Wednesday, February 21, 2007

Cartas de Iwo Jima (Letters From Iwo Jima, 2006)


Quando estava fazendo aquela obrigatória pesquisa sobre a batalha de Iwo Jima para o filme “A Conquista da Honra”, o diretor Clint Eastwood ficou apaixonado pela figura do General Kuribayashi, que liderou o exército japonês contra os norte-americanos naquela ocasião. Como “A Conquista da Honra” trata da batalha sob o ponto de vista dos Estados Unidos, Eastwood teve uma idéia ousada: filmar a mesma história sob o ponto de vista japonês. Após uma pequena persuasão aos produtores que financiaram “A Conquista da Honra”, Eastwood começou a pré-produção de “Cartas de Iwo Jima”.

De uma certa maneira, “Cartas de Iwo Jima” aprofunda algumas das questões levantadas em “A Conquista da Honra”. Se o filme japonês deixa de lado os efeitos que a guerra tem nos soldados que dela participam, ele compartilha algo muito importante com o filme norte-americano: a discussão sobre a figura do herói – ou, mais precisamente, sobre o que faz de um homem um herói. Além disso, “Cartas de Iwo Jima” discursa sobre sentimentos como o medo e a sensação de fracasso.

Neste sentido, o fracasso está ligado a uma velha tradição japonesa: a do suicídio como saída honrosa perante a falha. Quando Clint Eastwood e os roteiristas Iris Yamashita e Paul Haggis nos apresentam os soldados japoneses que se encontram no monte Suribachi, eles estão em clara desvantagem se comparados aos norte-americanos. Há, do lado japonês, a escassez de homens, de armas, munições e aviões. O exército japonês, então, designa o General Kuribayashi (uma belíssima interpretação de Ken Watanabe) – que recebeu treinamento nos Estados Unidos e, portanto, conhece o modo norte-americano de se pensar – para comandar a tropa japonesa no local.

A estratégia adotada por Kuribayashi para defender o monte Suribachi do exército norte-americano não é suicida, como muitos acreditam; e sim realista. O General sabe das poucas chances que os japoneses têm de vencer os norte-americanos, então a sua vitória será fazer com que os seus soldados lutem ao máximo e resistam às idéias de suicídio coletivo ou da rendição – é aqui que entra a importante trama paralela que acompanha o padeiro transformado em soldado, Saigo (Kazunari Ninomiya, numa ótima interpretação), que anseia voltar para a sua família são e salvo, apesar das evidências indicarem justamente o contrário.

“Cartas de Iwo Jima” dialoga muito com “A Conquista da Honra”. Assim como aconteceu no filme norte-americano, Clint Eastwood demonstra, no filme japonês, um pleno domínio de seu ofício. No entanto, não dá para a gente conter a impressão de que, em “Cartas de Iwo Jima”, tudo é melhor. A começar pela fotografia em tons cinzentos de Tom Stern e pela linda canção de ninar composta por Kyle Eastwood (filho do diretor) e Michael Stevens. No entanto, o que mais difere “Cartas de Iwo Jima” de “A Conquista da Honra” é que o filme japonês possui um elemento que falta à película norte-americana: coração. Desde o início fica bem claro que Eastwood se interessa muito pelos soldados japoneses e quer saber quem eles são, de onde vieram e o que esperam. Contudo, a alma de “Cartas de Iwo Jima” se encontra na figura do General Kuribayashi. É ele quem representa todos os temas que o filme aborda – o medo do fracasso, a impotência frente a um futuro que não existe e o adiamento ao máximo do inevitável (a morte).

Ao entregar duas obras sobre um único acontecimento da II Guerra Mundial, Clint Eastwood acabou fazendo um belo ensaio sobre a luta armada. O que se tira de “A Conquista da Honra” e, principalmente, “Cartas de Iwo Jima” é que a guerra, além de injusta, é desigual e cruel. O importante, Eastwood mostra, é manter a coerência e honrar aquilo em que cada ser acredita. Por isso, quem conhece um pouco do caráter e da personalidade de Eastwood compreende logo o por quê de sua admiração à figura do General Kuribayashi. Na maior das batalhas – a da vida –, os dois entenderam que é da resistência que vem a maior das vitórias.

Cotação: 9,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Thursday, February 15, 2007

Perfume - A História de um Assassino (Das Parfum - Die Geschichte Eines Mörders, 2006)


O senso comum nos diz que os olhos são a janela para a alma. O filme “Perfume – A História de um Assassino”, do diretor alemão Tom Tykwer (também co-autor do roteiro do filme ao lado de Andrew Birkin e Bernd Eichinger), fala justamente o contrário: a fragrância que cada ser possui é a representação de sua alma. O filme todo se apóia num dos sentidos que nós possuímos – o do olfato – e usa justamente essa maneira de perceber as coisas que estão ao nosso redor para construir toda a personalidade de seu personagem principal, Jean-Baptiste Grenouille (Ben Whishaw).

Grenouille nasceu em Paris, capital da França, em um mercado de carnes, peixes, frutas e legumes, ou seja, um local de cheiro muito característico. A sua primeira comunicação com o mundo não foi nem através do choro (como é comum ao resto dos bebês), e sim através da tentativa de sentir as diversas fragrâncias que o rodeavam. Essa busca por tentar compreender o mundo através dos seus diversos cheiros vai ser uma constante na vida de Grenouille – seja no orfanato aonde ele passou a infância ou no local aonde ele trabalhou durante muito tempo como escravo.

A trama de “Perfume – A História de um Assassino” começa a dar uma virada quando Grenouille conhece Giuseppe Baldini (Dustin Hoffman), um homem que hoje é somente o resquício do grande perfumista que um dia ele foi. Grenouille causa uma impressão muito grande em Baldini, pois tem uma vocação natural para perceber a composição de certos perfumes. Os dois, então, estabelecem um acordo entre si: Baldini compra Grenouille de seu dono e, em troca de diversas fórmulas novas para criar seus perfumes, ensina todo o ofício para seu dedicado aprendiz – e, em especial, uma técnica de conservação de fragrâncias, algo que interessa muito a Grenouille.

No segundo ato, Grenouille – já livre da influência de Giuseppe Baldini – começa a fazer seu próprio caminho como perfumista. Mas, para ele, a verdadeira obsessão não era a criação de novos perfumes, e sim os experimentos que ele faz em busca de encontrar uma maneira de conservar permanentemente o cheiro que cada ser possui. Nesse sentido, Grenouille levará a sua arte aos limites quando se transforma em um serial killer que mata garotas no auge de sua beleza física – a sua presa mais cobiçada será a jovem Laura Richis (Rachel Hurd-Wood), filha do poderoso Antoine Richis (Alan Rickman). E, como todo assassino serial, Grenouille guarda como lembrança de suas vítimas os perfumes que ele faz a partir das fragrâncias de seus corpos.

Baseado num livro de Patrick Suskind, “Perfume – A História de um Assassino” é um filme que revela a versatilidade de Tom Tykwer, um diretor de filmes mais urbanos, mas que aqui tem seu estilo perfeitamente encaixado em um filme de época. À boa direção de Tykwer, podemos adicionar como elementos expressivos em “Perfume – A História de um Assassino”, a fotografia, a direção de arte e os figurinos. No entanto, o filme começa a pecar quando está bem perto de seu final. A maneira pela qual Tykwer decidiu concluir seu filme não é satisfatória e romantiza muito as causas por trás da obsessão de Grenouille. Ao invés de tentar ser diferente, Tykwer deveria ter sido convencional na sua conclusão.

Cotação: 6,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Wednesday, February 14, 2007

Rocky Balboa (2006)


Para parafrasear um pouco da linguagem esportiva, a história do personagem Rocky Balboa sempre foi um azarão, nunca a favorita. Sylvester Stallone – que, em 1976, ainda não era o astro no qual se transformou – ficou fascinado por uma história de um boxeador que, contra todas as chances, conseguia se superar e enfrentar de igual para igual o seu adversário; e decidiu fazer um roteiro. Até que “Rocky – Um Lutador” chegasse à grande tela, muita coisa aconteceu e o próprio Stallone conseguiu convencer os produtores da força de sua história e da importância que seria para ele estrelar este projeto. A aposta de Stallone provou-se correta, uma vez que “Rocky – Um Lutador” foi indicado a 10 Oscars, e ganhou as estatuetas de melhor direção (para John G. Avildsen), edição e, para surpresa geral, a de melhor filme.

Após algumas continuações de gosto duvidoso, Sylvester Stallone traz de volta o seu personagem no filme “Rocky Balboa”, que ele dirigiu e roteirizou. No filme, Rocky se aposentou dos ringues e virou o dono de um restaurante. De certa maneira, Rocky vive preso ao passado de glória como lutador (contando suas histórias aos clientes de seu restaurante) e como esposo de Adrian (a personagem de Talia Shire, que, no filme, faleceu recentemente). Esse “fardo” que ele carrega, o impede de ter uma relação harmoniosa com o filho Robert (Milo Ventimiglia), que tenta fugir como o diabo da cruz do peso que carrega o nome de seu pai.

Ao mesmo tempo em que lida com a decadência de Rocky, o filme analisa um pouco do cenário atual do boxe. O esporte virou um show e está – se possível – mais físico do que nunca. As lutas são decididas em questão de segundos – fato que não agrada aos fãs de boxe que pagam caro para ver lutas que duram cerca de um minuto. O supercampeão Mason Dixon (Antonio Tarver) é um representante perfeito deste novo boxe. Com a imagem arranhada, os empresários do supercampeão decidem convidar Rocky para uma última luta depois que um jogo de computador decreta que Rocky venceria Dixon em um cenário virtual. Ou seja, a luta representa uma chance para ambos os lutadores sentirem o gostinho novamente de uma glória que andava perdida.

O roteiro de Sylvester Stallone dialoga muito com o filme “Rocky – Um Lutador”. É como se Stallone – ao colocar Rocky treinando nas ruas da Filadélfia, socando carnes, superando dificuldades e subindo novamente as escadarias do Museu de Arte da Filadélfia ao som da clássica trilha de Bill Conti, “Gonna Fly Now” – estivesse tentando recuperar a essência do personagem e aquilo que o transformou em um ícone de garra e de superação para tantas pessoas.

De uma maneira muito peculiar, a trajetória de Sylvester Stallone e a de Rocky Balboa se confundem muito. Os dois experimentaram um grande sucesso. Os dois também vivenciaram uma decadência e se transformaram em uma relíquia do passado. E é a esse tempo que os dois recorrem. Se a luta com Mason Dixon significa para Rocky uma oportunidade de sair de cena de maneira honrosa, o filme “Rocky Balboa” representa para Stallone a chance de reviver a sua carreira. Se com Rocky não der certo, sempre tem aquele projeto de “Rambo 4” pronto para ser colocado em prática.

Cotação: 6,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, February 10, 2007

A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers, 2006)


Os retratos de uma guerra bem que poderiam ilustrar aquelas populares seções de revista que ganham o nome de “Antes/Depois”. É incrível a mudança pela qual passam os soldados que vivenciam uma guerra. Se no momento do embarque vemos imagens de jovens alegres e ansiosos, que estão conscientes e preparados para se tornarem heróis e darem a vida pelo seu país; no desembarque assistimos à chegada de seres que carregam em si as dores e as marcas dos fatos vivenciados na batalha.

Não é todo mundo que tem fibra para continuar a vida depois de testemunhar atos de extrema crueldade e de conhecer o sofrimento na sua mais pura forma. O filme “A Conquista da Honra”, de Clint Eastwood (que além de dirigir, produziu e compôs a trilha sonora original do filme), fala não só sobre um fato isolado da II Guerra Mundial (a batalha que se deu entre japoneses e norte-americanos, em Iwo Jima, no Japão, pelo controle do monte Suribachi), como também sobre os efeitos que o combate teve na vida de três homens: o enfermeiro da Marinha John “Doc” Bradley (Ryan Phillippe) e os soldados Rene Gagnon (Jesse Bradford) e Ira Hayes (Adam Beach).

Os três homens se tornaram um símbolo dentro de seu país graças a uma foto que mostrava um grupo de seis soldados erguendo uma bandeira dos Estados Unidos no monte Suribachi. A foto, nos Estados Unidos, se transformou em um símbolo da vitória, fazendo com que as pessoas recuperassem as suas crenças nas razões que levaram o país à guerra. Alçados à condição de heróis nacionais, Bradley, Gagnon e Hayes (os três sobreviventes do grupo que estava na foto) voltam aos Estados Unidos para fazerem uma turnê em diversas cidades com o objetivo de arrecadar dinheiro para a construção de tanques e navios e para a compra de armamentos e munições.

"A Conquista da Honra” retoma a II Guerra Mundial e a luta no monte Suribachi através de flashbacks – as lembranças de John Bradley, Rene Gagnon e Ira Hayes podem ser trazidas por um simples barulho ou saudação. Além disso, o filme é contado pela perspectiva das pessoas que estiveram em combate com os três heróis – e que são entrevistadas pelo filho de Bradley, James, que só descobriu que o pai foi herói de guerra depois da morte dele (o livro de James Bradley, por sinal, foi a obra que inspirou o roteiro de “A Conquista da Honra”).

Na época de seu lançamento, “A Conquista da Honra” foi muito comparado com o filme “O Resgate do Soldado Ryan”, de Steven Spielberg. A comparação entre os dois filmes chega a ser muito injusta. A única coisa que eles têm em comum é o fato de que se situam na II Guerra Mundial e por terem cenas de batalha extremamente bem dirigidas. Mas, ao contrário do filme de Spielberg, “A Conquista da Honra” mergulha naquele conceito (“seja um herói”) que é utilizado para persuadir jovens a se alistarem para participar de guerras. Afinal, o que é ser um herói? Eastwood mostra, através de seu filme, que construir a figura de um herói é fácil (e os norte-americanos são mestres nisso), mas se manter como herói é muito difícil. “A Conquista da Honra” revela que o heroísmo vem da luta diária e pode acontecer, por exemplo, quando um pai tem que lidar com seus próprios demônios e suas próprias lembranças e tenta proteger aqueles que ama de tudo isso - mesmo que isso venha ao custo de ter que esconder uma parte importante de sua vida deles.

Cotação: 7,2

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Friday, February 09, 2007

A Rainha (The Queen, 2006)


Na era da televisão, o nosso imaginário é povoado por imagens da Rainha Elizabeth II, da Inglaterra, que ascendeu ao posto em 06 de Fevereiro de 1952, aos 26 anos, logo após a morte de seu pai, o Rei George VI – quem quiser conhecer um pouco mais da história que levou George ao trono inglês, pode conferir o telefilme “Wallis e Edward”, que retrata o romance entre o Rei Edward VIII e a norte-americana Wallis Simpson, e de que maneira Edward preferiu o amor ao poder. De qualquer maneira, nenhuma câmera penetrou na alma e na mente da Rainha Elizabeth II como a do diretor inglês Stephen Frears no filme “A Rainha”.

O excelente roteiro do filme, que foi escrito por Peter Morgan (também co-autor do roteiro de “O Último Rei da Escócia”), retrata o que aconteceu na Inglaterra e, principalmente, nos bastidores do poder na semana seguinte à morte da princesa Diana em um acidente de carro, em Paris, no dia 31 de agosto de 1997. O contexto histórico do filme reflete um momento de mudança na Inglaterra, com a recente eleição do primeiro-ministro Tony Blair (o primeiro trabalhista da história a ser eleito para o cargo e que é interpretado no filme de maneira soberba por Michael Sheen, que foi injustamente esquecido pela Academia) pelo povo britânico.

O filme deixa de ser uma simples recriação de um momento da história para ser uma obra especial ao vermos a maneira pela qual Peter Morgan optou por contar a sua história. Por mais que ele tenha colhido depoimentos de pessoas que estiveram presentes nos bastidores daqueles dias, Morgan coloca sua própria interpretação sobre o fato e mergulha na mente, nos valores e nas convicções da Rainha Elizabeth II. A Rainha nos é apresentada como uma mulher altiva, forte e que preza muito a tradição. Tony Blair, ao contrário, é visto como um homem prático, moderno e muito mais preparado para o show que vem inevitavelmente ao lado do poder.

Todos sabemos que a família real britânica tinha seus problemas com Diana. A morte dela traz à tona toda a admiração que o povo britânico tinha por aquela que seria a sua futura rainha. A família real – a Rainha Elizabeth II (Helen Mirren), o Príncipe Philip (James Cromwell), a Rainha Mãe (Sylvia Sims) e o Príncipe Charles (Alex Jennings) – não consegue compreender isso. Cabe à Rainha Elizabeth II tentar entender os anseios do povo por um funeral público da Princesa e por fazer com que a família real demonstre o luto que está sentindo.

E é aqui que entra a interpretação já antológica de Dame Helen Mirren como Elizabeth II. Não é só a transformação física. São os gestos, o tom de voz, a postura. Mirren transpõe aquela barreira que poucos atores ultrapassam - na tela, não existe a pessoa Helen, e sim sua personagem. Como platéia, estamos entregues à Rainha. Na sua performance, Mirren nos mostra a mulher privada, em contraste com a imagem pública que conhecemos. Na visão da atriz, a Rainha Elizabeth II é uma mulher que entende o significado da palavra sacrifício (ela viu, afinal, a II Guerra Mundial e testemunhou o que o exercício do poder causou no seu pai) e que vê o desempenho do poder como algo que tem que ser feito na esfera privada – primeiro, para ser de valor ao legado de sua família e, em segundo lugar, para ser respeitada pelo seu povo.

A Rainha Elizabeth II de Mirren é uma mulher que se recusa a ceder àquilo que ela não acredita – e, principalmente, declina em aceitar a orientação de alguém (Blair) que, na cabeça dela, ainda não sabe que é o verdadeiro exercício de poder. Depois de muita reflexão, de algumas cenas fantásticas (como a conversa telefônica entre ela e Blair sobre qual a maneira correta de se vivenciar o luto e a que mostra a visão do veado pela solitária Rainha), Elizabeth II realiza a vontade do povo – e isso só acontece quando ela vê que o legado, o bom nome da família real e o regime monárquico em si podem sair prejudicados.

“A Rainha” é um filme muito simples e que não chama muito a atenção pelos seus elementos estéticos. Mas, a experiência de se assistir ao filme é única, não só pelas interpretações de Helen Mirren e Michael Sheen, como também pela direção de Stephen Frears e pelas palavras de Peter Morgan. O filme é especial, pois tem uma linda mensagem num tempo em que tanta gente está desiludida com os rumos políticos que o mundo toma. Através da análise do que aconteceu na Inglaterra após a morte da Princesa Diana, “A Rainha” mostra o verdadeiro poder que uma única ação pode ter para mudar o curso da história. Sem protestos ou uso de violência, o povo conseguiu com que a política, por um único momento, atendesse aos anseios populares. Além disso, o filme faz com que a figura da Rainha Elizabeth II, aquela senhora simpática que costumamos ver em rituais estritos ou como personagem principal de esquetes humorísticas, se torne objeto de admiração pela mulher que ela é. Nesse sentido, todas as reverências vão para Helen Mirren.

Cotação: 10,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, February 06, 2007

À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, 2006)


“E foi nesta época que eu pensei sobre Thomas Jefferson ao escrever a Declaração da Independência. Ele dizendo que nós temos o direito à vida, à liberdade, e à busca da felicidade. E eu pensei sobre como ele sabia que deveria pôr a palavra ‘busca’ ali, como se ninguém pudesse ter felicidade. Nós só poderíamos buscá-la”. Essa frase, dita por Chris Gardner (Will Smith, indicado ao Oscar 2007 de Melhor Ator), representa toda a essência do filme “À Procura da Felicidade”, do diretor italiano Gabriele Muccino.

O filme, que é inspirado em uma história real, conta a história de Chris, um homem inteligente, talentoso, mas que, devido às circunstâncias de sua vida – o pai ausente era somente uma delas –, teve que amadurecer muito cedo. Ao contrário de seus amigos, Chris saiu direto do colegial para encarar uma carreira militar – uma opção que é muito comum para os jovens que não têm dinheiro para bancar uma faculdade. A carreira na Marinha não foi longa e quando Chris se casou com Linda (Thandie Newton) e o filho Christopher (o estreante Jaden Christopher Syre Smith, filho de Will e Jada Pinkett Smith na vida real) nasceu, ele começou a se aventurar pelo ramo de vendas – mais precisamente de um equipamento médico.

“À Procura da Felicidade” se passa durante os anos 80, na época em que Ronald Reagan assumiu a presidência dos Estados Unidos e o país vivia uma época delicada na sua economia. Chris e sua família passavam pela mesma situação difícil. O salário de Chris e Linda já era todo comprometido com as dívidas que possuíam, a vida conjugal dos dois não existia e o ambiente familiar do casal não era feliz. Chris e Linda se separam e ele é quem fica com a guarda do filho Christopher – para cumprir uma promessa que ele havia feito no momento do nascimento do filho: a de nunca se afastar dele.

Com uma nova realidade e a obrigação cada vez maior de sustentar uma casa e o que sobrou daquilo que um dia foi uma família, Chris decide embarcar num sonho e na sua própria busca por aquilo que todos nós chamamos de felicidade. Ele abandona o ramo de vendas e aposta em uma nova carreira: a de corretor da bolsa de valores (porque todos eles pareciam ser tão felizes). Como nós iremos suspeitar, a trajetória de Chris no programa de estágio (que não oferece bolsa salarial e do qual somente um sairá empregado) não será nada fácil. Mesmo tentando proteger ao máximo o filho Christopher, é ao lado dele que Chris passará pelas maiores dificuldades. Mas, não se preocupem que o final feliz do filme está garantido.

“À Procura da Felicidade” se apóia única e exclusivamente na figura do ator Will Smith. E ele é, sem dúvida, um dos atores mais carismáticos de Hollywood. Não precisava nem dele na tela para fazer com que a gente se identificasse com a inspiradora história de esforço, de perseverança, de superação e de vitória de Chris Gardner. Também não precisava nem o diretor Gabriele Muccino utilizar alguns mecanismos para fazer a gente chorar, pois as lágrimas vêm naturalmente.

A trama do filme em si, que foi criada por Steve Conrad, é uma grande propaganda do sonho americano. Os norte-americanos, como povo, podem sempre estar com sua imagem arranhada; mas os Estados Unidos, como país, vão sempre representar a idéia da terra do progresso e das oportunidades. Histórias como a de Chris Gardner só mostram que o sonho está mais vivo do que nunca. E a maior prova disso é o sucesso que “À Procura da Felicidade” vem obtendo nas diversas partes do mundo e, especialmente, no próprio Estados Unidos.

Cotação: 7,8

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, February 03, 2007

Babel (2006)


No brilhante início de “O Senhor das Armas”, filme do diretor e roteirista Andrew Niccol, o personagem de Nicolas Cage, um traficante de armas chamado Yuri Orlov, faz uma afirmação que cai como uma luva para o que assistiremos em “Babel”, última (literalmente) parceria da dupla mexicana formada pelo diretor Alejandro Gonzalez-Iñárritu e pelo roteirista Guillermo Arriaga: é impossível controlar o que acontecerá com as armas e as munições a partir do momento em que elas deixam as fábricas ou os pontos de venda.

Em “Babel”, o caminho que uma arma percorre é bem menos tortuoso do que o delineado pelo início do filme “O Senhor das Armas”. Um japonês (Kôji Yakusho), fanático por caças, vai ao Marrocos e deixa de presente a sua espingarda para o homem que lhe serviu de guia naquele período. Esse homem, por sua vez, vende a arma para um vizinho, que deixa o seu “brinquedo” nas mãos dos dois filhos, que usarão o rifle para espantar os lobos que teimam em se alimentar das parcas posses que a família deles possui. No entanto, numa brincadeira infantil e inconseqüente, os dois irmãos acabam atirando em um ônibus cheio de turistas e atingem a norte-americana Susan (Cate Blanchett), que viajava em companhia do marido Richard (Brad Pitt). Um acontecimento que, nas mentes de Alejandro Gonzalez-Iñárritu e de Guillermo Arriaga, tem efeitos nas vidas de diversas pessoas, espalhadas em diversas partes do mundo.

Além do casal Susan e Richard (Brad Pitt) e da família marroquina, que iniciam esse efeito “bola de neve” visto no roteiro de “Babel”, as vidas dos seguintes personagens são afetadas pelo simples tiro dado pelos meninos marroquinos: Chieko (Rinko Kikuchi), uma jovem japonesa surda-muda; e Amelia (a fantástica Adriana Barraza), uma babá mexicana que cuida de Mike (Nathan Gamble) e Debbie (Elle Fanning, a irmã de Dakota), os filhos de Susan e Richard. Para contar as histórias destes personagens, Iñárritu utiliza um recurso que já é conhecido daqueles que são familiarizados com seus dois filmes anteriores, “Amores Brutos” e o excepcional “21 Gramas”, e mistura as diversas linhas narrativas em uma ordem que não segue a cronologia ou a importância que cada um desses seres possuem para a história que ele quer contar.

Alguns elementos chamam a nossa atenção no desenrolar da trama de “Babel”. O primeiro deles é a riqueza das histórias criadas por Alejandro Gonzalez-Iñárritu e por Guillermo Arriaga. A seu modo, cada uma delas dariam 3 ou 4 ótimos filmes. Porém, ao final de “Babel”, não dá para conter a impressão de que, para justificar o seu propósito inicial, algumas histórias (como a do casal Susan e Richard) sejam sacrificadas e, por isso, não são desenvolvidas de maneira adequada.

O segundo deles é o tema comum da falta de comunicação. Independente do acontecimento do tiro em Marrocos, todos os personagens presentes em “Babel” tomam decisões equivocadas pela simples falta de uma conversa com alguém. O roteiro deixa implícito que o casal Susan e Richard está em crise e que a viagem ao Marrocos seria uma última tentativa de salvar a relação. Que me desculpem os marroquinos, mas quem quer ter uma segunda lua-de-mel vai para Paris, Cancun ou uma ilha no estilo de Fernando de Noronha.

Amelia, uma imigrante ilegal, comete o erro de passar pela vigiadíssima fronteira Estados Unidos-México com duas crianças norte-americanas (será que Susan e Richard não deixaram nenhum contato familiar com a babá? Que qualidade de pais eles são se não fizeram isso?) e ainda pega uma carona com o sobrinho (Gael Garcia Bernal) visivelmente alcoolizado. Já Chieko está naquela fase da adolescência em que vê todas as amigas descolando namorados, enquanto ela permanece sozinha. Será que ela tem algo de errado? Ela é feia? Seu corpo não é atraente? Na falta da mãe (que se suicidou), Chieko precisa de uma referência e o pai (que, talvez, está muito absorto em seus próprios problemas) é muito egoísta para perceber isso.

Se a gente for tentar esquecer essas “liberdades” criativas, “Babel” é um bom filme. É uma prova de que Alejandro Gonzalez-Iñárritu é um dos cineastas mais competentes que temos na atualidade. Seu brilhantismo está presente em cenas como as que mostram Amelia e as duas crianças em pleno deserto e nas cenas em Tóquio, que são lindamente filmadas (a tomada final de “Babel” com Chieko e seu pai é digna do posto de uma das cenas mais tocantes de filmes lançados em 2006). No entanto, se comparado ao filme anterior da dupla Gonzalez-Iñárritu e Arriaga (“21 Gramas”), “Babel” é um retrocesso. Talvez fosse mesmo a hora de eles repensarem a sua relação.

Cotação: 8,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, January 30, 2007

A Essência da Paixão (The House of Mirth, 2000)


Numa tradução literal, “house of mirth” significa a casa do riso, da alegria. Depois que temos a oportunidade de assistir ao filme “A Essência da Paixão”, o por quê do uso do nome fica sem explicação – uma vez que todos os personagens da película são frios, racionais, raramente se deixam levar pela emoção e, quando riem, é porque estão caçoando de alguém.

“A Essência da Paixão”, filme dirigido e roteirizado por Terence Davies (tendo como base um livro de Edith Wharton, uma autora adaptada para o cinema no filme “A Época da Inocência”, de Martin Scorsese) acompanha dois anos da vida de Lily Bart (Gillian Anderson), uma dama da sociedade nova-iorquina que vive com a tia (Eleanor Bron) e a prima (Jodhi May) numa confortável casa. Lily é uma pessoa cheia de bons contatos, conhece muitas pessoas e, por isso, é um alvo certo das conversas e dos olhares de ambos os sexos.

Para a maioria das mulheres da sociedade, Lily está ficando velha e precisa arrumar um marido. Ela também tem consciência disso e se preocupa demais com seu futuro. O problema é a maneira como se dá o seu relacionamento com os homens. Lily não só tem a capacidade de se adequar àquilo que é esperado dela, como também consegue manter o seu verdadeiro eu exclusivamente para poucas pessoas – como à amiga Bertha Dorset (Laura Linney) e seu marido George (Terry Kinney), o Sr. Rosedale (Anthony LaPaglia), o casal Gus (Dan Aykroyd) e Judy Trenor (Penny Downie) e àquele que podemos considerar como o grande amor de sua vida Lawrence Selden (Eric Stoltz).

Quando os seus modos passam a ser questionados e o seu nome manchado injustamente, Lily entra numa descendente que parece não ter fim. Ela se descuida do dinheiro, acumula dívidas e é humilhada de todas as maneiras possíveis. Os amigos a abandonam e dos poucos que ficam ao seu lado, Lily não aceita ajuda. Ou seja, ela podia estar acabada, mas seu orgulho não estava ferido.

No final, “A Essência da Paixão” é um filme sobre oportunidades perdidas. Lily Bart aprende, da pior maneira, que não existem segundas chances para consertar aquilo que ficou de errado. Ela perdeu as oportunidades que teve para ser feliz. E, mesmo quando tinha as armas para reverter a sua situação, Lily não as utilizou por amor – um sentimento que lhe foi negado a partir do momento em que ela foi colocada na margem da sociedade.

“A Essência da Paixão” é um deleite para os olhos – e para os ouvidos. O trabalho de reconstrução de época, de construção de cenários e figurinos é impressionante. A trilha sonora – que reúne várias músicas clássicas famosas – é de chamar a atenção. No entanto, o que mais surpreende é a interpretação de Gillian Anderson. No seu primeiro papel importante depois de Dana Scully, a popular personagem do seriado “Arquivo X”, ela passa da frieza ao carisma, calculismo e inteligência de Lily com extrema facilidade. Quando a personagem atinge seu ponto mais baixo é incrível ver o mergulho de Gillian nesse mar de orgulho, tristeza e resignação que invadem a sua personagem.

Inexplicável é tentar entender como este filme passou despercebido por tanta gente. “A Essência da Paixão” é um dos melhores filmes sobre o estilo de vida das sociedades antigas (e suas festas e jogos de flertes e de aparências) e sobre como o necessário relacionamento entre homens e mulheres pode consumir tanto um ser a ponto de defini-lo para a vida toda.

Cotação: 9,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, January 27, 2007

Aos Olhos de Deus (Their Eyes Were Watching God, 2004)


Num artigo publicado recentemente em seu blog, o jornalista e crítico de cinema Ricardo Calil discursa sobre a lenta agonia do telefilme. De acordo com o texto dele, os telefilmes – que alcançaram o ápice nos anos 80 – são um formato que está em crise. Calil cita uma matéria do jornal “Hollywood Reporter”, que fala que, em 2006, a ABC, a CBS e a NBC (redes de televisão dos EUA) não produziram nenhum telefilme; o mesmo foi o caso do Showtime (canal de TV a cabo norte-americano, famoso por suas produções mais familiares). Já a HBO, que muitos consideram a atual grande produtora de telefilmes, não chegou nem a produzir cinco telefilmes em 2006.

Tal artigo causou muita surpresa em pessoas como eu, afinal os telefilmes têm atraído cada vez mais nomes famosos do cinema, como os dos diretores Mike Nichols e Stephen Frears e de estrelas como Richard Dreyfuss, James Cromwell, Don Cheadle, George Clooney, Harvey Keitel, Annette Bening, Hilary Swank, Ed Harris, Paul Newman, Kenneth Branagh, Anjelica Huston, Emma Thompson, Ben Kingsley, Ellen Burstyn, Helen Mirren, dentre outros.

“Aos Olhos de Deus”, telefilme produzido pela HBO e dirigido por Darnell Martin, também tem grandes nomes na frente e por trás das câmeras. A apresentadora Oprah Winfrey é a produtora executiva do projeto. Os atores Halle Berry e Terrence Howard encabeçam o elenco formado somente por atores de origem afro-americana. Essa não é a primeira experiência deles no gênero: Winfrey também produziu outro grande sucesso da HBO, “Se as Mulheres Tivessem Asas”; Berry, antes do Oscar, conquistou prêmios e elogios da crítica por sua performance em “Dorothy Dandridge – O Brilho de uma Estrela”; e Howard esteve no aclamado “Lackawanna Blues”.

No telefilme, Halle Berry interpreta Janie, uma mulher que acha que sabe tudo sobre a vida e o amor – quando, na verdade, ela ainda tem muito a aprender sobre os dois temas. “Aos Olhos de Deus” retoma a vida de Janie quando ela retorna à cidade de Eatonville (a primeira localidade totalmente negra dos EUA) e sofre com os julgamentos de cada habitante do local. Por meio de flashbacks, seremos testemunhas do crescimento de Janie, na medida em que ela se envolve com três homens diferentes: o primeiro marido, um homem idoso; o segundo, Joe Starks (Ruben Santiago-Hudson), um homem de visão e que transforma Eatonville numa cidade próspera e cheia de oportunidades; e o terceiro, o jovem impetuoso Tea Cake (Michael Ealy), que todos julgam estar interessado no dinheiro que Janie herdou de Starks. Terrence Howard interpreta Amos Hicks, o homem que vai ter sempre o potencial de ser o próximo marido de Janie, se não fosse por um único problema: ela nunca se interessou por ele de maneira amorosa.

“Aos Olhos de Deus” é um daqueles telefilmes que não se destacam por ter uma grande direção ou um excelente trabalho de atuação. O que é importante aqui é ver a maneira pela qual os roteiristas Suzan-Lori Parks, Misan Sagay e Bobby Smith Jr. construíram a personagem Janie. Ela pode ter sido uma mulher voluntariosa, decidida e cujo maior problema foram sempre os homens. Se alguém indicava que o melhor caminho era este, Janie preferia seguir aquele. Janie amou, foi feliz e também foi machucada. Mesmo assim, ela tem a capacidade de, após atingir o ponto mais baixo, conseguir recomeçar a sua vida.

Assim como os outros personagens do filme, que não hesitarão em julgar Janie, ou em dizer aquela batida frase “bem que a gente tentou avisar”, também nos sentiremos tentados em não sentir pena de Janie. Ao escutar a versão dela para os fatos de sua vida, a frase que vem à tona é outra: “não julgue antes de conhecer aquilo que verdadeiramente aconteceu”. Seria interessante que os telefilmes também não fossem julgados como dispensáveis logo de cara. A produção de filmes na TV, geralmente, é bem mais aberta a idéias que os estúdios de cinema recusam sem piedade. Além disso, muitas das últimas “produções feitas especialmente para a TV” são bem melhores do que muitos dos filmes que a gente costuma assistir na grande tela. Vamos torcer para o telefilme seguir o exemplo de Janie e sobreviver a mais um daqueles percalços que parecem ser insustentáveis.

Cotação: 6,3

Crédito Foto: Amazon.com

Tuesday, January 23, 2007

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006)


Em 1970, o Brasil estava quase no final de um período que ficou marcado na sua história e que ganhou o nome de Milagre Econômico. No entanto, o otimismo em relação ao progresso estava somente restrito ao plano econômico, tendo em vista que o país ainda vivia em meio à repressão e à censura do regime da Ditadura Militar. É neste contexto histórico que se desenrola a trama do filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, do diretor Cao Hamburger.

Mauro (o estreante Michel Joelsas), que vivia com sua família em Belo Horizonte, provavelmente estava por fora de tudo isto que estava acontecendo. Para ele, o fato mais importante do ano era a realização da Copa do Mundo de 1970, no México. O garoto recebe até com muita resignação e sem fazer muitos questionamentos a notícia de que seus pais vão tirar umas “férias prolongadas” (eles eram militantes contra a ditadura e precisavam sumir por um tempo) e que ele vai ficar em São Paulo, no bairro do Bom Retiro, na companhia do avô paterno (uma participação especial de Paulo Autran).

O mundo que Mauro encontra no bairro do Bom Retiro é completamente diferente daquele que ele conhecia. O bairro, que é habitado por famílias de origens judaica e italiana, tem muita gente idosa, alguns jovens e poucas crianças. Mauro vai experimentar ali muita solidão, a qual será agravada quando o seu avô falecer e quando ele não conseguir se adaptar muito bem à pessoa de Shlomo (o excelente Germano Haiut), que acolhe o menino em sua casa e inicia uma busca pelos pais dele.

O que é mais interessante no filme de Cao Hamburger é acompanhar a transformação, o amadurecimento de Mauro. Aos poucos, ele deixa de ser o menino inseguro que passava os dias ao lado do telefone esperando a ligação dos pais e começa a aproveitar a vida, a brincar, se encontrar e descobrir quem ele é e o que ele pretende fazer. Tudo isso, tendo como pano de fundo a Copa de 1970 e o brilhantismo daquele time, que parava o país e unia todos – não importando raça, sexo, classe e crenças – numa só voz.

Quando a gente fala sobre o cinema brasileiro, uma reclamação parece constante: os roteiros da maioria dos filmes são pobres e chegam – em alguns casos – a fazer sentido só para nós brasileiros. Poucos filmes produzidos no país têm uma mensagem universal, que pode chegar a qualquer lugar do mundo e encontrar uma identidade. “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” é um desses filmes de valor universal. A sua simplicidade é somente um dos elementos que o transforma numa experiência única, mas o seu maior ponto forte é a capacidade de contar uma história que tem ressonância em qualquer pessoa, em qualquer lugar. Filmes como esse deveriam ser regra em nossa indústria, e não exceção.

Cotação: 9,0

Crédito Foto: Yahoo! Cinema

Saturday, January 20, 2007

Déjà Vu (Deja Vu, 2006)


Tadinha da cidade de Nova Orleans. Depois de sofrer, em 2005, com o acidente da natureza que foi o furacão Katrina, que matou 1833 pessoas; o diretor Tony Scott, o produtor Jerry Bruckheimer e os roteiristas Bill Marsilii e Terry Rossio colocam a cidade novamente sob provação no filme “Déjà Vu”. Em meio ao Mardi Gras (o popular carnaval da cidade), um barco cheio de soldados da Marinha e suas famílias é explodido, resultando na morte de 534 pessoas. Uma outra tragédia – dessa vez causada pelas mãos humanas.

É este crime que o agente da ATF (delegacia especializada em assuntos de álcool, tabaco e armas de fogo) Doug Carlin (Denzel Washington) irá investigar. Doug é um homem que trabalha em silêncio, é muito observador e está sempre muito atento à cena do crime e às figuras que nela estão – ou estavam. Podemos dizer que o modo dele trabalhar contrasta muito com o da equipe do FBI – liderada pelo agente Andrew Pryzwarra (Val Kilmer) – com a qual ele irá colaborar.

A equipe de Andrew Pryzwarra (formada pelos atores Adam Goldberg, Elden Henson e Erika Alexander) acrescenta à investigação da explosão um recurso extremamente moderno: um programa de computador que permite voltar no tempo e reproduzir exatamente os atos, gestos e falas do acontecimento em questão. Para não ficarem procurando uma agulha no palheiro, Doug Carlin sugere que eles se fixem na rotina de Claire Kuchever (Paula Patton, que guarda uma semelhança física muito grande com a atriz Halle Berry), moça que – aparentemente – foi mais uma das vítimas da explosão do barco, mas que, para Carlin, é a chave para a solução do crime.

Na medida em que a equipe de Andrew Pryzwarra invade a rotina de Claire, mais Doug Carlin fica envolvido emocionalmente com a garota. Quando a solução do crime chega e eles descobrem o responsável pela explosão – Carroll Oerstadt (James Caviezel) – Carlin toma uma decisão drástica: usar o programa do FBI para voltar no tempo e tentar impedir que o pior – a explosão do barco e a morte de Claire – aconteça.

O diretor Tony Scott vem de dois filmes (“Chamas da Vingança” e “Domino – A Caçadora de Recompensas”) que são muito bons esteticamente e que possuem histórias que são bem contadas. Em “Déjà Vu”, Scott mantém a mesma estética crua que é uma influência direta dos filmes de Michael Mann e do “Cidade de Deus” de Fernando Meirelles e, de início conta uma história que, apesar de confusa em certos momentos (não acredito que ninguém sairá do cinema sabendo ao certo como o programa do FBI realmente funciona), prende a atenção da platéia. No entanto, uma única cena coloca todo o trabalho do diretor por água abaixo. Se está bem claro que o passado não pode ser modificado, em que realidade Doug Carlin se encontra no final? Estaria ele num simulacro, numa realidade virtual ou no mundo que ele deixou? Com a palavra, Tony Scott e seus roteiristas Bill Marsilii e Terry Rossio.

Cotação: 6,9

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Wednesday, January 17, 2007

Uma Noite no Museu (Night at the Museum, 2006)


Numa época em que a informação está a um clique de distância, não chega a ser surpreendente saber que os museus estão passando por uma crise de público. Afinal, quem quer ir ao museu mais próximo se pode dar uma volta virtual pelo museu do Louvre, em Paris? “Uma Noite no Museu”, filme do diretor Shawn Levy (mais conhecido pelo trabalho em comédias como “Recém-Casados”, “Doze é Demais” e a refilmagem de “A Pantera Cor de Rosa”), quer provar justamente o contrário. Você deve ir fazer uma visita ao museu, pois esse é o lugar em que a história ganha vida.

Larry Daley (Ben Stiller) é um homem divorciado, pai de Nick (Jake Cherry). A vida dele é completamente instável. Ele não consegue se firmar num emprego ou se fixar em um endereço. Ao ver que seu filho começa a tomar como exemplo a figura de um outro homem – a do padrasto investidor da Bolsa de Valores (Paul Rudd) –, Larry finalmente percebe que precisa dar um jeito em sua vida.

Portanto, Larry vai a uma agência de empregos e, depois de escutar algumas negativas, é enviado ao Museu de História Natural da cidade de Nova York, pois talvez lá exista alguma vaga para ele. Após passar pelo crivo dos guardas-noturnos que ele irá substituir (a trinca de atores formada por Dick Van Dyke, Mickey Rooney e Bill Cobbs), Larry inicia o seu trabalho.

O que parecia ser algo absolutamente normal ganha contornos extraordinários quando Larry percebe que, durante o turno da noite, as criaturas de cera que habitam o museu (como o ex-presidente Teddy Roosevelt; os exploradores Lewis e Clark e Cristóvão Colombo; Átila, o Huno; os romanos; os índios e os cowboys; os combatentes da Guerra Civil Americana; dentre muitos outros) ganham vida – transformando o que era calmo em caos absoluto.

A interação que existe entre Larry e as criaturas do museu – que deveria ser o ponto alto de “Uma Noite no Museu” – só funciona quando Robin Williams (que interpreta o ex-presidente Teddy Roosevelt) está na tela. Esse intercâmbio entre passado e futuro também chama a atenção para o ótimo trabalho de direção de arte, de figurinos e de caracterização de personagens que o filme possui. No resto do tempo, “Uma Noite no Museu” abre espaço demais para o humor do irritante Owen Wilson (que interpreta Jedediah, um cowboy) e coloca em segundo plano atores que poderiam contribuir mais com o filme, como a ótima (quando ela irá receber um papel digno de seu talento no cinema?) Carla Gugino e o comediante inglês Ricky Gervais (criador das séries “The Office” e “Extras”).

Se formos abstrair a presença excessiva de Owen Wilson na tela, “Uma Noite no Museu” é até um filme que rende boas risadas. A trama desenvolvida pelos roteiristas Ben Garant e Thomas Lennon é bastante explicativa e vai agradar em cheio aos jovens que, certamente, irão lotar as salas de cinema para assistir ao filme. No entanto, o que de melhor “Uma Noite no Museu” possui é oferecer a oportunidade para que toda uma nova geração conheça os atores Dick Van Dyke, Mickey Rooney e Bill Cobbs. Ainda bem que eles não foram colocados como peças do museu. Mesmo assim, a eles só cabe o papel de ser o suporte para que Ben Stiller possa brilhar – e, neste filme pelo menos, ele está bem melhor do que nas suas últimas aparições na grande tela.

Cotação: 6,8

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, January 13, 2007

Filhos da Esperança (Children of Men, 2006)


A trajetória de “Filhos da Esperança”, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, nas salas de cinema é muito peculiar. O filme estreou – sem muito alarde – em alguns festivais de cinema, como o de Veneza, aonde foi recebido de modo um tanto frio pela crítica e pelo público. Alguns meses depois, quando o filme veio estrear de maneira definitiva, a situação tinha mudado completamente e não só “Filhos da Esperança” começava a receber um carinho especial da crítica (ganhando alguns prêmios), como também se transformava em um sucesso de público.

O filme se passa em Londres, no ano 2027. O mundo imaginado por Alfonso Cuarón e pelos co-roteiristas Timothy J. Sexton, David Arata, Mark Fergus e Hawk Ostby (com base no livro de P.D. James) é dominado pelo caos e pela completa falta de autoridade, aonde diversos grupos lutam pelo poder e a classe mais frágil é a dos imigrantes ilegais, que são enxotados diariamente para prisões que mais lembram os campos de concentração do regime nazista alemão.

Entretanto, a mudança mais visível que pode ser vista neste mundo futurista é que ele, além de ser um lugar sombrio, está privado do calor, da inocência e da alegria do riso e dos gritos das crianças. Explico: os seres humanos ficaram inférteis. A pessoa mais jovem do mundo, Diego Ricardo (Juan Gabriel Yacuzzi), foi assassinada aos 18 anos. É esse acontecimento que abre “Filhos da Esperança” e dá início a uma série de fatos que só reforçam a visão pessimista do diretor mexicano em relação ao futuro da humanidade.

Clive Owen interpreta Theo Faron, funcionário do Ministério da Energia. Theo já foi um revolucionário, mas perdeu a vontade de lutar após a morte do filho Dylan. A ex-mulher dele, Julian (Julianne Moore), é a líder dos Peixes, o maior grupo de resistência ao poder vigente. É Julian que coloca Theo em uma situação delicada ao pedir que ele consiga documentos para que a imigrante ilegal Kee (a ótima Claire-Hope Ashitey) possa sair da Inglaterra sem nenhum perigo. Como precisa do dinheiro que vai ganhar ao desempenhar essa tarefa, Theo consegue os documentos necessários, mas terá que obrigatoriamente acompanhar a jovem Kee durante a viagem. A missão de Theo se revela ainda mais importante quando ele descobre que Kee está grávida. Dessa forma, não só a fé de Theo – como a de todo o mundo, nem que seja por um mísero instante – será colocada em xeque novamente.

“Filhos da Esperança” consegue sobreviver a alguns furos deixados pela trama (é incrível como cinco roteiristas não conseguem deixar claro em nenhum momento o que é o projeto Humano, o qual move a trama do filme em quase sua totalidade). O filme é deveras pessimista, mas não deixa de ser atual. Apoiado por um belo trabalho do diretor de fotografia – e favorito ao Oscar 2007 – Emmanuel Lubezki, Cuarón mostra através da metáfora da falta da alegria infantil, o que nos espera se continuarmos nesse sentido de autodestruição. Assim como os acontecimentos do roteiro fazem com que a fé de Theo seja testada, o que Cuarón faz com “Filhos da Esperança” é testar a fé de sua platéia. Nos créditos finais, ele coloca somente gritos e choros de várias crianças. Um pouco de vida depois de vermos tanto caos. A pergunta que fica é se a nossa reação será a mesma dos soldados ao verem o choro do nenê de Kee? Depois do encanto, a nossa vida vai seguir? Ou será que podemos fazer algo além disso?

Cotação: 7,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, January 09, 2007

Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006)


Numa das cenas mais clássicas da história do cinema, no filme “Os Homens Preferem as Loiras”, do diretor Howard Hawks, Marilyn Monroe entoa os seguintes versos: “um beijo na mão pode ser muito galanteador, mas os diamantes são os melhores amigos das mulheres”. Por muito tempo, essa visão luxuosa e de ostentação a respeito dos diamantes foi o que povoou o imaginário popular. A visão sobre essa pedra preciosa irá mudar quando, no filme “Diamante de Sangue”, do diretor Edward Zwick, formos apresentados ao conceito que dá nome ao filme. Os diamantes de sangue são aquelas pedras que, vendidas às empresas fabricantes de jóias, acabam financiando as guerras nos países africanos sobre as quais nos acostumamos a ver/ler nos noticiários.

Neste sentido, o roteiro do filme, escrito por Charles Leavitt e C. Gaby Mitchell, nos apresenta a três personagens que, apesar das origens diferentes, possuem algo em comum: todos eles farão o que for necessário para conseguir o que querem. Danny Archer (Leonardo diCaprio), um ex-soldado do exército sul-africano, converteu todos os seus conhecimentos sobre armas e táticas de guerrilha para os negócios e se transformou num contrabandista (especialmente de armas e de diamantes). Solomon Vandy (Djimon Hounsou), um pescador, pai de família, viu a aldeia em que vivia ser destruída e sua família ir parar num campo de refugiados; enquanto ele se tornou prisioneiro dos rebeldes e passou a trabalhar em uma mina. Maddy Bowen (Jennifer Connelly), jornalista norte-americana, foi para Serra Leoa atrás de informações para uma matéria que ela está fazendo sobre a relação das grandes indústrias de jóias com os diamantes de sangue.

O destino destes três personagens irá se cruzar quando Solomon encontra uma grande pedra de diamante rosa, a esconde dos rebeldes e vira o alvo deles. Depois de fugir e reencontrar a sua família, Solomon descobre que seu único filho, Dia (Kagiso Kuypers), foi recrutado pelos rebeldes. Dessa maneira, a pedra que ele escondeu se torna uma moeda de troca valiosa pela busca de informações a respeito de seu filho. Para Archer, que deve dinheiro a um parceiro de negócios, a pedra encontrada por Solomon representa não só a sua vida como a oportunidade de sair de vez – e rico – da África. Archer e Solomon, então, estabelecem uma parceria – que, logo, irá evoluir para uma amizade. Em troca de informações para a matéria que está escrevendo, Maddy concorda com as exigências de Archer e disfarça o contrabandista e o pescador como jornalistas para que eles possam transitar com certa facilidade pelo perigoso território de Serra Leoa.

Além da fotografia de Eduardo Serra, um dos elementos mais interessantes de “Diamante de Sangue” foi a maneira pela qual os roteiristas Charles Leavitt e C. Gaby Mitchell construíram os seus personagens. Solomon, Archer e Maddy têm uma essência muito bem definida, e não chegam a ser totalmente mocinhos ou bandidos. Os três são pessoas reais, movidas pelos seus interesses principais. E quando são colocados em situações que chegam perto do seu limite é que eles se permitem revelar as suas verdadeiras personalidades. Nesses momentos, “Diamante de Sangue” atinge o seu ápice.

Edward Zwick dirige seu filme com muita elegância e discrição. Mas, acaba escorregando no final um tanto demagógico. A intenção do diretor ao mostrar que as vozes dos excluídos merecem ser ouvidas, e não ignoradas é muito bonita – mas um tanto irreal. Todos nós sabemos que vivemos num mundo em que os que vivem à margem não têm voz. Isso só acontece quando os acontecimentos se tornam insustentáveis. É triste, mas é fato – e não é um filme que vai mudar isso. “Diamante de Sangue” já tem a sua própria importância ao nos fazer prestar atenção nos diamantes de sangue. Quem consome jóias deve ter consciência de que o produto que ele (a) está comprando não ajuda a financiar guerras que matam pessoas inocentes.

Cotação: 7,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Thursday, December 28, 2006

Lista de Desejos para 2007

Para finalizar, como é de costume nessa época, as pessoas tendem a fazer listas com aquilo que gostariam de fazer ou de conquistar no ano novo que se inicia. Para ser coerente com o tema deste blog – cinema – vou fazer minha lista de desejos, com os filmes que eu mais anseio assistir em 2007.

Lista de Desejos Para 2007 (aqui, a ordem é de preferência mesmo)

01. Dreamgirls (EUA, 2006)
Diretor: Bill Condon
Elenco: Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Danny Glover, Anika Noni Rose, Keith Robinson, Sharon Leal e apresentando Jennifer Hudson.
Se você quiser assistir ao trailer de “Dreamgirls”, clique aqui.

02. Shut Up and Sing (EUA, 2006)
Diretoras: Barbara Kopple e Cecilia Peck (filha do ator Gregory Peck)
Elenco: Martie Maguire, Natalie Maines e Emily Robison.
Se você quiser assistir ao trailer de “Shut Up and Sing”, clique aqui.

03. The Painted Veil (EUA, 2006)
Diretor: John Curran
Elenco: Naomi Watts, Edward Norton, Liev Schreiber, Diana Rigg, Toby Jones.
Se você quiser assistir ao trailer de “The Painted Veil”, clique aqui.

04. Babel (EUA, México, 2006)
Diretor: Alejandro Gonzalez-Iñarritu
Elenco: Brad Pitt, Cate Blanchett, Gael Garcia Bernal, Adriana Barraza, Rinko Kikuchi.
Se você quiser assistir ao trailer de “Babel”, clique aqui.

05. Zodiac (EUA, 2007)
Diretor: David Fincher
Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Brian Cox, Anthony Edwards, Chloe Sevigny.
Se você quiser assistir ao trailer de “Zodiac”, clique aqui.

06. The Bourne Ultimatum (EUA, 2007)
Diretor: Paul Greengrass
Elenco: Matt Damon, Joan Allen, David Strathairn, Julia Stiles, Paddy Considine.

07. Letters From Iwo Jima (EUA, 2006)
Diretor: Clint Eastwood
Elenco: Ken Watanabe, Kazunari Ninomiya, Shido Nakamura.

08. Evening (2007)
Diretor: Lajos Koltai (diretor de fotografia de filmes como “Adorável Julia” e “Malèna”)
Elenco: Eileen Atkins, Glenn Close, Toni Collette, Hugh Dancy, Claire Danes, Vanessa Redgrave, Natasha Richardson, Meryl Streep, Patrick Wilson.

09. Grind House (EUA, 2007)
Diretores: Robert Rodriguez e Quentin Tarantino
Elenco: Naveen Andrews, Josh Brolin, Rosario Dawson, Rose McGowan, Freddy Rodriguez, Kurt Russell, Marley Shelton, Tracie Thoms.
Se você quiser assistir ao trailer de "Grind House", clique aqui.

10. American Gangster (EUA, 2007)
Diretor: Ridley Scott
Elenco: Russell Crowe, Denzel Washington, Josh Brolin, Carla Gugino.

Faltou espaço para "Notes on a Scandal" (2006, Inglaterra, dir. Richard Eyre), "Little Children" (EUA, 2006, dir. Todd Field), “The Last King of Scotland” (EUA, Inglaterra, 2006, dir. Kevin MacDonald), “Half Nelson” (EUA, 2006, dir. Ryan Fleck), “Pride & Glory” (EUA, 2007, dir. Gavin O’Connor), “Atonement” (2007, dir. Joe Wright), “The Assassination of Jesse James” (EUA, 2007, dir. Andrew Dominic), “A Mighty Heart” (2007, dir. Michael Winterbottom), “Sin City 2” (EUA, 2007, dir. Robert Rodriguez e Frank Miller), “My Blueberry Nights” (2007, dir. Wong Kar Wai), “Curse of the Golden Flower” (Hong Kong, China, 2006, dir. Zhang Yimou), “The Good German” (EUA, 2006, dir. Steven Soderbergh), “The Good Shephard” (EUA, 2006, dir. Robert de Niro), “Goya’s Ghosts” (Espanha, 2006, dir. Milos Forman), “Fur – An Imaginary Portrait of Diane Arbus” (EUA, 2006, dir. Steven Sheinberg), “The Pursuit of Happyness" (EUA, 2006, dir. Gabriele Muccino), dentre muitos outros, que fazem parte do meu interesse cinematográfico para o próximo ano, e merecem uma citação.

Gostaria de desejar a todos e às suas famílias um 2007 cheio de realizações e de bênçãos. Obrigada pela visita, pelas discussões e, espero que, em 2007, possamos ver e debater uma maioria de boas histórias, para variar um pouco.

Os Melhores de 2006

O ano de 2006 para o cinema foi, praticamente, uma reprise do ano de 2005. Bons filmes nos meses de janeiro, fevereiro e março (na temporada que antecipa o Oscar); alguns filmes eletrizantes nos meses de maio, junho e julho (a temporada do Verão norte-americano) e a volta dos bons filmes nos meses de outubro, novembro e dezembro (novamente, o início da temporada que antecede o Oscar). Nesse ínterim, alguns filmes interessantes, muitos descartáveis e a prova de que a crise que abala a indústria cinematográfica é muito mais grave do que se pensa – tendo em vista a quantidade de refilmagens e de péssimas idéias de roteiro que aportaram nas salas de cinema de todo o mundo.

A lição que fica é a de que está cada vez mais raro encontrar e contar de maneira adequada uma boa história.

Como fizemos no final de 2005, esta é a hora de fazermos aquelas listas com os melhores e piores de 2006. Vamos começar, então, com aquilo que de melhor foi produzido em termos de cinema neste ano que está terminando.

10 Melhores Filmes de 2006 (de acordo com a data de lançamento nos cinemas brasileiros)

01. A Rainha (The Queen, Inglaterra, França, Itália, 2006, dir. Stephen Frears)
02. Vôo United 93 (United 93, França, Inglaterra, EUA, 2006, dir. Paul Greengrass)
03. Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, EUA, 2006, dir. Jonathan Dayton e Valerie Faris)
04. Boa Noite, e Boa Sorte (Good Night, and Good Luck, EUA, 2005, dir. George Clooney)
05. O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, EUA, 2005, dir. Ang Lee)
06. Zuzu Angel (Brasil, 2006, dir. Sérgio Rezende)
07. Superman – O Retorno (Superman Returns, Austrália, EUA, 2006, dir. Bryan Singer)
08. Orgulho e Preconceito (Pride & Prejudice, Inglaterra, 2005, dir. Joe Wright)
09. Johnny & June (Walk the Line, EUA, 2005, dir. James Mangold)
10. A Marcha dos Pinguins (March of the Penguins, La Marche de L´Empereur, França, 2005, dir. Luc Jacquet)

Melhores Atuações Masculinas de 2006 (em ordem alfabética, não por ordem de preferência)

Christian Bale, O Grande Truque
Paul Dano, Pequena Miss Sunshine
Leonardo DiCaprio, Os Infiltrados
Aaron Eckhart, Obrigado por Fumar
Hugh Jackman, O Grande Truque
Sergi López, O Labirinto do Fauno
Jack Nicholson, Os Infiltrados
Edward Norton, O Ilusionista
Michael Sheen, A Rainha
Patrick Wilson, MeninaMá.com

Melhores Atuações Femininas de 2006 (em ordem alfabética, não por ordem de preferência)

Abigail Breslin, Pequena Miss Sunshine
Penélope Cruz, Volver
Maggie Gyllenhaal, As Torres Gêmeas
Anne Hathaway, O Diabo Veste Prada
Helen Mirren, A Rainha
Ellen Page, MeninaMá.com
Patrícia Pillar, Zuzu Angel
Blanca Portillo, Volver
Meryl Streep, O Diabo Veste Prada e A Última Noite

Os Piores de 2006

Agora, vamos ao que de pior foi produzido pelo cinema no ano de 2006.

10 Piores Filmes de 2006 (de acordo com a data de lançamento nos cinemas brasileiros)

01. Casseta e Planeta – Seus Problemas Acabaram (Brasil, 2006, dir. José Lavigne)
02. Uma Comédia Nada Romântica (Date Movie, EUA, 2006, dir. Aaron Seltzer)
03. Assombração (Gwai Wik, Re-Cycle, Tailândia, Hong Kong, 2006, dir. Oxide Pan Chung e Danny Pang)
04. O Sacrifício (The Wicker Man, Alemanha, EUA, 2006, dir. Neil LaBute)
05. Instinto Selvagem 2 (Basic Instinct 2, Alemanha, Espanha, Inglaterra, EUA, 2006, dir. Michael Caton-Jones)
06. Gatão de Meia Idade (Brasil, 2005, dir. Antônio Carlos da Fontoura)
07. O Pequenino (Little Man, EUA, 2006, dir. Keenan Ivory Wayans)
08. Fica Comigo Esta Noite (Brasil, 2006, dir. João Falcão)
09. O Albergue (Hostel, EUA, 2005, dir. Eli Roth)
10. Todo Mundo em Pânico 4 (Scary Movie 4, EUA, 2006, dir. David Zucker)

Piores Atuações Masculinas de 2006 (em ordem alfabética, não por ordem de preferência)

Orlando Bloom, Piratas do Caribe 2 – O Baú da Morte
Adam Campbell, Uma Comédia Nada Romântica
James Franco, Flyboys
LL Cool J, As Férias da Minha Vida
Thiago Lacerda, Se Eu Fosse Você
Vinícius Miranda, Tapete Vermelho
Nathan Phillips, Serpentes a Bordo
Adam Sandler, Click
Marlon Wayans, O Pequenino
Luke Wilson, Minha Super Ex-Namorada

Piores Atuações Femininas de 2006 (em ordem alfabética, não por ordem de preferência)

Katie Beahan, O Sacrifício
Cindy Cheung, A Dama na Água
Cameron Diaz, O Amor Não Tira Férias
Kate Isitt, Protegida por um Anjo
Juliana Knust, Achados e Perdidos
Angelica Lee, Assombração
Bai Ling, Um Cara Quase Perfeito
Camila Pitanga, Mulheres do Brasil
Fiona Shaw, A Dália Negra
Sharon Stone, Instinto Selvagem 2

Wednesday, December 27, 2006

O Amor Não Tira Férias (The Holiday, 2006)


A diretora e roteirista Nancy Meyers é uma verdadeira estudiosa dos relacionamentos humanos. Nos seus dois últimos filmes, “Do que as Mulheres Gostam” e “Alguém Tem que Ceder”, as relações entre os homens e as mulheres nas suas diferentes formas – a profissional, a amorosa e a de amizade – foram os temas principais. O mesmo é o caso de “O Amor Não Tira Férias”, seu mais novo filme.

A trama do filme gira em torno de duas mulheres. A londrina Iris (Kate Winslet), jornalista especializada em reportagens sobre casamentos, que é romântica e cometeu o “erro” de se apaixonar perdidamente pelo colega de trabalho Jasper (Rufus Sewell, o coadjuvante de luxo do ano de 2006) – que não corresponde ao sentimento e, ainda por cima, vai se casar. E a norte-americana Amanda Woods (Cameron Diaz), uma montadora de trailers de filmes, que é viciada em trabalho, fria e distante e possui um relacionamento com o compositor Ethan (Edward Burns) – que está traindo-a com uma recepcionista de 24 anos.

A decepção com os homens faz com que Iris e Amanda tomem uma decisão drástica: a de se afastar de tudo e de todos durante a época do Natal. As duas, então, entram em um programa de intercâmbio de casas. Dessa forma, Iris troca o seu bucólico, simples e aconchegante chalé no interior da Inglaterra pelo luxo, conforto e grandiosidade da mansão de Amanda; e vice-versa.

Como diz o velho ditado: se uma porta se fecha, outras irão se abrir. No caso particular de Iris e Amanda, isso irá acontecer de forma literal e as transformações pelas quais as duas irão passar englobarão muito mais do que a mudança de ares. Ao conhecer o roteirista aposentado de Hollywood Arthur Abbott (Eli Wallach), seus amigos, e o compositor Miles (Jack Black), Iris se tornará uma mulher confiante, com ótima auto-estima e pronta para amar novamente. Já Amanda, que conhece Graham (Jude Law), o irmão de Iris, vivenciará o amor da maneira mais idealizada possível.

Em “O Amor Não Tira Férias”, Nancy Meyers criou duas tramas paralelas que estão muito bem unidas, pois falam sobre o amor de uma maneira real. Claro que, durante o filme, veremos aqueles tão conhecidos clichês do cinema, mas, para “O Amor Não Tira Férias”, o que importa é perceber – na sua mais pura forma – que a receita para amar passa, em primeiro lugar, pelo amor próprio. O clima do filme é leve e divertido, e toda essa descontração está colocada na grande tela pelo ótimo elenco do filme, em especial Kate Winslet (como é bom vê-la genuinamente bela e feliz num filme), Jack Black, Eli Wallach, Jude Law e pelas atrizes mirins Miffy Englefield e Emma Pritchard (que participam de um dos momentos mais legais de “O Amor Não Tira Férias”). A única que destoa do resto do elenco é Cameron Diaz, que, em nenhum momento, consegue despertar a simpatia pela sua Amanda.

Cotação: 7,8

Crédito Foto: IMDB

Tuesday, December 26, 2006

Eragon (2006)


Desde o sucesso dos filmes da trilogia “O Senhor dos Anéis”, do diretor neozelandês Peter Jackson, os estúdios de cinema têm procurado uma nova franquia no estilo aventura e fantasia. Alguns candidatos já foram apresentados, como “Desventuras em Série”, do diretor Brad Silberling, e “As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, do diretor Andrew Adamson. Agora, chegou a vez de “Eragon”, do diretor Stefen Fangmeier, se submeter ao julgamento do público.

Baseado no livro do jovem prodígio Christopher Paolini, “Eragon” se passa numa terra dominada por um único rei chamado Galbatorix (John Malkovich). Todos os focos de resistência contra o regime se encontram isolados e controlados. Estes grupos persistem pela esperança de que a lenda de que os Cavaleiros do Dragão irão ressurgir se torne realidade.

É isto o que irá acontecer quando o jovem fazendeiro Eragon (Ed Speelers) encontra o que aparenta ser uma pedra preciosa. O tempo irá revelar que, na verdade, a pedra é o ovo de um dragão. O nascimento de Safira (dublada pela atriz Rachel Weisz) é a confirmação de que a lenda era verdadeira e que Eragon dará início a uma nova linhagem de Cavaleiros do Dragão.

Este acontecimento marca o início de duas novas etapas na trama de “Eragon”. A primeira acompanha a transformação do corajoso e tolo Eragon em um grande cavaleiro e mago – tendo como mentor, o ex-cavaleiro Brom (Jeremy Irons). A segunda acompanha a luta do rei Galbatorix e de seu maior “soldado”, o horripilante Durza (Robert Carlyle) – um homem possuído por entidades demoníacas – para impedir que Eragon transforme a lenda em realidade e, em conseqüência disso, coloque o seu domínio em xeque.

O diretor Stefen Fangmeier privilegia muito o desenvolvimento da trama adaptada pelo roteirista Peter Buchman. Poucas são as cenas de combate, mas quando elas acontecem são muito bem feitas e dirigidas. No entanto, o que mais se sobressai em “Eragon” é o seu elenco. De um lado, encontramos atores mais experientes, como John Malkovich, Jeremy Irons, Robert Carlyle e Djimon Hounsou (que interpreta o líder de um dos grupos de resistência ao regime de Galbatorix). Do outro, se encontram atores mais jovens e com pouca experiência, como Ed Speelers, Garrett Hedlund (que interpreta Murtagh, o filho de um Cavaleiro de Dragão que traiu a sua ordem) e Sienna Guillory (que interpreta a princesa Arya). Os mais veteranos, especialmente Carlyle (cujo personagem, sem dúvida alguma, é a melhor coisa de “Eragon”), roubam a cena. Os novatos, por sua vez, não comprometem e Speelers prova que poderá, no futuro, carregar o filme sozinho.

E, assim como em “Desventuras em Série” e “As Crônicas de Nárnia – O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, se o material for interessante e conseguir atrair um bom diretor e um elenco competente, “Eragon” tem potencial para se transformar em uma franquia rentável. Entretanto, falta ao filme encontrar-se na grande tela. Existe a necessidade de se afastar um pouco de suas semelhanças com “O Senhor dos Anéis” e, especialmente, “Guerra nas Estrelas”. Para ter sucesso, “Eragon” precisa ter uma identidade própria.

Cotação: 7,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Tuesday, December 19, 2006

Por Água Abaixo (Flushed Away, 2006)


Os estúdios Aardman ficaram conhecidos pelas suas animações em massa, em especial com o filme “Wallace & Gromit – A Batalha dos Vegetais” (que ganhou o Oscar 2006 de Melhor Filme de Animação). Na nova investida deles no cinema, “Por Água Abaixo”, dos diretores David Bowers e Sam Fell, os animadores da Aardman abandonam a técnica de massinha e voltam a uma animação mais tradicional.

O filme conta a história de Roddy St. James (dublado por Hugh Jackman na versão original), um ratinho de estimação que vive no maior conforto (com direito à “gaiola” própria e roupas chiques) em uma mansão em Kensington, um bairro nobre de Londres. Apesar de todo luxo, Roddy é um ratinho muito solitário e que só interage com seres inanimados como bonecas e bonecos. Essa condição irá se agravar mais quando Roddy fica sozinho em casa depois que a família que cuida dele decide viajar.

O dia de Roddy como rei da mansão acaba quando o rato de esgoto Sid (dublado por Shane Richie na versão original) invade a sua morada. Sid é sujo, mal-educado e desleixado – tudo o que um morador de Kensington não é. Roddy começará a se dedicar a expulsá-lo de sua casa, mas o tiro acaba saindo pela culatra quando Roddy é descartado por água abaixo por Sid e acaba indo parar numa Londres subterrânea, local aonde os ratos de esgoto moram.

É nesse mundo subterrâneo que Roddy conhecerá Rita (dublada por Kate Winslet na versão original), uma ratinha malandra, independente e cheia de iniciativa. Ela está metida em problemas com Sapão (dublado na versão original por Ian McKellen), o qual, por sua vez, está querendo colocar em prática um plano que destruirá com o mundo – e com a vida – dos ratos de esgoto. O contato com Rita, com a família dela e com os diversos tipos de ratos que formam a Londres subterrânea fazem com que Roddy repense seus valores e contemple a vida ao lado de seres que podem retrucar seus cumprimentos, suas palavras e seus gestos.

“Por Água Abaixo” é um filme que mantém o padrão Aardman de qualidade. Suas cenas são muito bem feitas e dirigidas – especialmente aquelas que retratam a perseguição que os capangas de Sapão fazem ao navio de Rita. No entanto, o filme tem personagens que não possuem carisma (as lesmas cantoras são as personagens mais chatas já feitas para um filme de animação). E empatia é um elemento fundamental para um filme cujo público-alvo maior são as crianças. Sem isso, fica difícil para “Por Água Abaixo” fazer uma conexão com a platéia e fazer com que ela se envolva em sua história.

Cotação: 5,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, December 16, 2006

007 - Cassino Royale (Casino Royale, 2006)


A última aparição do agente 007 James Bond no cinema, no filme “007 – Um Novo Dia Para Morrer”, foi um verdadeiro sucesso. Mas, ninguém poderia imaginar que os produtores da série estavam insatisfeitos com os filmes da franquia, que pouco atraíam um público jovem e consumidor de todos os produtos derivados de um filme como esse (em especial, os jogos de videogame). Portanto, contrariando a tese de que “em time que está ganhando, não se mexe”, os produtores trocaram a parte mais visível dos filmes – o diretor (saiu Lee Tamahori e entrou Martin Campbell, que dirigiu “007 Contra GoldenEye”) e, na decisão mais polêmica de todas, o ator principal (saiu Pierce Brosnan e entrou Daniel Craig). A escolha de Craig (bom ator de filmes como “Estrada Para Perdição” e “Sylvia – Paixão Além das Palavras”) deixou os fãs do agente mais charmoso do cinema desconsolados.

A estratégia seguinte foi copiar algo feito com sucesso em outro personagem mitológico do cinema: Batman. Assim como Christopher Nolan fez em “Batman Begins”, a proposta era começar do zero e esquecer os outros filmes. A melhor saída, então, foi usar como fonte de inspiração o livro de Ian Fleming que trouxe o agente pela primeira vez (“Cassino Royale”). Os produtores chamaram de volta os roteiristas de “007 – Um Novo Dia Para Morrer”, Neal Purvis e Robert Wade, e convocaram o premiado roteirista Paul Haggis (de “Menina de Ouro”) para lapidar a história criada pelos dois. O resultado é “007 – Cassino Royale”, filme que marca o início de uma nova era para James Bond.

O filme é dividido em três atos. No primeiro, Bond acabou de ser promovido por M. (Dame Judi Dench) à agente 00 (com licença para matar). A missão dele é vigiar um terrorista pequeno, mas ele acaba desvendando um plano maior. Sob a liderança de Le Chiffre (Mads Mikkelsen), diversos grupos terroristas, que estão espalhados pelo mundo, investem em ações na bolsa de valores com o objetivo de ganhar dinheiro para financiar novos ataques. O plano deles é investir em uma empresa que constrói aviões e destruir o mais novo protótipo deles, de forma a fazer com que as ações da companhia despenquem e eles ganhem milhões. É óbvio que isso não irá acontecer, pois Bond acaba com os planos do grupo.

Fato que nos leva ao segundo ato de “007 – Cassino Royale”. Com todos os grupos terroristas no seu encalço, Le Chiffre tem que arrumar outra maneira de recuperar o dinheiro que perdeu. Por isso, ele cria um torneio de pôquer no Cassino Royale de Montenegro. E é claro que James Bond – agora na companhia da bela contadora do Ministério da Fazenda inglês Vesper Lynd (a atriz francesa Eva Green) – estará participando do torneio para dificultar a vida de Le Chiffre e deixá-lo em uma situação ainda mais desesperadora.

No terceiro ato, depois que a maioria dos conflitos de “007 – Cassino Royale” já estão resolvidos, James Bond ousa vislumbrar uma vida comum ao lado de Vesper (por quem ele se apaixonou). Aqui, podemos fazer um paralelo com outro agente secreto do cinema, Jason Bourne (intepretado por Matt Damon nos filmes “A Identidade Bourne”, “A Supremacia Bourne” e, em breve, “The Bourne Ultimatum”). Assim como Bourne, Bond aprenderá que levar uma vida normal é impossível para alguém como ele, pois ele nunca conseguirá confiar em ninguém e o seu passado nunca o deixará em paz.

“007 – Cassino Royale” é um filme bem-sucedido no seu propósito de renascer James Bond. O personagem nos é apresentado de uma maneira completamente diferente daquela que conhecíamos e, no filme, testemunhamos todo o seu processo de transformação. Os acontecimentos retratados neste filme serão de fundamental importância para as futuras continuações. Entender o que se passa com o homem por trás do smoking é fundamental para compreendermos a maneira como ele desempenha as tarefas às quais é designado. E essa é a maior contribuição que “007 – Cassino Royale” nos faz. Mudar às vezes é bom, e esse filme é a maior prova disso.

Cotação: 8,2

Crédito Foto: Movies Yahoo!

Monday, December 11, 2006

A Última Noite (A Prairie Home Companion, 2006)


O diretor, roteirista e produtor Robert Altman era um daqueles poucos profissionais do cinema que podia se orgulhar de ter, no seu currículo, filmes dos mais diversos gêneros – para se ter uma idéia, até faroestes ele fez. Apesar de sempre ter sido um cineasta aclamado pela crítica, Altman nunca viu seus filmes serem sucessos comerciais. Mesmo assim, conquistou uma legião de fãs entre os cinéfilos.

Nos últimos anos, era notável que o estado de saúde de Robert Altman estava ficando delicado. Durante a produção de “A Última Noite” – aquele que acabaria sendo o último filme dele na cadeira de diretor –, isso ficou ainda mais claro (tanto que, para finalizar o filme, Altman precisou da ajuda do amigo diretor Paul Thomas Anderson). Nesta película, Altman retrata aquele momento que o artista mais teme: o fechar das cortinas, o fim do espetáculo. Muitos aqui enxergam na trama do filme, uma própria metáfora com o momento vivido pelo diretor naquele instante particular: estaria ele fazendo o seu último filme? Teria ele pique para criar outras novas obras? Na realidade, ninguém ao certo saberá se Robert Altman realmente compreendia que “A Última Noite” seria o seu derradeiro filme.

Assim como em muitos de seus outros filmes, Altman reuniu ao seu redor um grande elenco, formado por Meryl Streep e Lily Tomlin (como as irmãs Yolanda e Rhonda Johnson), Woody Harrelson e John C. Reilly (como a dupla Dusty e Lefty), Lindsay Lohan (como Lola Johnson, a filha de Yolanda), Garrison Keillor (que também escreveu o roteiro de “A Última Noite” e interpreta a si mesmo), Tommy Lee Jones (como o interventor da grande corporação de emissoras de rádio), Virginia Madsen (como um anjo), Kevin Kline (como o chefe de segurança do teatro) e Maya Rudolph (como a produtora do programa), dentre outros. Também como é de costume nos filmes do diretor, todos os atores terão o seu momento para brilhar.

Este grupo interpreta um conjunto de artistas cantores de música country/bluegrass; de locutores, produtores e funcionários de uma emissora de rádio que, após mais de trinta anos juntos, fará a última transmissão do programa “A Prairie Home Companion” – que, à moda dos programas antigos de rádio, é transmitido ao vivo de um teatro com a presença de uma platéia.

“A Última Noite” se divide em dois planos de ação: o que acontece nos bastidores e o que acontece no palco. Nos camarins, existe a nostalgia, o encontro com as origens de cada uma dessas pessoas. No palco, como se lá fosse o local magnético de um encontro único, ocorre a magia, o deleite e a emoção embaladas por uma série de lindas – e, em alguns casos, divertidas – canções. Todos estes elementos realmente formam uma grande metáfora sobre o fim. O interessante é perceber que nenhum personagem encara a despedida, mesmo sabendo que ela irá acontecer. É aquele velho conceito de que o show tem que continuar.

Quando “A Última Noite” estreou nos cinemas de minha cidade, Robert Altman já havia falecido. Se assistir a um filme dele em circunstâncias normais já seria muito especial, fazer isso agora transforma essa experiência em algo inesquecível. Após a morte de um dos personagens de “A Última Noite”, vemos aqueles que permaneceram discorrendo sobre qual a maneira correta de se lembrar de alguém. Garrison Keillor diz que gostaria que as pessoas não se sentissem obrigadas a se lembrar dele. No caso de Altman, ele estará vivo para sempre nas memórias daqueles que assistiram aos seus filmes. Seu legado permanecerá eterno por inúmeras gerações.

Cotação: 8,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, December 09, 2006

Volver (2006)


Depois de dois filmes (“Fale com Ela” e “Má Educação”) que mergulhavam no universo masculino, o diretor e roteirista espanhol Pedro Almodóvar retorna a um mundo que ele ama e conhece como ninguém: o das mulheres. No filme “Volver”, Almodóvar aborda como as questões de vida e de morte afetam a vida de três mulheres oriundas de uma mesma aldeia espanhola – e que já é misteriosa por si só, pois, reza a lenda, que seus habitantes ficam loucos com grande facilidade.

Quando a gente conhece as três mulheres de “Volver”, dá para começar a entender o por quê da existência da linha tênue entre sanidade e loucura. Raimunda (Penélope Cruz, que recentemente ganhou o prêmio de melhor atriz no European Film Awards pela sua performance neste filme) e Sole (Lola Dueñas) perderam os pais em um incêndio e, na primeira oportunidade que tiveram, abandonaram a aldeia e foram para Madrid. No início do filme, elas – na companhia de Paula (Yohana Cobo), filha de Raimunda – estão no vilarejo polindo e limpando o túmulo de seus pais. Após fazerem isso, as duas aproveitam e visitam a Tia Paula (Chus Lampreave) – o único parente vivo que elas têm –, que vive sozinha e está louca e doente.

Agustina (Blanca Portillo) também perdeu a mãe, que está desaparecida, e mantém pouco contato com a irmã, que está mais interessada em obter atenção e sucesso. Assim como a sua genitora, que era hippie, Agustina tem uma personalidade exótica e planta e fuma maconha como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Mas, você deve estar se perguntando, o que Agustina tem a ver com Raimunda e Sole? Agustina é a vizinha de Tia Paula e cuida dela, verificando se ela está bem e se ela terá o pão de cada dia para comer.

A vida destas três mulheres dará uma guinada de 360 graus quando Raimunda chega em casa e encontra Paco (Antonio de la Torre), seu marido, morto pela filha depois deste ter tentado abusar sexualmente dela; quando Agustina recebe o diagnóstico de que está com um câncer terminal; e quando Tia Paula morre e Sole volta à aldeia para cuidar do enterro e das coisas de sua tia, e acaba se deparando com o fantasma de sua mãe (Carmen Maura), que parte com a filha de volta à Madrid, pois, aparentemente, ela ainda tem algumas coisas para resolver no mundo dos vivos. Em comum nestes casos é a necessidade que cada mulher tem em dar um fechamento a algum capítulo doloroso de sua vida. Ou seja, algumas portas se fecharão, enquanto outras irão se abrir.

Quando você perde alguém que você amava muito, de certa maneira, você acaba se acostumando a viver sem ele (a). Como? Ou você passa batido pela vida (como Sole), ou você opta por seguir com ela (como o trator Raimunda, que numa cena esconde o corpo do marido em um freezer, e, em seguida, está fazendo um almoço para trinta pessoas). Mas existe também aquela situação em que você fica estagnada (como Agustina) e só pode continuar a viver depois de entender tudo pelo que você passou.

No entanto, “Volver” não se interessa por isso. O roteiro de Pedro Almodóvar (que é muito bem encenado pelas suas atrizes) quer desvendar o momento em que se decide voltar à vida. Pensemos um pouco na mãe de Raimunda e Sole. Como voltar a um mundo em que você não existe? Como viver e sentir dessa maneira? Talvez o maior propósito de sua presença, da sua volta, é devolver às filhas – e, de certa forma, à Agustina – a vida que elas deixaram para trás. E, a partir do momento em que se tem a volta, a ausência passa a ser insuportável. Isso é muito bem ilustrado na frase mais tocante de “Volver”, em que Raimunda olha para sua mãe e diz: “Preciso de você, mamãe. Não sei como consegui viver tanto tempo sem você”.

Cotação: 9,3

Crédito Foto: Yahoo! Movies

O Ilusionista (The Illusionist, 2006)


A data de estréia inicial de “O Ilusionista”, do diretor e roteirista Neil Burger, no Brasil, seria o dia 17 de novembro. No entanto, a estréia de “O Grande Truque”, filme de Christopher Nolan, nas salas de cinema brasileiras, modificou todo o esquema armado pela Focus Filmes, a distribuidora do primeiro filme no país. E, realmente, ter adiado a estréia de “O Ilusionista” foi a decisão mais acertada que eles poderiam ter tomado. Mesmo assim, toda a visão que teremos sobre o filme de Burger será contaminada pelas nossas impressões sobre o filme de Nolan.

Por se tratar de filmes com um tema principal em comum – a mágica –, tanto “O Ilusionista” quanto “O Grande Truque” possuem alguns pontos convergentes. O personagem principal de “O Ilusionista”, Edward Abramowitz (Edward Norton, que compõe o seu personagem como se ele fosse um homem morto por dentro, um tanto frio e racional), vê a sua vida mudar depois de um encontro com um misterioso mágico. Ele pode não ser um showman como Robert Angier, mas tem a competência de um Alfred Borden. Já com a alcunha de Eisenheim, o Ilusionista, ele se transformou em um mágico com grandes poderes – o de parar o acelerar o tempo seria o mais incrível deles.

O segundo ponto convergente entre os dois filmes encontra-se no ponto de mudança da história. Nos dois filmes, a perda do ser amado causa transformações permanentes na vida dos personagens principais. Eisenheim, por exemplo, abandona a sua cidade natal (Viena) depois de ser proibido de ver o amor de adolescência, vaga pelo mundo e só depois de quinze anos retorna ao lar para reencontrar o seu grande amor, a Duquesa Sophie (Jessica Biel), que agora está prometida ao príncipe herdeiro da Áustria, Leopold (Rufus Sewell). O reencontro fará com que Eisenheim comece a utilizar os seus poderes para o seu próprio proveito (para separar Sophie de Leopold) e, nesse caso, ele não hesitará em transpor nenhum limite.

O terceiro ponto em comum diz respeito ao modo como os dois diretores resolveram contar as suas histórias. Nos dois filmes, há o uso de flashback. Também em ambos os filmes, cabe a um personagem a tarefa de nos guiar pela trama. Em “O Ilusionista”, isso é responsabilidade de Walter Uhl (Paul Giamatti), inspetor-chefe da polícia austríaca, apaixonado por mágicas, e que é designado pelo príncipe Leopold para acompanhar todos os passos de Eisenheim. No decorrer do filme, Uhl viverá um grande conflito: fazer o que é correto ou o que é esperado dele.

A platéia que assiste à “O Ilusionista” fica com a impressão de que o filme não tem nada de extraordinário. Uma hora, ele é uma história de amor clássica, em outro momento um drama, depois um suspense e, por fim, um thriller político. No final, quando todas as peças são colocadas em seus devidos lugares, temos a sensação de que passamos, mais uma vez, por um grande truque.

“O Ilusionista” é um filme à moda antiga. Essa não é uma película para entreter, como “O Grande Truque”. Por esta razão, “O Ilusionista” não é um filme para qualquer pessoa. Escrito e dirigido com competência por Neil Burger, o filme conta com grandes atuações de seu elenco e merece, no mínimo, indicações ao Oscar de melhor direção de arte (a maior parte das cenas foi filmada em locações reais na cidade de Praga), melhor figurino e melhor trilha sonora (a de Philip Glass é a mais perfeita feita para um filme, até agora, no ano de 2006). Se você for assistir à “O Ilusionista”, sente com calma na poltrona do cinema e preste muita atenção na trama, pois filmes como esse – e como “O Grande Truque” – são únicos.

Cotação: 8,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Monday, December 04, 2006

Jesus - A História do Nascimento (The Nativity Story, 2006)


O livro mais importante da história da humanidade é a Bíblia. Dentro dele, existe uma riqueza de personagens e de histórias, as quais muitas já foram contadas à exaustão pelo cinema. No entanto, ainda existe uma história que permanece carente de uma boa interpretação: a de Maria, a jovem escolhida por Deus para ser a mãe de Jesus. O filme “Jesus – A História do Nascimento”, da diretora Catherine Hardwicke, se propõe a contar um pouco da história dela.

A trama do filme se passa no período de um ano, ou seja, desde o momento em que o anjo Gabriel (Alexander Siddig, de “Syriana – A Conquista do Petróleo”) aparece para Maria (Keisha Castle-Hughes, que recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por sua interpretação em “A Encantadora de Baleias”) e informa-a sobre a sua missão, até quando o rei Herodes (Ciáran Hinds, do seriado “Roma”) ordena que seus soldados matem qualquer menino de, no máximo, dois anos de idade que esteja na cidade de Belém – de forma a impedir que a profecia que afirmava que, de um homem humilde, iria nascer o maior de todos os homens se concretizasse.

Nesse primeiro momento, “Jesus – A História do Nascimento” se divide em diversas linhas narrativas: a principal, que acompanha o dia-a-dia de Maria em Nazaré e as secundárias, que acompanham Herodes e os três Reis Magos em sua busca pelo Messias. É justamente neste primeiro momento que o filme vive o seu instante mais rico, pois o roteirista Mike Rich usa a imaginação para tentar mostrar o conflito que se passou na cabeça de Maria e de José (Oscar Isaac) a partir do momento em que ela ficou grávida.

Vejamos: Maria, uma jovem virgem, se casa com José, um rapaz jovem e trabalhador. O casamento não é bem recebido por Maria e só poderá ser consumado após um ano de relacionamento, no qual cada um deles viverá em casas separadas. Ao saber que terá a missão de carregar o filho de Deus, Maria abandona a cidade de Nazaré e parte para a casa de sua tia Isabel (Shohreh Aghdashloo, indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme “Casa de Areia e Névoa”), a mãe do futuro apóstolo João, em busca de conselhos.

Quando Maria volta à Nazaré, já com a barriga bem saliente, o escândalo está armado. Ninguém (nem mesmo os membros de sua própria família) acreditam na história que ela conta sobre o anjo e sobre o filho de Deus e, por conseqüência disso, Maria vira a vergonha da comunidade. José, a princípio, a renega e, somente após receber também a visita do anjo Gabriel, é que ele aceita Maria de volta e decide criar o filho dela como se fosse seu.

Num segundo momento, a trama de “Jesus – A História do Nascimento” acompanha Maria e José na viagem que eles fazem de Nazaré até Belém, por causa da resolução de Herodes de que todo homem tem que voltar com a sua família para a sua cidade natal. É a partir desta cena que o filme começa a virar uma adaptação mais literal de toda a história que conhecemos através da Bíblia.

A diretora Catherine Hardwicke ficou famosa pelos filmes que abordavam o universo jovem e urbano, como “Aos Treze” e “Os Reis de Dogtown”. Com “Jesus – A História do Nascimento”, a diretora abraça uma história e uma maneira de fazer cinema que é mais convencional. Quase que não reconhecemos traços de seu estilo neste filme. Pode parecer estranho, já que estamos falando da adaptação de uma história que todos nós conhecemos de cor e salteado, mas o que mais falta à “Jesus – A História do Nascimento” é originalidade. Tudo parece uma repetição de algo que já foi visto. E, para quem está acostumado a assistir aos filmes de Hardwicke, isto é muito decepcionante.

Cotação: 7,0

Crédito Foto: Yahoo! Movies

Saturday, December 02, 2006

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, Pan's Labyrinth, 2006)


Muito já se foi discutido aqui sobre a última estratégia da indústria cinematográfica de Hollywood: convidar roteiristas e diretores estrangeiros para fazerem filmes nos Estados Unidos. No entanto, existe um outro fenômeno ocorrendo com certa freqüência no cinema: a volta de diretores aos seus países de origem para fazer filmes. Isso aconteceu, em 2001, com o cineasta mexicano Alfonso Cuarón e seu “E Sua Mãe Também”; e, em 2002, com o diretor australiano Phillip Noyce e seu “Geração Roubada”. Nos dois casos, os filmes foram recebidos pela crítica com aclamação e deram outro gás às respectivas carreiras de ambos os diretores.

Se formos prestar atenção na lista de filmes submetidos à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas para a categoria de melhor filme estrangeiro, veremos outros dois nomes conhecidos que fizeram essa transição de volta para casa: o do diretor holandês Paul Verhoeven (com o filme “Black Book”) e o do diretor mexicano Guillermo Del Toro (com “O Labirinto do Fauno”). Este último fez carreira nos EUA ao realizar estilosos filmes de ação baseados em personagens de histórias em quadrinhos como “Blade – O Caçador de Vampiros”, “Blade 2” e “Hellboy”. Com “O Labirinto do Fauno”, Del Toro mostra que continua estiloso e violento, mas, ao mesmo tempo, ele oferece um lado suave, pois seu filme tem muitos elementos advindos dos contos de fadas.

Explico: no início de “O Labirinto do Fauno”, somos apresentados ao conto de uma princesa que vivia em um mundo triste e obscuro. O sonho dela era conhecer o mundo real. Ao conseguir encontrar a luz produzida pelo mundo real, a princesa vê o seu passado ser apagado de sua memória. Ela morre e deixa a esperança no seu pai de que, um dia, ela irá reencarnar em um outro ser ou sob outra forma.

Em seguida, conhecemos a história da menina Ofelia (Ivana Baquero) que, assim como a princesa do conto de fadas, vive num mundo obscuro (a Espanha do regime de Franco). Sua mãe (Ariadna Gil) está casada e grávida de um capitão do regime (Sergi López, numa excelente performance). As duas estão indo ao encontro dele no seu quartel-general (uma casa nas montanhas). Ofelia guarda ainda uma outra semelhança com a princesa: ela sonha com o mundo que só conhece através dos livros que lê.

Logo logo, o mundo fantástico que Ofelia só conhecia através dos livros irá invadir a sua vida real. Os seres do mundo da princesa acreditam que a garotinha é a reencarnação da menina falecida e começam a passar tarefas, de modo que Ofelia possa provar que pode assumir o lugar da princesa ao lado de seu pai. Essa história vai ao segundo plano quando Ofelia começa a perceber que o seu mundo real é ainda mais complicado e precisa de consertos urgentemente. É a partir desse momento que a platéia irá assistir a um filme tenso, violento e cheio de sub-tramas (como a que coloca Mercedes – interpretada por Maribel Verdú, de “E Sua Mãe Também” –, a empregada do capitão, como informante de um grupo de resistência ao regime franquista) que, em nenhum momento, prejudicam o desenvolvimento da trama principal.

“O Labirinto do Fauno” é o melhor filme realizado por Guillermo Del Toro (que, além de assinar a direção, fez o roteiro e a produção da película). A execução dele é praticamente perfeita – com destaque para a fotografia de Guillermo Navarro, a trilha de Javier Navarrete e a direção de arte de Eugenio Caballero. O filme tem uma moral belíssima e prova que se pode abordar assuntos delicados se apelando para a fantasia. Só nos resta ver se esta visão de Del Toro não é um pouco arrojada demais para a Academia, pois este é um filme que merece reconhecimento.

Cotação: 8,5

Crédito Foto: Yahoo! Movies