltam a importante e nacionalismo ufanista e utopica ganham largas campanhas publicitarias e colocam em todos os cinemas ... vide Vôo Sonolento 93 ...

Quero ver urgentemente esse documentario e o que dizes no final da resenha pode ser o coerente ... mas quem disse que eles entendem de coerencia?

beijos

Museu do Cinema said...

Eu adoro temas polêmicos, e esse definitivamente é.

Eu desconfio sempre dos republicanos, afinal o Bush é um, e os melhores momentos dos EUA foram com presidentes democratas.

Ghandi foi o grande pensador da violência, se metade das coisas que ele dizia fosse seguidas, não teriamos Onde os Fracos não tem Vez.

Quero ver esse, tá nos cinemas? dvd? sky?

Museu do Cinema said...

Ah Kamila, como vc comentou lá no blog veja ai o que eu comentei do Obrigado por Fumar:

http://museudocinema.blogspot.com/2006/08/obrigado-por-fumar.html

Romeika said...

Kamila, pelas suas palavras, esse documentário é o que melhor refletiu sobre esses tempos pós-11/09, digo isso com relação aos filmes produzidos ano passado, os quais não vi, mas que não foram muito aclamados.

Kamila said...

Rodrigo, concordo plenamente com seu comentário. Acho ótimo que o Oscar premie obras como essa para chamar a atenção para estes temas, que são sérios e merecem nossa discussão.

Wally, obrigada!

Weiner, é um belo documentário. Como o Futura passa uma versão resumida, eu ainda quero assistir à obra de forma completa.

João, bom, as ações deles não são coerentes, mas é importante que exista uma voz coerente ali dentro. Tomara que elas ganhem mais força nos EUA, ao invés da babaquice.

Cassiano, também gosto de temas polêmicos e desconfio dos republicanos. O documentário pode ser visto no canal Futura (que tem na TV Paga e pega em algumas parabólicas). E vou ver seu texto sobre "Obrigado por Fumar".

Romeika, este filme é um dos bons sobre o pós-11 de Setembro.

Ramon Scheidemantel said...

Belo texto. Deve ser uma grande obra, merecedora de seu Oscar.
Gostei das reflexões, só que no caso do Sadam Hussein eles levaram a julgamente e depois mataram! hehe!

Kamila, o filme é sensacionalista como os documentários de Michael Moore?
Assim que puder, vou conferir.

Kamila said...

Ramon, o filme não é nada sensacionalista. O diretor se posiciona em relação ao tema, mas nunca é intransigente como o Michael Moore. Ele baseia sua teoria em fatos e opiniões.